Friday, May 09, 2014

o jornalismo segundo Dostoiévski


Prezados, por conta de afazeres em torno do meu currículo, topei com um artigo que fiz em 2002, sobre Dostoiévski enquanto jornalista. Eu era então aluno do inesquecível curso de jornalismo cultural de Marcelo Coelho na Cásper Líbero. Trabalho de aproveitamento para essa disciplina, o texto veio depois a ser publicado pela prestigiada revista eletrônica "Trópico". 
-Unzuhause- 

Dostoiévski, o jornalismo como missão
-Caio Liudvik-
O 3º tomo da biografia feita por Joseph Frank vasculha a experiência do escritor na imprensa

Em tempos de esfacelamento das tradicionais balizas de construção da identidade pessoal, oferecidas pela família, trabalho ou religião, o destaque das biografias nos rankings de livros mais vendidos é um sintoma. Parece denotar a busca de novas formas de referência, de "exemplos" pregressos de encarnação individual de valores como o Sucesso ou a Virtude. Dito em termos religiosos, um apelo a "intercessores" do além-vida histórico ou mítico, para que tragam bússolas que nos auxiliem a suportar o turbilhão.
Aqueles que encontram prazer em esnobar tal demanda como "narcísica" e tal oferta como mera "auto-ajuda" deveriam dar uma pausa ao mau-humor e se permitir certas experiências. Entre elas, a leitura de Joseph Frank, um dos principais biógrafos de Fiódor Dostoiévski.
O crítico americano, professor emérito da Universidade de Stanford, é autor de um estudo monumental, em cinco volumes -o último dos quais recém-lançado nos EUA- sobre o escritor russo (1821-1881). Entre nós, já foi publicado há pouco pela Edusp o livro “Dostoiévski - Os Efeitos da Libertação”, que, terceiro da série, cobre o período entre 1860 e 1865.
Alguém pode perguntar, desde logo, por que reservar um estudo em separado -e que consome mais de 500 páginas- para um intervalo tão curto de vida do biografado. Mas nisso Frank deixa ver um dos grandes méritos de sua abordagem: o que poderíamos chamar de capacidade de "aderência ao objeto".
O biógrafo "apalpa" com tamanho rigor e paixão as complexas dobras e sinuosidades do universo dostoiévskiano, que é como se não pudesse ter dado destaque menor a esses "cinqüenta (ou mais) anos em cinco", que marcaram o regresso do autor de “Os Irmãos Karamázov” à cena literária e cultural, após a década que passou preso e exilado na Sibéria, por subversão política.
Não por acaso, um dos volumes da biografia foi premiado com o prestigioso National Books Critics Circle Award. A homenagem fez justiça não só a um esforço de pesquisa ou a seus resultados práticos, mas também, e em especial, à sua perspectiva metodológica, que Frank resume, no prefácio de “Os Efeitos da Libertação”, nos seguintes termos: "Um biógrafo literário não está obrigado, necessariamente, a colocar em primeiro plano os detalhes extrínsecos, anedóticos, da vida particular do biografado; esses podem ser apresentados em função da obra do escritor e subordinados estritamente ao delineamento mais completo do contexto sociocultural e literário".
No período entre 1860 e 1865, o crítico vê uma peculiar "simbiose criativa" entre as efervescências por que passa a Rússia e as mutações filosóficas e estéticas em curso no projeto literário de Dostoiévski.
De um lado, um marco divisório na vida do país: a assinatura do czar Alexandre II, em 19 de fevereiro de 1860, do decreto que acabava com a servidão. A medida, parte de um leque de reformas liberalizantes, que incluíam o atenuamento da censura, foi tanto estímulo como resposta à emergência política de novos atores sociais, sobretudo uma camada de intelectuais que, em suas pressões por mudanças no regime quase "feudal" da Rússia da época, cerrariam fileiras em torno de bandeiras como o "radicalismo" e o "niilismo", tema do clássico “Pais e Filhos”, de Turguiênev.
Também para Dostoiévski a liberdade era então problema crucial, e em mais de um sentido. Primeiramente, é claro, por ter acabado de reavê-la, após o longo período de cárcere siberiano. Depois, pelo seu senso de compromisso com o progresso social, que remontava às lutas políticas e literárias que travara na década de 1840. Seu retorno a Petersburgo lhe pareceu coincidir com o advento de uma ordem mais justa e humana, pela qual tanto ansiara e pagara preço tão alto.
Mas, como mostra Joseph Frank, o longo convívio de Dostoiévski com seus colegas de prisão, na maioria oriundos das camadas rurais e pobres do país, afetara em profundidade seus valores éticos e metafísicos. Ele reencontrou ali, quer como constatação por assim dizer "etnológica", ou como insumo existencial indispensável para si mesmo, o vigor do cristianismo e dos valores comunitários na cultura russa.
Os fiapos de auto-afirmação a que podia se agarrar, sob condições de total precariedade material, o marcaram para sempre, passando por provas irrefutáveis da "liberdade" específica da alma e da precedência dos objetivos espirituais sobre os materiais.
Frank mostra que os desvios ou refrações de Dostoiévski ante a gramática materialista, crescentemente em voga no meio artístico e teórico, eram, eles próprios, relativamente afins a um dispositivo ideológico assimilável a certos setores da intelligentsia: os "eslavófilos", defensores de uma suposta essência moral e religiosa que, latente no "povo" russo, seria irredutível a "valores" ocidentais como a luta de classes. O socialismo, por exemplo, não seria um mal em si, desde que entendido no espírito das comunas camponesas e da "harmonia étnica" que, ao contrário das nações européias, a Rússia poderia se orgulhar de ter.
Como se vê, não são poucas as nuanças e contradições do quadro social da época e da paisagem mental em que o escritor incuba as obras-primas que logo viriam à tona, como “Memórias do Subterrâneo”, de 1864, e “Crime e Castigo”, de 1866. Mas o que mais chama atenção no estudo de Frank, que nisso se distingue de outros comentadores de Dostoiévski, é sua ênfase na forma eminentemente "jornalística" como tais polarizações estéticas e ideológicas foram vividas e metabolizadas pelo escritor russo.
Mais que conjunto de "detalhes extrínsecos, anedóticos", o percurso de Dostoiévski como editor de revistas literárias -"O Tempo" ("Vriêmia") e depois "A Época" ("Épokha")- corresponde à espinha dorsal de sua práxis no período. E tampouco aqui ele é um caso isolado. O relato de Frank deixa ver que, para além dos limites da corte imperial, e ainda aquém da institucionalização acadêmica, a vida intelectual da Rússia, concentrada em Petersburgo, tinha como canal por excelência os jornais e revistas.
É na e pela imprensa que podiam encontrar abrigo e projeção os intelectuais não aquinhoados com títulos de nobreza, e que foram chamados de “raznotchíntsy”, isto é, homens sem status (“tchin”) fixo no sistema russo de castas e que equivaleriam, no dizer de Marshall Berman, ao Terceiro Estado na França pré-revolucionária.
Ao invés de "devaneios de um caminhante solitário", aparentemente privilegiados na superfície de alguns de seus romances, Dostoiévski teve na polifonia -conceito forjado por Bakhtin justamente em estudo sobre o escritor russo- um método crucial. E isso não só em suas criações literárias, mas também em sua auto-invenção pessoal e profissional, à qual foi inescapável a inserção em uma sociedade recortada em visões de mundo díspares e avessa a profissões de fé políticas, estéticas e filosóficas uníssonas, ainda mais no caso do público leitor urbano e intelectualizado das revistas literárias.
Embora cresça gradativamente a sua identificação com teses eslavófilas, Dostoiévski impõe, sobretudo à revista mensal "O Tempo" -que, tópico central do livro de Frank, será também aqui enfatizada- uma linha editorial de "independência", uma eqüidistância que, invariavelmente, tentava dialetizar os opostos ideológicos e separar o "joio do trigo", a boa intenção do excesso.
Tal postura foi apontada por críticos da época e por futuros biógrafos como oportunista -uma adaptação ao pluralismo da época, que camuflaria suas reais afinidades conservadoras. Frank desmente essa interpretação. Ele diz que, sim, o "mercado" editorial impunha cautela a quem ambicionasse outros públicos que não o fanaticamente eslavófilo. Mas já nesse desejo, argumenta o biógrafo, Dostoiévski mostrava um descolamento "sincero" em relação ao que via como tendências retrógradas em tais setores, que ainda àquela altura da "evolução histórica" -traço de hegelianismo presente no escritor- eram capazes de elogiar o regime servil russo ou, senão isso, ao menos considerá-lo "moralmente" superior ao regime feudal vigente na Europa na Baixa Idade Média.
Pode parecer estranho falar em pluralismo em se tratando de um editor que se marcava pela forte tendência centralizadora. Além da seleção do que publicar, Dostoiévski se encarregava de escrever, com grande assiduidade, artigos, folhetins, introduções a textos traduzidos e "notas do editor", nas quais complementava, quando não contestava, conteúdos de seus colaboradores.
Não obstante, essa "Voz" onipresente era um compósito de tons e sub-tons mais ou menos dissonantes, que tentaram, na breve e densa trajetória de "O Tempo" (1861-63), uma compatibilização interna difícil, muito acusada -por setores à direita e à esquerda- de inconsistente, mas que seria uma dos pilares da sua obra literária madura.
"O Tempo" alcançou rapidamente um nível de assinaturas comparável a periódicos tradicionais da cidade. Tornou-se também referência de trabalho e desaguadouro de criações para os novos talentos e ainda um interlocutor obrigatório dos demais veículos e correntes da época. Tamanho sucesso, mostra Frank, deveu-se em grande parte ao tino de Dostoiévski como editor, mas o diferencial da revista, a sua "arma" inimitável, era mesmo o fato de que esse editor fosse Dostoiévski. Muito do interesse pela revista foi despertado pelos fascículos que ela trazia, mês a mês, de obras importantes do autor, como “Humilhados e Ofendidos” e “Recordações da Casa dos Mortos”.
O formato folhetinesco, aliás, mais que concessão a convenções do período, parece ter sido assumido pelo escritor como um canal de comunicação pública privilegiado, um meio de cumprir o anseio da "ida ao povo", postura antagônica ao esnobismo intelectual que Dostoiévski via nos que se fechavam em seu gabinete ou levavam às ruas "manuais" de educação política pré-estabelecidos.
Numa das passagens mais belas do livro, Frank cita artigo em que o escritor, comentando a necessidade de propagar no povo "o gosto" de leituras "ao gosto" popular, mesmo que se tratasse do execrado Alexandre Dumas, lança mão de um testemunho pessoal: a euforia que ele viu tomar conta de uma platéia camponesa que escutava as peripécias de uma princesa que deu toda a sua riqueza aos pobres para se casar com seu grande amor. Aquela comoção coletiva "pode muito bem ter deixado Dostoiévski com o desejo de cativar sua platéia invisível de leitores com artifícios literários semelhantes" (p. 159).
Tal ambição artística e "religiosa" -dimensões fortemente entrelaçadas neste autor- era, por sua vez, indissociável de seu fazer jornalístico, desde as escolhas estilísticas pessoais até a predileção por temas que por si sós excitam a imaginação, o senso do "fantástico" sob as coisas do cotidiano. Foi esta a justificativa, por exemplo, da extensa cobertura de "O Tempo" para o julgamento, na França, de um assassino com pendores de poeta, prefiguração do Raskolnikóv de “Crime e Castigo”.
Essa "estetização da violência", porém, dificilmente poderia ser julgada com padrões de nossa sociedade do espetáculo. Isso porque, a dar crédito às intenções expressamente sustentadas por Dostoiévski, a exploração do grotesco é, mais do que estratégia sensacionalista de aferição de lucros, uma via necessária ao reconhecimento -e eventual aprimoramento- do fenômeno humano em sua totalidade.
Assim como sua literatura, o jornalismo foi-lhe uma vivência de engajamento na defesa de causas, sem concessões às futilidades, por exemplo, do já então viçoso colunismo social, que se esfalfa, segundo ele, em maquinar modos de dizer de novo as mesmas coisas sobre as "personalidades" da hora, enquanto tapam os ouvidos para os berros de fome e de frio dos bebês da vizinhança.
Esta indiferença, esta incompetência em "chegar às pessoas", não seria superável, por sua vez, sem uma profunda conversão moral e estética das elites, no sentido de um acolhimento simpático, por parte delas, à autonomia do imaginário popular, incólume a esforços de adestrá-lo racionalmente.
A abertura à imaginação, em outra acepção, também marcou a atividade crítica de Dostoiévski. Nesse ponto, ele fugia aos cânones da "objetividade", depois hegemônicos no jornalismo, que, cada vez menos exercido por literatos, vem tendendo a demarcar fronteiras mais e mais rígidas entre a análise -produto derivado e suplementar da notícia- e a criação.
Um dos momentos emblemáticos em que ele fez, nas páginas de sua revista, a crítica ser um prolongamento subjetivo da obra analisada, foi quando escreveu sobre o célebre poema "Noites Egípcias", em que Púchkin narra o convite de Cleópatra a que um dos homens de seu séquito deite-se com ela, desde que aceite morrer na manhã seguinte.
Depois de interpretar o texto como alegoria da corrosão moral das sociedades que "perdem a fé" e se entregam ao auto-consumir-se efêmero das sensações, Dostoiévski se detém no trecho do poema em que a rainha troca olhares menos "lascivos" ou desdenhosos do que o usual com um dos pretendentes. O escritor afirma, sem citar os versos, mas sim "traduzindo-os": "Ele olhou para o semblante da rainha, e havia tanto êxtase, tanta felicidade ilimitada, tanto amor radiante em seus olhos, que de repente o ser humano despertou na hiena, e a rainha olhou para o jovem com ar de simpatia. Ela ainda era capaz de compaixão!".
O arremate do argumento deixa ainda mais nítida a finalidade "missionária", barrocamente personificada no recurso ao anti-exemplo da rainha pagã: "Os senhores (leitores) entendem muito mais claramente agora de quem nosso divino redentor descendeu. E compreendem com muito mais clareza o sentido da palavra: redentor" (p. 137).
Uma disposição "fabril" comparável à de Balzac parecia mover as atividades editoriais de Dostoiévski, sem porém a amargura que o autor de “Ilusões Perdidas” gostava de deferir ao mundo jornalístico. Até na "velocidade" que tinha e cobrava dos outros, o escritor russo causava estranhamento nos intelectuais que o secundavam na cúpula da revista. Um deles, Nikolai Strákhov -seu primeiro biógrafo- conta que, quando imergia nas costumeiramente longas "revisões finais" de seus artigos, ouvia do pressuroso editor, na mesa ao lado, a cobrança de ser mais rápido e a chacota de que ele, Strákhov, estava cuidando, ao invés de um texto de imprensa, da edição de suas próprias obras completas.
Fiel ao método de dimensionar a vida privada de Dostoiévski em função de sua pertinência para a criação literária, Frank dedica não só capítulos específicos à análise dos romances publicados na época, mas também reconstitui a genealogia de temas e personagens destas e de obras futuras, segundo ela fosse discernível nos conflitos em que o escritor foi se envolvendo, sobretudo depois do relativamente róseo ano de 1861.
É que, nos dois últimos anos de "O Tempo", Dostoiévski foi perdendo a "imunidade" moral devida à sua aura de ex-prisioneiro político e se tornou, juntamente com sua revista, alvo fácil na cada vez mais acirrada disputa política entre os radicais -que se concentravam na revista "O Contemporâneo" e tinham Tchernichévski , autor de “Que Fazer?”, como maior líder- e os conservadores, capitaneados por M.N. Káthov.
As ambigüidades da relação de Dostoiévski com as correntes radicais vão tomando uma acepção verdadeiramente trágica, segundo a descrição de Frank. Isso porque, mais do uma antipatia dogmática, Dostoiévski fez do diálogo com Tchernitchévski e seus seguidores um dos vetores mais poderosos de sua auto-afirmação.
O leitor que queira saber mais a esse respeito encontrará no livro clássico de Marshall Berman, “Tudo Que É Sólido Desmancha no Ar”, provas convincentes de que o "Homem Subterrâneo" dostoievskiano deve muito de seus ímpetos tortuosamente "modernos" de ação e de cidadania ao ideário do "homem novo" propugnado em “Que Fazer?”.
A questão é que a decepção com os efeitos e os termos da emancipação dos servos empurra as alas radicais a uma oposição cada vez mais agressiva ao regime, atraindo contra si -e contra o ambiente jornalístico em geral- a ira do czar e a retomada de mecanismos de repressão e censura.
Com seu apego fervoroso à "liberdade", mesclado à aversão à megalomania ingênua dos que crêem numa realização revolucionária do Paraíso na Terra, Dostoiévski tende a culpar os seus adversários à esquerda de corresponsáveis pelo fechamento político. Tais setores, em seu capricho de sonhar com "um passo de sete léguas" ao invés de humildemente se contentar com um avanço de "cinco polegadas" (p. 105), ameaçavam, pensou, levar à consumação do pesadelo de um retrocesso cujas conseqüências extremas Dostoiévski já experimentara na carne.
Por outro lado, explica Frank, a identidade editorial de "O Tempo" se fundava na necessidade de um acento diferencial não-reacionário, mas incisivo, em relação aos radicais. Isso levava a revista ao exercício constante de "provocações" aos rivais, as quais, com a escalada da repressão, transmitiram um cheiro de adesão às forças de direita e ao governo de Alexandre II.
Tal conotação, além de indesejada por Dostoiévski, era também falsa, tanto que, assim como "O Contemporâneo", "O Tempo" é fechado pelo governo (em maio de 1863), acarretando ao escritor e a seu irmão Mikhail, com quem administrava o negócio, prejuízos financeiros do quilate de um desastre.
Mais do que "testemunha da infatigável atividade literária e editorial de Dostoiévski" (p. 282), "O Tempo" foi instância fundamental de sedimentação de experiências e princípios decisivos à gestação de romances que viriam a tomar lugar destacado no panteão dos mais magníficos feitos da literatura mundial.
A começar pela sua denominação, esse veículo reflete a aguda consciência do autor de que os mais sublimes princípios já não poderiam pairar acima da história, mas sim se encarnar no instante e no espaço, ainda que na fisionomia suja e obscura dos labirintos e fendas de Petersburgo, cidade que então se revelava, em particular para os olhos de "repórter" de seu maior escritor, uma realidade muito mais profunda e tensa do que fariam crer as fachadas de modernidade européia idealizadas pelos poderosos que a mandaram construir no século 18.
Como bem lembra a professora Salete de Almeida Cara, em artigo no "Jornal de Resenhas" ("O Enigma Dostoiévski", na Folha de São Paulo de 09/11/2002), Joseph Frank escreve em 1986, sob o impacto das reformas liberalizantes promovidas por Mikhail Gorbatchev, a quem admirava.
Uma certa "gorbatchevização" de Dostoiévski pode ser pressentida, de fato, nos momentos em que o escritor aparece como um reformador isolado, incompreendido e perseguido pelos coletivismos czarista e esquerdista. Isso a despeito da insistência com que Frank insere seu biografado nos quadros mentais multiformes da Rússia dos anos 1860.
Tais "distorções", de resto controladas pelo sóbrio manuseio de documentos -colhidos em grande medida no russo original- e pelo equilíbrio entre informação e interpretação, são um efeito "óptico" inevitável, decorrente das solicitações que o presente faz a quem estuda o passado. E, longe de denegrir o alcance desse livro, mostram sua utilidade e densidade como objeto de estudo dos mecanismos do gênero biográfico. Não só dos que o ligam ao seu meio sócio-ideológico, mas também dos que o constituem como anseio por uma individualidade "desembaraçada" ante os totalitarismos sociais (seja de tipo czarista, soviético e também capitalista). Anseio, pois, pelo arquétipo do Herói, que se procura no outro antes de ser encontrado em nós mesmos.