Wednesday, May 14, 2014

a pérola do sucesso de Schopenhauer


"Cada pessoa nasce para uma coisa na vida, mas poucas têm a sorte de descobrir qual é essa `coisa`, e por isso são poucas as que são felizes e bem-sucedidas em seu trabalho".
Corintiano, criativo, carismático e competente,  Washington Olivetto comprova, por essas e tantas outras virtudes, ser ele próprio uma das exceções (não a clubística, pois somos nisto maioria esmagadora) a que seu comentário acima se refere. Ele transborda a felicidade e aura de sucesso de quem identificou a tal "coisa" em sua própria trajetória. O nome dessa coisa, para Schopenhauer, é "caráter adquirido", conceito que ele desenvolve lá para o fim do capítulo 55 de O Mundo Como Vontade e Representação (p. 391ss da edição brasileira).
De um mestre do pessimismo como Schopenhauer, esperaríamos tudo, menos que assumisse o papel de guru, ou, como se diz hoje, de "coach", dos dilemas da busca do sucesso pessoal. Mas é exatamente a isso que se oferecem essas linhas surpreendentemente luminosas de seu tratado, ainda mais sombrio na parte 4, onde elas residem. Pois é nessa parte 4 que Schopenhauer aprofunda o que os budistas chamam de primeira das "quatro nobres verdades" ensinadas pelo Tathagata: "dukkha" - a vida como sofrimento, não porque em algum cômputo de todas as nossas vivências empíricas, as ruins necessariamente sobrepujem as boas. Mas sim porque qualitativamente ela é de uma natureza tal, em sua transitoriedade, fluidez e vazio,  que se choca com nossas atitudes psicológicas de egoísmo, apego, avidez, ódio e ignorância. Padecemos mais por nossas interpretações do que pelos fatos que as deflagram. A interpretação vira fato. Mais que dor, o sofrimento como dissonância de nossa atitude ante o real. 
Ora, se a verdade do sofrimento é "nobre", é por seu valor pedagógico, no potencial de evolução de que ela é grávida, e de que nossa consciência, tal como Sócrates, outra personificação universal da sabedoria, é "parteira" se tiver a perícia, a sensibilidade e a coragem de se atracar ao sangue e às dores materiais e psíquicas do dar-se à luz do espírito. 
Talvez por isso a reflexão de Schopenhauer sobre o caráter adquirido, ou melhor dizendo, caráter conquistado, se insira exatamente no passo que precede o mais direto enfrentamento filosófico com o problema das "tenebris vitae"(trevas da existência). Como uma espécie de advertência a que o húmus humano se deixe desabrochar no lótus do melhor de si capaz de nos perfumar da luz que as trevas "não compreenderam" na selvageria inóspita dos níveis mais grosseiros de energia e matéria que nos perpassam. Como uma instrução pragmática e iniciática rumo às virtudes (potências) de caráter, no sentido tanto moral quanto de eficácia comportamental, as ferramentas e alimentos indispensáveis à grande travessia do sem-sentido do mundo. 
Nessa discussão de tantos ecos protopsicanalíticos sobre a personalidade, Schopenhauer se mostra partidário, mais como os hindus que como os budistas, da ideia da existência, ao menos no nível de um "como se"psicológico (nossa psicologia é repleta de artifícios de espessamento ôntico com que se defende do e ordena, em suma, contorna e dá contorno ao vazio ontológico radical), eu dizia, da existência de um um caráter essencial, um cerne identitário pessoal, que um Winnicott chamaria de "verdadeiro self", como origem, destino e tarefa.
Mas esse self, esse caráter inteligível, cujo reflexo no dia-a-dia tem o nome de caráter empírico, é também uma conquista progressiva ao longo da vida. Um paradoxal  "tornar-se o que se é", como seu discípulo Nietzsche viria a formular, e que o mestre de Frankfurt já colocava nos termos límpidos como os lagos suíços cuja profundeza transparente ele adotava como modelo de prosa:  "Embora sejamos as mesmas pessoas, nem sempre nos compreendemos". 
A odisseia da conquista do caráter é, na travessia do sem-sentido do mundo, essa outra viagem particular por nossa própria inconsciência particular, essa distância de si para si, entre nosso ser e o nosso saber quem somos, no caminho durante o qual vamos nos tornando ourives aptos a melhor moldar a vontade que nos molda (a essência dos entes é sua vontade de ser, em choque com as forças antagônicas dentro e fora deles). 
O ser próprio se conquista não tanto por uma expansão quanto por um esvaziamento, por assim dizer búdico, o acesso ao sucesso de ser por um des-cer das abstrações do que o filósofo chama de o "homem em geral", que em nossos dias tem dramática manifestação nas poluições superpopulacionais de corpos e ruídos superpostos da terra sequestrada pelo teatro do homem-massa e suas cachaças e balbúrdias na errância de choque em choque da sociedade de tráficos de compra e venda de tudo. 
Descobrimos, e aqui a nobreza saturnina do sofrimento acorre a nós como pedagogo da sobriedade que poda para deixar florescer mais forte,  que o mundo não está e nunca esteve para brincadeira. 
Não somos mais, na metáfora de Schopenhauer, como a "criança no parque de diversões", estendendo as mãos ávidas a tudo de excitante que aparece pela frente. Já não estamos à mercê das duras chicotadas da vida sobre nossas expectativas equivocadas e falta de foco e disciplina nas escolhas. Aprendemos a escolher, e portanto pagar o preço de renunciar a outras tantas alternativas que se acotovelavam às que tinham de ser as nossas. Assim fortalecidos em consistência, estamos também mais aptos à eficácia no que fazemos, daí o sucesso de ser convergir, pela produtividade existencial que nos traz, com o sucesso nas escalas mundanas do êxito pessoal e profissional.
Já não estamos de-pendentes sobre o abismo como funâmbulos que balançam, entre um lado e outro da mentira, seja nas torrentes de "generalidade" massificadora do id ou das repressões do "generalato" ditatorial do superego, entre cujos extremos está a centelha da singularidade, não-geral, de liberdade, sem general,  e da autorrealização pessoal, a "coisa" a ser descoberta, de que fala Washington Olivetto, ou a pérola a ser conquistada, segundo a anedota do poeta sufi Rumi, pelo aventureiro disposto a levantar a bunda de seus achismos à beira-mar e mergulhar:
 "Se esse conhecimento pudesse ser obtido simplesmente pelo que dizem outros homens, não seria necessário entregar-se a tanto trabalho e esforço, e ninguém se sacrificaria tanto nessa busca. Alguém vai à beira do mar e só vê água salgada, tubarões e peixes. Ele diz: "onde está essa pérola de que falam? Talvez não haja pérola alguma". Como seria possível obter a pérola simplesmente olhando o mar? Mesmo que tivesse de esvaziar o mar cem mil vezes com uma taça, a pérola jamais seria encontrada. É preciso um mergulhador para encontrá-la." 
A conquista de si é a receita do sucesso que importa, o de tornar-se o que se é, em estado profundo de contentamento e de libertação da mente em relação às amarras da cobiça, da inveja, do rancor e das demais patologias de quem ainda não descobriu que não há nada a esperar dos outros ou pelo que culpá-los. Mente que deixando de mentir, e assim contente com suas descobertas e experiências consigo, Schopenhauer cita Ovídio, "rompe com os laços atormentadores que sufocam o coração".  
-Unzuhause-