quinta-feira, maio 29, 2014

um livro que "até as mulheres pudessem entender"


Descartes, em uma de suas várias cartas a padres -hábito por si só sintomático de um tempo em que filosofia moderna à beira do divórcio político e metafísico com a Igreja ainda precisava, até por prudência, prestar satisfação aos teólogos- comenta sobre seu Discurso do Método: um livro "no qual quis que até as mulheres pudessem entender alguma coisa, e, não obstante isso, que até as mentes mais aguçadas encontrassem suficiente matéria para ocupar sua atenção".
Imperdoável a nossas patrulhas atuais do politicamente correto, um comentário como este tampouco deve ser meramente descartado como preconceito de época, supérfluo em relação ao que "realmente importa" no sistema cartesiano.
 Como se toda filosofia não fosse ela própria texto entretecido, até nas suas proposições mais abstratas, da linha e da agulha e matéria e espírito, e  tempo e lugar, e paixão e autorrepresentação como valores "absolutos" encarnados em homens relativos, tão arbitrários como o signo linguístico de Saussure. 
O analista arguto pressentirá aqui indício do forte componente patriarcal no racionalismo do cogito, em suas duas unidades essenciais, o "eu" -dissociado de suas matrizes maternas transpessoais- e o "penso", em sua vontade de certezas indubitáveis, desinfetadas de quaisquer contaminações imaginativas que borram as ideias claras e distintas que são critério de verdade. 
Patriarcal também a dissociação mente / corpo, e a vontade de "des-qualificar" a matéria (literalmente, ao não ver mais na matéria em si, res extensa,  senão propriedades matemáticas) . E seu apego, estratégico à demonstração cartesiana de que a mente humana é dotada de capacidade à verdade, de um Deus não enganador, que não "seduz", ou seja, que não desvia. Não por acaso, Nietzsche, arrebentando com a própria prioridade do "conhecer" em relação ao viver, dirá que o filósofo iniciado nos terrores da existência nem por isso abdica do amor à vida, mas ama como a uma mulher de que se duvida.  
Com Nietzsche e a "morte do deus" abstrato que é todo racionalismo ocidental de que Descartes é nosso patriarca Abraão, a res extensa se faz "resistência" que abala e devolve as curvas do corpo de mulher e da dúvida aos rumos retilíneos que o intelecto cartesiano, até no nível de sua doutrina da física (que tem sempre muito de ideologia projetada), avalia (impondo valor) como regra do movimento das coisas. 
Nosso mundo pós-moderno, nesse sentido, seria um livro de opacidade pouco condescendente com as lentes de Descartes, ao contrário do que ele se mostrou com a mulheres que tinha por inferiores. Um livro cujos códigos profundos se prestam mais a um decifrador como Nietzsche, não só pelo que pensou (já não cabe esse velho cartesianismo da soberania do pensamento), mas pelo que viveu. Nos asfaltos com alçapões de uma metrópole como as nossas,  que faz muitos perguntarem se "há amor em São Paulo", somos todos nietzschianos sucumbindo à presença maciça da res extensa (por exemplo, a massa de "informações") mas à ausência do amor que lhe dê forma (ção), ausência de Lou (Salomé),  perigo da incurável lou-cura como a que vitimou o discípulo de Dionísio, almas carentes do mesmo amor absoluto que os antigos projetavam no Absoluto, buracos que dependem do sonho de Dante por uma Beatriz que nos inspire a superação do inferno. Estaremos, sem fé nem razão, fadados a arder no caldeirão do desejo que "queima mas não alumia", em sede descomunal mas  com água racionada, agonizando de nosso próprio esquecimento de onde pusemos as chaves que permitiriam a saída de tamanho incêndio?  
 -Unzuhause-