Saturday, May 31, 2014

Resenhas para a Folha, 31/05/2014

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir

FOLHA DE SÃO PAULO
Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
-Textos de CAIO LIUDVIK-

SEDUÇÃO REVOLUCIONÁRIA
[sobre o livro Uma Relação Perigosa, de Carole Seymour-Jones] 

As opções básicas de Carole Seymour-Jones, neste estudo biográfico sobre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, são felicíssimas: por exemplo, não deixar a admiração pessoal se degenerar em mais uma hagiografia, tão nociva quanto as "lendas negras" forjadas no fogo do ressentimento pelos inimigos de um dos casais mais célebres do século 20 e da história da filosofia. 
Outra boa escolha é o título. Ele faz alusão ao romance célebre de Choderlos de Laclos que, às vésperas da Revolução, satirizava os "bons costumes" da monarquia francesa e escandalizava pela perversão, dissimulação e libertinagem do visconde de Valmont e da marquesa de Merteuil. Nada muito distante da frieza e regozijo com que Sartre e Beauvoir seduziam, compartilhavam e descartavam suas presas sexuais. 
Ícone da causa da liberação das mulheres, o Castor, como ele a chamava, foi sua companheira de vida por mais de 50 anos, num relacionamento aberto que insuflou –como Laclos- ânimos revolucionários, no plano dos costumes, seja na contracultura dos anos 60 e 70 ou em nossa era de amores líquidos. 
A biógrafa também discute a parceria intelectual desses dois grandes nomes do existencialismo francês e temas polêmicos como a omissão de Sartre em relação à Resistência antinazista e o seu posterior engajamento pró-União Soviética.


AVALIAÇÃO - ÓTIMO

O NOVO TEMPO DO MUNDO
Às vésperas do primeiro aniversário das manifestações de junho de 2013, ler Paulo Arantes é de grande relevância, mesmo para quem não se inclui entre seus pupilos - muitos dos quais na linha de frente da onda de protestos. 
Paradoxalmente, não se trata aqui de um manifesto sobre a redenção iminente de um "novo mundo". Pois o filósofo tece uma crítica radical de uma civilização marcada pela colonização do futuro, pelo estreitamento ao mero mais do mesmo de uma vida em margens apertadas, a um permanente estado de exceção que não tem nada a oferecer senão repressão, "gestão" e esgotamento da imaginação política. 
Inércias que porém se transmutam involuntariamente em combustíveis da revolta popular e estudantil contra as formas tradicionais da representação partidária, do pão e circo e da sociedade mercantilizada. Daí as insurgências, sejam "ordeiras" ou não, significarem "profanações" (Agamben) catárticas cometidas por "gente sem nome que não está nem pedindo para sair nem aceitando as porradas da vida".
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O INCONSCIENTE JURÍDICO, de Shoshana Felman
Felman é uma das críticas literárias mais importantes da atualidade, tendo grande influência no estabelecimento de um gênero de investigação, os "estudos de trauma", particularmente apropriados para pensar o ciclo de catástrofes do século 20. 
Mobilizando ferramentas conceituais da literatura, psicanálise e teoria do direito, e inspirações em Kafka, Tolstoi e Walter Benjamin, Felman analisa e compara os julgamentos de Eichmann em Jerusalém, em 1961, e de O. J. Simpson, em Los Angeles, em 1995. O primeiro, tema de estudo clássico de Hannah Arendt sobre a barbárie instalada no âmago psíquico e burocrático da civilização moderna. O segundo, aparentemente de foro privado, tomou proporções como teatro do embate entre as questões do preconceito racial e da violência contra a mulher.
 Que ambos tenham sido, a seu tempo, considerados "julgamentos do século" é um sintoma de que o próprio século 20 esteja no banco dos réus, com um ideário de justiça, cuja simbólica "cegueira" denotaria sua inconsciência ante os traumas individuais e coletivos que, ao invés de aplacar, perpetua.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O PLANETA DOS SÁBIOS
É quase sempre bem-vinda a iniciativa de introduções pop à filosofia, preparando o leitor médio ao desafio de textos quase sempre bem mais áridos do que as duas ou três formulações mais acachapantes  e curiosidades biográficas pelas quais os gênios do passado tendem a ser "assimilados".  Não é pelo espírito que o anima, pois, que este livro do filósofo e jornalista francês Charles Pépin, com ilustrações do cartunista Jul, decepciona. Nem por satirizar vagas sagradas da tradição, seja um Rousseau pelado, em ilustração de seu conceito de "homem natural",  ou um Heidegger vestido de Bob Marley e de Mickey, ou grandes instituições acadêmicas francesas.
Lembremo-nos, com Pascal, de que zombar da filosofia pode ser também um jeito de filosofar. O problema é esse, a escassez de insights filosóficos em potencial na zombaria. Seja no caso dos verbetes ou, menos ainda, nos cartuns, que oscilam entre sem graça, bocós (vide os dedicados a Hobbes, Bachelard ou Bergson) e o péssimo gosto, caso de "Assim Botou Zaratustra", em que um Nietzsche ensandecido se põe a trucidar uma galinha. 
Em meio à mediocridade, uma ou outra pérola se encontra, como  a doçura do retrato visual e verbal de  Simone Weil, para quem a filosofia, despojada das arrogâncias da vaidade, se religa com um senso de santidade como fruto  da graça, inspiração espontânea, não esforço e dilaceramento interior como no moralismo de tipo kantiano.
AVALIAÇÃO – REGULAR

HUNI KUIN HIWEPAUNIBUKI, organizado por Eliane Camargo e Diego Villar
A antropologia pós-moderna, de nomes como James Clifford e Georges Marcus, inovou pela crítica da suposta neutralidade científica e da confiabilidade objetiva dos textos etnográficos. Se a observação participante foi útil para a desmontagem da pretensão generalista dos teóricos de gabinete, aqui é ela própria alvo de desconstrução; é mais uma versão na corrente de interpretações que entretecem o "texto" vivo das culturas estudadas.  
 Este livro sobre "a história dos caxinauás por eles mesmos", é desdobramento radical dessa linha de pesquisa, quebrando o  monopólio do pesquisador. Povo indígena de cerca de 6. 000 habitantes, na fronteira de Brasil e Peru, os caxinauás tomam a palavra e discorrem sobre antepassados, costumes como o canibalismo e contatos com os brancos, em depoimentos  na língua original (com tradução), complementados por "reinterpretações" de pesquisadores.
AVALIAÇÃO -ÓTIMO