domingo, junho 29, 2014

só por hoje



DECÁLOGO DA SERENIDADE
-Papa João XXIII-

1. Só por hoje tratarei de viver exclusivamente este meu dia, sem querer resolver os problemas da minha vida todos de uma vez.

2. Só por hoje terei o máximo cuidado com o meu modo de tratar os outros:
-delicado nas minhas maneiras
-não criticar ninguém
-não pretenderei melhorar ou disciplinar ninguém senão a mim.
3. Só por hoje me sentirei feliz com a certeza de ter sido criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.
4. Só por hoje me adaptarei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem todas aos meus desejos.
5. Só por hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me que assim como é preciso comer para sustentar meu corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma.
6. Só por hoje praticarei uma boa ação sem contá-la a ninguém.
7. Só por hoje farei uma coisa de que não gosto e se for ofendido nos meus sentimentos procurarei que ninguém o saiba.
8. Só por hoje farei um programa bem completo do meu dia. Talvez não o execute perfeitamente, mas em todo o caso, vou fazê-lo. E me guardarei bem de duas calamidades: a pressa e a indecisão.
9. Só por hoje ficarei bem firme na fé de que a Divina Providência se ocupa de mim, mesmo se existisse só eu no mundo – ainda que as circunstâncias manifestem o contrário.
10. Só por hoje não terei medo de nada. Em particular, não terei medo de gozar do que é belo e não terei medo de crer na bondade.

Resenhas para a Folha, 28/06


Folha de S. Paulo
Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
textos de CAIO LIUDVIK
TRAVESSIA MARÍTIMA COM DOM QUIXOTE
Esta coletânea de textos do alemão Thomas Mann cobre um período que vai de 1906 a 1952. Um dos maiores escritores do século 20, ele faz uma uma espécie de diário de viagem e de leitura da obra clássica de Cervantes,  apresenta Kafka como um "humorista religioso" e reflete sobre temas-chave de sua própria obra, como a ironia e o romance de formação. 
Este gênero, alheio aos engajamentos do romance político-social,  condensa, segundo ele, um individualismo tipicamente alemão, romântico, apolítico e capaz de fazer face às tendências coletivistas da sociedade e do Estado modernos. 
Mann faz também um "elogio ao sono" pelo qual explicita a influência (mediada por Schopenhauer) do conceito hindu e budista de "nirvana". Paradoxalmente, num texto bem posterior, e já há poucos anos da morte, Mann tece um comovente elogio não da eternidade nirvânica, mas da transitoriedade que insufla alma ao ser e sentido no viver.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO
OS JUDEUS DO PAPA
A peça "O Vigário" (1963), de Rolf Hochhuth, levada aos palcos pelo diretor vanguardista Erwin Piscator, foi o marco do escândalo de grandes proporções: o papa Pio XII e a Igreja Católica eram acusados de concordância tácita com o Holocausto.  Recaiu sobre o pontificado de Eugenio Pacelli (1939-1958), antecessor do "papa bom" João23, a alcunha bem menos nobre de papa omisso. 
 O livro-reportagem de Gordon Thomas argumenta que esta é uma grande injustiça (reafirmada recentemente,  pelo bombástico "O Papa de Hitler", de John Cornwell) e que ,se de fato Pacelli se calou publicamente em relação à barbárie nazista–com receio de represálias contra os católicos de língua alemã-, ele liderou uma rede de apoio humanitário que salvou cerca de 800 mil vidas, doou ouro do Vaticano para o gueto judaico de Roma (a fim de que se negociassem condições de trégua com os alemães), escondeu milhares de judeus em sua casa de verão e em conventos e mosteiros do Vaticano. 
O que talvez não baste –na falta de gestos propriamente políticos- para lhe decretar "santo", como parece o objetivo do autor.  

AVALIAÇÃO - BOM





quinta-feira, junho 26, 2014

a filha da filha


Que água é maior? A das lágrimas de cada um, nos poucos dias que nos são dados,  ou a de todos os oceanos e mundos? Mestre nos paradoxos da existência, Buda também subverte a primeira resposta que imaginaríamos para essa questão. Mais vasta é a água que já choramos, na nossa longa jornada existência após existência.
 Mesmo se não quisermos acreditar (ou melhor, se quisermos não acreditar, o que já é um acreditar em outra coisa) em reencarnação, mais vasta, no vivido da existência, é a nossa efêmera lágrima do que os infinitos oceanos, na medida mesma em que nenhuma dor é mais dolorosa do que a vivida por nós, naquele instante desamparado, certeiro, em que mal acreditamos que é "justo comigo" que a desgraça tenha se abatido sobre mim. É justo? 
Tudo depende do enfoque. Como diz o Buda nesse mesmo discurso sobre o samsara (avesso do nirvana, "círculo" das reencarnações e da barafunda de nossas ilusões e dores), longuíssima é a noite para quem agoniza na insônia, longuíssimo o caminho para os que estão fatigados, e infinita como um carrossel automovente a sucessão e repetição das existências, portanto das lágrimas, de quem desconhece a Lei. A tomada da consciência da inevitabilidade, nesse sentido (causa-efeito) justa, do sofrimento, como é "justa" a leptospirose que ataca o menino que apenas queria brincar ao se jogar na água suja de uma enchente, como a frustração que envenena com a podridão de nossas paixões  egoístas mesmo o mais refinado vinho dos prazeres que a vida teria a propor aos desapegados, aos que superaram em si o pavor da morte ao descobrir a vida mesma perpassada de mortes.
As mortes: as tantas perdas necessárias de nosso caminho evolucionário. As despedidas, normalmente mais precoces quanto mais precioso aquele ou aquilo que se vai (porque para quem ama, portanto para os de narina sensível aos flagrantes e fragrâncias do eterno, o tempo tirano é sempre escasso).

 O alzheimer da senhorinha do vídeo acima, apenas um nome específico para a patologia maior que é o tempo, força de deformação das formas que nos eram mais caras, aparentemente mais eternas, da mãe antes altiva, poderosa, que nos carregava no dentro, depois fora, depois nos pondo no chão, nos levava na mão, nos dava palmadas (quando o governo, babá melhor, nos dava essa liberdade), nos aplaudia no teatrinho da escola, nos secava o pranto, nos enchia (o saco, até) de amor, nos tornava possíveis. A mãe agora filha de sua filha, a filha mãe de sua mãe. A compaixão que nasce quando vemos que o Outro é apenas outro nome, na verdade uma abreviatura para a palavra completa, "outro Eu".  Círculo, metamorfose, idades-máscara da escola-teatro, do jogo rápido e frágil qual sonho. Que se torna pesadelo, porque desmedido, e ainda mesmo um céu de brigadeiro é indigesto se se repete em demasia, se não soubermos de sua lei, a causa e efeito, e seu propósito, a compaixão que liberta. 

-Unzuhause-

terça-feira, junho 24, 2014

o empurrão de Neymar


Neymar se levanta após empurrado pelo camaronês no jogo de ontem; faria lindo gol instantes depois
O show de Neymar ontem, empurrando o Brasil para as oitavas de final da Copa, já está sendo apetralhado  nas redes sociais. Curioso que, décadas depois da Copa de Médici, os mecenas e opositores do pão e circo ufanista tenham trocado de lugar. Neymar é o Pelé da oposição de hoje. 
Em 70, os setores engajados no combate à ditadura se remoíam entre torcer pelo "Rei" sabendo que, de alguma forma, a vitória da realeza de chuteiras botava água no moinho na tirania de coturno. Conflito de consciência análogo acontece hoje com os opositores do bolivarianismo petralha cada vez mais desavergonhado, vide a arrogância com que Lula e asseclas se atracam, com voracidade embriagada, num discurso de ódio contra a "parte bonita da sociedade" e os pitbulls da oposição (no fundo, jeitos tortos de elogiar e promover o que se odeia, o ressentimento burro se trai a si mesmo até nisto, no que fortalece seus adversários, os embeleza, os coloca em ainda maior proeminência). 
O Aécio pode aparecer o quanto quiser, sorridente, com camisa da seleção e em frente à TV, mas quem torce por ele certamente sente calafrios, a cada gol do Brasil, imaginando o impacto (absurdo, mas tão brasileiro) que o título teria para calar as vaias, xingamentos e vontade de mudança popular contra o regime do PT, amordaçados pelos  urros e punhos em riste, pelo cachaça e dentes arregalados,  "muito orgulho e muito amor" e cadeia nacional (não, não falo da papuda).
Mas voltemos ao empurrão de Neymar. Agora para falar do que o craque sofreu, com maldade do camaronês, instantes antes de marcar o primeiro gol. Todos temiam que Neymar reagisse do pior jeito possível, isto é, do jeito que o adversário queria: aceitando e revidando a provocação. Em troca da satisfação animalesca de devolver a ofensa com ofensa, Neymar provavelmente pagaria com a expulsão, ou mesmo um cartão amarelo, suficiente para tirá-lo do próximo jogo, eliminatório e infinitamente mais complicado do que o de ontem.
Ao invés disso, devolveu, como disse Galvão Bueno, com outro tipo de empurrão: o da bola pras redes, num toque de sinuca refinadíssimo. 
Neymar se mostrou não só craque com os pés, mas também na maturidade de refrear impulsos imaturos aos quais já sucumbiu noutras ocasiões, como no episódio lamentável da explosão mimada, dentro de campo, ainda no Santos, contra Dorival Júnior, causando a demissão do seu técnico. Em termos de uma neurolinguística dos processos de motivação pessoal, ele se serviu, conscientemente ou não, ao menos de dois princípios cruciais. Ambos têm a ver com a operação de metabolizar sinais hostis que a vida lhe propõe em insumos para crescer. O primeiro princípio é o da "alavanca". Ela é o mecanismo que impulsiona, por exemplo, a pessoa obesa a entrar em dieta quando imagina, até o ponto do insuportável, situações desagradáveis que a obesidade lhe acarreta ou poderá lhe acarretar. É o dinamismo que faz o gordo dizer para si mesmo: "Chega!" Basta de se sentir culpado quando dispara o alarme do elevador denunciando excesso de peso no recinto; não caber nas calças; ser o loser da balada; o risco de doenças.  
Neymar, no momento em que empurrado, bem como na preparação mental para o jogo (pois está "pendurado" com um cartão amarelo desde a boba cotovelada que deu na estréia) , certamente se impôs a alavanca de imaginar a humilhação de ser excluído do jogo decisivo, da provável missão de astro do título,  e depois carregar vida afora a cruz da frustração pessoal e da culpa perante o povo, que, desde os tempos de Cristo, ama cuspir naqueles que na véspera chamou de salvador.  
Mas não foi só este o preceito mental que fez o craque devolver o mal com, digamos, o "bem", em inflexão guerreira dos preceitos de Cristo, o rabi samurai dos segredos da mente profunda para a paz e para a espada.Ele soube se valer do poder da boa pergunta ante a situação de impasse: Por que esse cara me deu esse empurrão? Para me provocar. Qual o interesse dele em me provocar? Me descontrolar e me fazer causar minha expulsão. Por que ele quer minha expulsão? Porque sou uma ameaça para ele, não o empurrando de volta, mas metendo gol. Como então devolver à altura a provocação? Metendo gol, dando chapéu, acabando com o jogo. Foi o que Neymar fez. 
Se colocar esse tipo de bateria de perguntas é como lançar um raio laser no bloco maciço e insuportável de nossos problemas irrefletidos. De quebra, o processo converte emoções negativas em estímulos positivos. Da raiva e da humilhação momentâneas eu extraio a motivação para a redenção definitiva, de posse de uma visão de aonde quero chegar, e dos recursos de craque de que disponho e que irritam oponentes de baixo nível.
Para além dos rancores e oportunismos políticos à espreita no jogo mitológico (aqui, no sentido barthesiano das mistificações da cultura de massas), um exemplo como o de Neymar, ontem, ilumina o que realmente importa, e nos "empurra" a sair de nossa inércia. Revela -e a neurolinguística é só um instrumento entre outros para traduzir a grandeza de seu gesto- o nosso potencial como indivíduos, o craque interior vocacionado a vencer quando nós, seus egoicos portadores em vasos de barro, seus carregadores de piano no mundo exterior, sabemos sofrer e devolver o mal com o bem.
-Unzuhause-

quinta-feira, junho 19, 2014

como será o amanhã?


Saiu a primeira pesquisa eleitoral pós-VTNC. E, seguindo a tendência de estreitamento da diferença Dilma / Aécio e reprovação ao governo federal, ela deixou, como se diz, "xatiados" os dilmistas. Calcados mais em "wishful thinking" que em qualquer outra coisa, eles achavam que a vaia e o xingamento da massa teriam efeito contrário ao pretendido: fariam de Dilma uma espécie de mártir "dazelite", vítima inocente dos coxinhas (e o que vós sois, rosquinhas?), os Reinaldos e Olavos malvados da "parte bonita da sociedade", como o genial Molusco do Povo se referiu aos brancos e ricos, num ato falho, puro ressentimento e duplo racismo que estigmatiza brancos e sobretudo absolutiza padrões estéticos contra negros e pobres, peçonhenta moral dos escravos que levaria Nietzsche a gargalhadas insanas. 
Fatídico 12 de junho, dia dos namorados que pode ter sido o fim traumático do lulismo paz e amor que xavecou azelites anos a fio e agora teme que o pé na bunda que está tomando não seja só dazelites, mas de toda uma população que quer um novo ciclo de ideias e práticas para a sociedade. Não sem desmerecer boas iniciativas como o Bolsa-Família, que Lula em momento de rara sinceridade confessava, no dia do lançamento do programa, ser ideia com RG tucano:
O que torna o modus operandi do PT tão odioso é maneira  como, se não dá para destruir o inimigo (que é como consideram o adversário político e ideológico), se apropriam do que ele fez de bom. Vide não só a rede de proteção social articulada pelo governo de Fernando Henrique, dentro do mais puro preceito social-democrata de redução das externalidades (miséria) que impedem o indivíduo de fazer valer seus potenciais na luta da existência e do mercado. Mas também o Plano Real, que os petistas fizeram tudo para inviabilizar, quando oposição, para depois obedecerem quase como um "cristão-novo" xiita, tudo pra não desagradar azelites que agora amaldiçoam como os namorados ressentidos. 
O chamado "duplo padrão" argumentativo é outro de seus dispositivos mentais. Fingem indignação contra o VTNC, mas não é assim que se comportaram na sanha de fazer, como dizia mestre Zé Dirceu, os tucanos apanharem "nas ruas e nas urnas", mandamento devidamente executado pelos crescidos fetos anencéfalos que agrediram o governador Mário Covas. 
Por outro lado, não noto entre os tucanos uma comemoração entusiástica dos números do Ibope. Também por wishful thinking, imaginavam que a população compraria mais depressa a ideia de que é Aécio a resposta para o desejo profundo de mudanças que grita nas ruas desde junho passado. 
Será esse o grande desafio, ao meu ver, para que uma possível derrota de Dilma não seja apenas matéria para alegria de torcida de futebol, quando xingamos o juiz ladrão, secamos o adversário, vemos os nossos jogadores ganharem e voltamos nos sentido campeões para o mais do mesmo de uma existência desoladora.
Não sei se amanhã vai ser maior, como queriam os bordões da revolta pré- black bloc, certamente mais belos que o VTNC (mas que o explicam, de certo modo). Muito esperamos do amanhã, que ele seja música (lendemains qui chantent, na utopia revolucionária versão Paris), que ele seja, simplesmente,e apesar dos tiranos, um outro dia, como queria, outro dia, mas num passado (não tão) remoto,  o gênio da raça que hoje completa 70 anos.

Mas o amanhã chega sempre como um hoje, por isso é melhor começar por um hoje melhor, e maior. Que nós sejamos maiores, na existência pessoal e numa política mais maiúscula, como a pensada por Fernando Meirelles na bela entrevista que vos convido a desfrutar. Leitura indispensável para social-democratas como nós, que em nosso impulso crítico por cidadania e liberdade somos filhos da terceira via, caminho do meio, conjunção dos opostos, não em cima do muro, mas em tensão com o capitalismo que não nos entusiasma e com o socialismo-comunismo que não nos engana. 
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/09/fernando-meirelles-nossos-sonhos-nao-cabem-capitalismo.html
-Unzuhause-

terça-feira, junho 17, 2014

mais lou-cura para uma existência descolonizada


Um dos conceitos principais do existencialismo de Jean-Paul Sartre é o de contingência, ou seja, a ideia de que nada é porque "teria de ser" assim. Tudo poderia ser de outro modo, ou simplesmente não ser. É o que separa a existência concreta das essências imaginadas por definição conceitual. E é o que faz, no caso dos homens, a quem cabe inventar todas as definições conceituais num mundo ao qual é ele quem impõe linguagem e sentido, a existência preceder a essência. 
Primeiro existimos, depois aprendemos a "falar" e só depois nos projetamos uma tentativa de definição do que somos, do que fomos, do que fazemos e queremos. Por mais que levadas a sério no teatro dos homens, essas ficções de autodefinição são tão frágeis quanto eles, isto é, são existenciais, não essenciais. E por isso sujeitas a abalos mais ou menos dolorosos, nos "trancos" (e barrancos, em fases de mediocridade) da vida no tempo, vivido entre os dilaceramentos do amor e da morte.
Se nossos teatros cotidianos da autoidentificação "esquecem" nossa contingência, ela vem à tona, com força, num filme como "Antes do Inverno", de Philippe Claudel.
Ele retoma o mito de Lilith /Lolita (Nabokov não escolheu ao acaso o nome de sua demoníaca femme fatale) , a jovem misteriosa, sedutora e capaz de devastar a vida de um sessentão de vida respeitável e ressequida. O "inverno" do título alude à proximidade da velhice definitiva, que pesa sobre  Paul e Lucie não só na idade, pois já conquistou para si o casamento deles. 
Ele, um prestigiado neurocirurgião, habituado, pois, a dissecar e "consertar" cérebros (em conversa com colega, chega a comparar, de fato, os cirurgiões aos mecânicos), porém amador sobre o que há de intangível nas almas, a começar da sua própria, que ele parece conhecer pouquíssimo, estrangeiro para si e para os seus, a despeito das aparências de uma família perfeita. Lucie gravita na sombra do marido há 30 anos. Dona-de-casa, "enterra" seu tédio nos afazeres no jardim (ambientes de vegetação são marcantes ao longo do filme, como que marcando o caráter sazonal e cíclico da vida). 

Tudo parecia "ir bem" quando Paul começa a receber buquês de rosas de uma admiradora secreta, Lou Vallée, que se diz descendente de árabes marroquinos. Inevitável pensar na grande sedutora Lou Salomé, avatar moderno de Lilith, o feminino sombrio que se infiltra e colapsa, pelo poder anarquizante do desejo, as mais rígidas carapaças da ordem "colonial" falocentrada.  Lou é movida, diz, pela gratidão como ex-paciente, quando menina, de Paul, que não se lembra disso, como não se lembrava de tantas coisas mais, inclusive de quem era, ou podia ter sido, antes de a contingência originária, fonte de liberdade,  ter sido soterrada  e "enterrada" pelas rugas do tempo. 
A ambiguidade das rosas, como notícia de amor e condolências pela morte, é um dos elementos metafóricos com que o filme retrata a crise que se abate sobre o casal, e que traz de volta do seio da terra os esqueletos da vida desperdiçada. O simbolismo arquetípico em torno do feminino sombrio perpassa nossa descoberta, com Paul, dos véus sobre véus em que a sexy lolita marroquina se vela e se revela ao poderoso professeur da "elite branca" da metrópole opressora (minha homenagem aos jecas do ressentimento petralha que tenta racionalizar o repúdio popular a Dilma na estreia da Copa). O tema musical dessa senda pelas florestas do desconhecido (e do inconsciente, que é o desconhecido reprimido, em Freud, e originário, em Jung) é La Bohème, célebre ópera de Puccini sobre o caso de amor de um artista pobretão e Mimi, a florista enfermiça, "bela como um crepúsculo". Num passeio com Lou a museu, vemos ao fundo uma radiografia de casal que se beija (estranha e poética combinação de amor e morte, "amorte", nesses esqueletos que se acarinham), e Paul alude a um "não ser artista" que parece revelar algo do que lamenta ter perdido ao longo da vida de mecânico do cérebro. 
Lou Salomé

A propósito de um longa-metragem de ficção sobre os mitos e fascínios, reais e imaginários, de Lou Salomé,  que está sendo feito por Flora Bonfanti,  eu comentava outro dia no facebook: 
Uma das "vítimas" de Lou Salomé diz sobre os poderes encantatórios da musa "allumeuse" de Nietzsche, Rilke e Freud: "Havia algo de aterrorizante em seu abraço. Olhando para você, com seus olhos azuis radiantes, ela dizia: 'Receber o sêmen é pra mim o auge do êxtase'. E o seu apetite era insaciável. Ela era totalmente amoral, uma vampira". 
Não preciso aqui estragar surpresas para quem ainda não viu "Antes do Inverno" para atestar o quanto essas palavras cabem para metaforizar a encrenca em que Paul pode estar se metendo, expondo as vísceras da crise conjugal, do outono da existência, da dor de talvez não ter feito jus ao que a existência tem de radicalmente contingente, tão contingente, talvez, quanto a escolha de Lucie, exatos 34 anos atrás, por Paul, e não pelo amigo comum Gérard, a quem conheceu ao mesmo tempo, na mesma festa de calouros. Pensemos também no poucos milímetros de diferença na carapaça, como diz Gérard, que fizeram toda (é tanta assim?) a diferença de "destino", apesar dos mesmos pais e mesma criação,  entre Lucie (por quem ainda hoje o psiquiatra é apaixonado, o que tira da personagem dela uma aura de matrona indesejável, "o saco velho pronto para ser jogado fora", como ela se autoagride a dada altura) no conforto e estabilidade de quem dá de comer macarronada à netinha enquanto Paul sai da cozinha para atender o chamado de Lou, e a irmã louca de Lucie.  
Belíssima também a cena em que Paul ouve de uma paciente, antes de extrair dela o tumor cerebral, os nomes que ela faz questão de lhe contar: pai, mãe e irmãos que "viraram nuvem" sob o fogo da crueldade nazista, nomes e histórias que ela, solitária, nunca contou a ninguém, e que, diz, talvez sejam o seu tumor, que se Paul fosse bem-sucedido em extrair, ela temia que caíssem no esquecimento para sempre, o que também aconteceria, claro, se a operação não desse certo.
Antes do inverno que nos aguarda a todos, um filme que nos convida a fazer com coragem essa  "passagem delicada, um pouco longa", como diz Lucie sobre o des-arvorar-se emocional de Paul nas investidas do desejo, pelos descaminhos da memória, da dor e da prova. Rito de passagem, cujo chamado à aventura vem das frágeis, belas como crepúsculo, rosas do desejo e da morte.
-Unzuhause-

domingo, junho 15, 2014

a nova coalizão


Reinaldo Azevedo comentou, com a perspicácia que o faz tão indispensável para o Brasil (ou, o que dá no mesmo, tão intragável para os esquerdopatas), que a Convenção de ontem, em São Paulo, mostra um PSDB coeso em torno de Aécio Neves. Unido como não esteve desde 1998, coincidentemente a última vez que venceu a corrida presidencial (reeleição de Fernando Henrique em primeiro turno). Mais um bom sinal sobre as chances concretas da oposição de mandar pra casa essa turma do ódio hidrófobo  que devora o Estado nacional há mais de década, que se locupleta com nunca antes na história deste país, massacra a classe média (esta contra a qual a filósofa oficial do petismo declarou explicitamente seu ódio e sua guerra) e joga ao povo mais humilde os ossos secos da política compensatória conformista mirrada, de resto uma cópia bolivariana das iniciativas de dona Ruth e de Fernando Henrique Cardoso num governo cujo legado crucial, o fim da inflação milenar e cavalar, està de novo a perigo graças à política da incompetência e da demagogia. País com fome de decência, de liberdade, de prosperidade, de segurança e de rumo. 
O evidente desgaste da coalizão lulista, patente no vexame de Dilma vaiada e xingada no Itaquerão, cresce por pressões de fora (a crescente pujança e atratividade do conservadorismo cultural e filosófico, com Olavo de Carvalho à frente, é sintoma disso) e de dentro do esquema petralha - nada mais idiota útil, só que a serviço de uma nova coalizão, conservadora e social-democrata, do que os estragos causados na ordem pública e na imagem dos governantes que os insuflam pelos xiitas sindicais e movimentos sociais totalitários.
Aécio, inteligente, jovem, simpático, tem ainda o lastro do avô Tancredo, largamente utilizado ontem, por exemplo na bela recitação por Ferreira Gullar da carta-poema que fez, em 1985, quando da morte do homem que se imolou pela nascente redemocratização, ao se recusar a ser internado antes, com receio de um retrocesso institucional. Esta narrativa mítica, de tipo sacrificial, que se esboçou na Convenção tucana, deve ser mais explorada na campanha, evocando no povo o afeto não só por Tancredo, mas pela democracia que os petralhas e nosso sistema corrupto tanto fazem força para que cada vez maiores setores da população odeiem e queiram abolir. 
-Unzuhause-

quarta-feira, junho 11, 2014

o sacramento da revolta


A experiência de Brasil propiciada por "Riocorrente", nas sessões do Espaço Itaú da Augusta, começa antes do filme propriamente dito. Atentem para o comercial do banco dono do pedaço: "Isso muda o jogo", uma série, creio, que reúne torcedores fanáticos pela Seleção Brasileira de futebol. O personagem daquela ocasião trabalha num tribunal trabalhista de Campinas. Ele cumpre promessa desde o tetracampeonato de 1994: só se veste com peças em verde e amarelo, únicas cores que admite também para seus alimentos. E a promessa dele para o hexa, diz contendo a emoção, é acrescentar "Brasil" a seu sobrenome.
A Copa que não houve
Às vésperas de começar uma Copa que já não houve, como mostrou bem Vladimir Safatle em artigo ontem na Folha, é preciso fazer força para não descarregar na nossa gente humilde um mal-estar mais difuso, relativo a um país que, se alguma vez houve, parece estar se desmanchando. É preciso, mas difícil, não ser xenófobo de nosso próprio país: deixar crescer a percepção de ser brasileiro como maldição relembrada pelo RG e pela incapacidade de dar o fora daqui, tendo de conviver com um calvário social que não mais tem peias de expor suas vísceras, qual numa peça de teatro experimental que atire na cara do público um fígado sangrando.
Não é só o Policarpo Quaresma (de nome Nelson Paviotti) do comercial do Itaú que é engolido e vira um personagem a mais  de Paulo Sacramento. Difícil não nos vermos lá, todos e cada um, todos como um, sobretudo se nossa  xenofobia como estrangeiros da existência ordinária tem ainda a duvidosa sorte de, quais prometeu ao rochedo, termos o fígado comido sem pressa e sempre de novo pelo abutre que é morar em São Paulo.
A cidade não é apenas ambiente, mas protagonista. 
A ferida no inorgânico 
Na cena inicial, vira tema de "close" na tomada panorâmica de sua noite escura, entrecortando a ação em que o moleque  "Exu" abre com sua faca uma "cicatriz" gigantesca num carro de luxo (sim, ferido como um ser vivo qualquer, e no lugar do ser vivo que o dirige ou por ele é dirigido / digerido)  estacionado e à mercê do ódio frio do menino negro, de apelido e vocação de demônio, na percepção cristã habitual sobre os cultos da negritude africana.  
Quantos Exus como ele nos assombram no dia a dia, passam por nós, até de camisa do Brasil (ou seja, do time de futebol das CBF), nos forçando a driblá-los, quando damos sorte. 
Eu, que tenho fobia a contato físico com estranhos de todas as classes sociais, outro dia fui abordado pelo temível adolescente de camisa do São Paulo que pede "fralda" no caminho da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Tirei o braço involuntariamente quando ele trazia a mão pra  cima de mim, e respondi, antes de qualquer pergunta ser verbalizada: "Não tenho". 
Na saída da livraria, reencontrei aquele exu da Paulista, que me abordou de novo, e ficou com o mesmo olhar de ódio frio do Exu de Sacramento quando eu repeti o meu "não tenho", embora já tivesse, dessa vez, uma sacola plástica nas mãos e, nela, minhas duas novas aquisições na minha Livraria-templo, o livro de João Pereira Coutinho sobre o pensamento conservador, e a edição da Vozes do "A Transcendência do Ego", de Sartre, o filósofo imortalizado junto ao senso comum pela frase de que o "inferno são os outros": nossa única transcendência possível não é a fuga mágica para o céu, como sonhavam os místicos, e sim o transbordamento cotidiano  da consciência sempre para fora de si. Ela é amorfa e vazia, é sempre consciência de, por isso refém em potencial de outra consciência que não se lhe ofereça como coisa-espelho, mas como Outro- carrasco. Eu nessa medida "sou" o Exu que me transpassou com seu olhar ressentido, faca de olhos a reabrir no meu corpo a ferida sem cicatriz possível.
Exu exorcizado
 Nem mesmo exorcismos que a psicologia do pavor inspirou à evangélica Rachel Sheherazade, quando foi à TV dar voz a e "justiçar" o sentimento de milhões que compreendem quando o diabo ladrão de nossa paz é preso junto a um poste. Tá com pena, leva pra casa: palavras que mostram o quão longe estamos da postura de "acolhimento" das diferenças, termo que o filósofo Mario Sergio Cortella disse, no "Saia Justa", semana passada, preferir ao conceito de "tolerância". Tolerar seria suportar o outro apesar de ser o que é; acolher é amar o outro como é.
No país que se desmancha, não parece haver lugar para os caminhos do meio cordiais, os sincretismos. É ou a purificação evangélica ou o corpo do Exu sendo tatuado por mãos imundas com a palavra "Maldito", antes de voltar para a rua, contemplar um leão engaiolado numa carroça. A câmera nos faz ver a grade de ferro como atributo do leão e do próprio menino, que se decide naquele instante a arrancar o dente de leite que pendia na sua boca: rito de passagem da sua "sina", como diz o pai adotivo do menino. Sua sina assassina, ou assassinada, de vestibulando altamente gabaritado para ingressar, pelos ritos sacramentais de uma sociedade que não há, enquanto consciência moral e solidariedade, num dos carandirus que Sacramento, anos atrás, tão bem retratou no documentário "O Prisioneiro da Grade de Ferro". 
A instância mediadora de sìnteses sincrèticas de `casa grande & senzala` que outrora foi a Igreja Católica brasileira parece dormir como a Catedral de portas fechadas, tarde da noite, quando o Exu nas escadarias da Sé, sozinho,  é mostrado preparando sabe lá que vodu incendiário. 
Vermelho, branco e preto
Só mais uma das ocorrências do simbolismo do fogo ao longo do filme, todo ele profundamente arquetípico também nos outros personagens, como o intelectual prisioneiro da esterilidade de seu apartamento todo branco, o bandido pai adotivo de Exu em sua casa sempre às escuras, e a burguesa (Renata) namorada do intelectual (Marcelo), amante do bandido (Carlos), que tenta se virar entre a marginalidade com incrível facilidade de acesso a todos os carros e apartamentos que quiser e o  sub-emprego no ferro-velho,  e "vermelha" como a libido que não aplaca nem mesmo depois de meditar junto à árvore que, aliás, está no quintal de Hilda Hilst, a poetisa do desejo.  O vermelho, para Carlos, é o desejo interditado e morto como o sinal no cruzamento da Paulista, sinal eternamente fechado que ele terá de ter a coragem de atravessar, em cena que nos dá medo, pela disposição da câmera, de uma colisão iminente com o desconhecido.
 No tempo cíclico como o de  Finnegans Wake, de Joyce -romance sobre o despertar de um ser mítico, e que inspira o título do filme- as ideias voltarão a ser perigosas, lema do situacionismo francês de 68, e  evocado por Sacramento. O diretor se mostra pleno da virtude do poeta, ser antena da raça, diria Pound; de uma incrível ressonância, de forma e conteúdo, estética e política da anarquia, com uma realidade atualíssima, embora tenha rodado o longa em 2012, antes dos acontecimentos de junho passado, mas já anunciando e mostrando uma "combustão" de nossas cabeças quais fósforos que já não dá mais para deixar apagados, que é preciso riscar agora. 
O rato  e o rei 
Quem não entender isso, e se enclausurar numa recusa histérica, num sonho restauracionista por ditaduras, num horror capaz de passar álcool no ouvido só de ouvir o mínimo ruído da balbúrdia que não quer mais se calar, se arrisca a ser estoque morto de informações como os "jornalões", no fundo invejados também, mas caricaturados com ódio pelas mídias ninja sabe-se lá a serviço de quem ou de que "debate com a sociedade" em prol de um "controle social" por parte dos iluminados do Povo. A mídia tradicional é tratada com pouca consideração no filme de Sacramento. Não só na cena dos ratos roendo a roupa do rei de Roma, ops, dos jornais esquecidos no armazém; o coquetel molotov de Carlos é atirado a uma banca de jornal e revista.
"Riocorrente", com pouquíssima história, narrativa, nos arrasta em suas águas sujas e incendiárias, nos desafia ao desconhecido, a atravessar, em seus experimentalismo, o sinal fechado do inconsciente. É hermético no sentido de que investido de uma gramática simbólica que requer decifração em aberto para que cada espectador se implique, mesmo que não explique. Mas não é esnobe, permite que pessoas de diferentes repertórios intelectuais façam experiência igualmente intensa, porque sobretudo sensorial e afetiva. 
Suas cenas requerem apenas a disposição da entrega. Não "rejeitam" o espectador que não "saiba" que  Marcelo se refere a Ezra Pound num comentário sobre os criadores e os vulgarizadores em arte,  na exposição que conduz no "museu a céu aberto" que é o cemitério-cidade.
Um filme para estrangeiros camusianos, para exilados em e de si mesmos, um filme para desenvolver tolerância, quem sabe mesmo crescer numa bizarra santidade de acolhida ao diferente fora e em nós, aceitando a revolta que explode como a belíssima cena do tietê em chamas. Ante as tantas razões de nos revoltar, como dizia o libelo libertário de Sartre,  já não bastam grades de ferro  para conter o perigo das ideias. Elas não têm pauta, norte ou centro da maneira habitual de nos fazermos representar. Elas não têm um eu, como na pichação "não fui eu" feita por Carlos no apartamento de Renata.  Elas são o inconsciente a céu aberto. A cada Exu acorrentado outros tantos estão botando fogo no mundo com o dente de leite, cidade em chamas de um ódio e sede com cada vez menos água e bombeiros para se aplacar. 
-Unzuhause- 

domingo, junho 08, 2014

bizarro domingo


"Matá os polícia é nossa missão", dizia a pichação no muro marrom que fica entre duas das muitas placas/chapas brancas "Itaquera Stadium" do longo percurso que se faz para chegar ao estádio da abertura da Copa, mesmo de carro. Imagina na Copa, ou depois dela, o desconforto de quem vai a pé, descendo do metrô, quando havia autoridade para garantir que isto (metrô) funcionasse na maior cidade da América Latina, ou de jegue ou jumento, como sugeriu, muito a propósito,  nosso eterno presidente. 
O choque semiológico entre pichação e placas, e entre a exuberância do "stadium" e a pobreza do povo refém na guerra dos "policia" e dos marginais, Brasil das fachadas / chapas brancas do conluio governo / fifa e o interno inferno eterno do paìs real,  é só um dos paradoxos que senti na "viagem" que fiz à nova casa do Corinthians, esta tarde. 
Outro paradoxo foi esse, de poder enfim dizer para são-paulinos, santistas, palmeirenses, que enfim temos "casa própria", orgulho `pequeno burguês`, como se dizia antes, e da nova classe mèdia da era petralha, mas nunca ter me sentido, como corintiano, tão desenraizado, na rua da amargura, pela perda do Pacaembu de minhas lágrimas de tristeza e euforia com este time e seu povo, e pela contemplação do "Itaquerão" como monumento de revelação de minha própria transitoriedade, concreto que me espelha feito nuvem. Ele terá 18 aninhos de vida quando eu estarei, com sorte, beirando os 60. O Pacaembu era quarentão quando vim ao mundo, agora sou eu que me aproximo dessa idade no nascer do Itaquerão. Itaquerão,  glória e corte brutal entre futuro e passado, o "progresso" terceiro-mundista, na marcha de desapropriação de pessoas e de lembranças pelo grande capital. Tudo é tempo, todo concreto é nuvem, mas a minha se sente evaporar no céu, como elefante branco se desfazendo, como os elefantes brancos descartáveis que se afastam da manada para agonizar sozinhos, ou deixados para trás como farão com o Pacaembu.
Não foi só esse o único instante de sentimentos estranhos do dia. Saber da cambada sindical pt-pstu-psolista gozando em preparar mais uma semana de catástrofe urbana me encheu de angústia, embora já previsível, dado o calculismo político rasteiro que move essa gente desde sempre e nesta crise ainda mais. Onde está você, Geraldo Alckmin, pra botar ordem na casa? Resta ainda alguma autoridade ordenadora do gozo da pulsão de morte anarquizante que quer destroçar este país?
E, falando em gozar, o auge das bizarrices veio à noite, quando fui ver o estranhíssimo "Riocorrente", no Espaço Itaú da Augusta, sempre tão animado, mas hoje esvaziado pela "luta-continua-cumpanhero" dos petralhas. Volto outra hora ao filme, não foi ele, ao  contrário do que se podia esperar -outro paradoxo- o choque a que me refiro. Estava eu, minutos antes, no banheiro público, e um cara entra e se posta no primeiro vaso, entre mim e a entrada. O banheiro apertado é uma das razões para que eu, nessas situações, espere que as outras pessoas no meu caminho saiam primeiro. Ele não saía. Comecei a escutar um barulho estranho, uma esfregação. O cara simplesmente se masturbava olhando pra mim. Provavelmente algum código de pegação sexual em boate gay que desconheço estivesse em operação. Como me faltava a motivação do tesão e também a de ralhar em nome de algum senso de respeito e recato que seria ingênuo esperar naquele contexto, me ocorreu responder, em código também, me fechando numa das portas internas do banheiro e deixando o tarado sem o estímulo visual da minha "sexy" presença. 
-Unzuhause-

dois sonhos de voo mágico





Para complementar o comentário de hoje à tarde sobre o simbolismo do voo e da fuga mágicas, queria compartilhar duas reverberações contemporâneas desse arquétipo. Uma, de "Mar Adentro", Oscar de filme estrangeiro em 2005, e baseado na história verídica de um mergulhador que luta pelo direito à eutanásia, após quase 30 anos do acidente que o deixou tetraplégico. Ramón Sampedro (espetacular atuação de Javier Bardem) é de uma virilidade, inteligência e lucidez que se agigantam no trágico contraste com as limitações, seja as da crueldade do destino, seja as impostas pelo tabu moral que ele tem de enfrentar pelo direito a morrer voluntariamente, que aliás os estoicos, ao contrário dos cristãos, consideravam legítimo, quando as condições de vida regrediam e escapavam dos poderes de automodelagem do homem, visto pelos estoicos não como criatura miserável e à mercê da graça de Deus que nos dá e nos tira a vida quando bem entender, mas artesão ético de sua própria felicidade, na tensão entre liberdade do espírito e as coerções da existência.
A cena do "voo mágico", no filme, é o comovente devaneio em que Ramón se vê levantando da cama e lançando-se pelos ares, ao encontro da amada que caminha junto ao mar. Um redespertar do corpo e protesto da liberdade e do amor como exigências da "bela vida", que os antigos exigiam de si mesmos tanto quanto a "bela morte" a que viam fadados os heróis.  
A cena tanto mais magnífica na medida em que embalada pelos acordes poderosos de "Nessun Dorma" (Ninguém Durma!)

Nessun Dorma

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, principessa
Nella tua fredda stanza
Guardi le stelle
Che tremano d'amore
E di speranza.

Ma il mio mistero e chiuso in me
Il nome mio nessun saprá!
No, no, sulla tua bocca lo diró
Quando la luce splenderá!

Ed il mio bacio sciogliera il silenzio
Che ti fa mia!

(Il nome suo nessun saprá!
E noi dovrem, ahimé, morir!)

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vinceró!

Vinceró, vinceró!

(tradução)

Ninguém Durma
Ninguém durma! Ninguém durma!
Tu também, ó princesa
Na tua fria alcova
Olhas as estrelas
Que tremulam de amor
E de esperança!

Mas o meu mistério está fechado comigo,
O meu nome ninguém saberá!
Não, não, sobre a tua boca o direi,
Quando a luz resplandecer!

E o meu beijo destruirá o silêncio
Que te faz minha!

E o seu nome ninguem saberá!
E nós deveremos, infelizmente, morrer!

Desvencilhe, a noite!
Desapareçam, estrelas!
Desapareçam, estrelas!
Ao alvorecer eu vencerei!
Vencerei,vencerei!!!

O segundo exemplo é a música "SOS" de Raul Seixas. Ao seu modo mais pra sátiro que pra trágico, Raulzito denuncia a miséria da existência cotidiana e lança um apelo simbólico -o mesmo da imagem de nosso post anterior-  ao "moço do disco voador". 

S.O.S.
-Raul Seixas-
Hoje é domingo
Missa e praia
Céu de anil
Tem sangue no jornal
Bandeiras na Avenida Zil...

Lá por detrás da triste
Linda zona sul
Vai tudo muito bem
Formigas que trafegam
Sem porque...

E da janela
Desses quartos de pensão
Eu como vetor
Tranqüilo eu tento
Uma transmutação...

Oh! Oh! Seu Moço!
Do Disco Voador
Me leve com você
Prá onde você for
Oh! Oh! Seu Moço!
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí...

Andei rezando para
Tótens e Jesus
Jamais olhei pr'o céu
Meu Disco Voador além...

Já fui macaco
Em domingos glaciais
Atlântas colossais
Que eu não soube
Como utilizar...

E nas mensagens
Que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar
Estão muito ocupados
Prá pensar...

Oh! Oh! Seu Moço!
Do Disco Voador
Me leve com você
Prá onde você for
Oh! Oh! Seu Moço!
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí...

Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí!
Enquanto eu sei que tem

Tanta estrela por aí!...




Fã de Aleister Crowley, é do mago britânico que Raul noutra canção evoca a frase de que "todo homem e mulher é uma estrela". O moço do disco voador, a uma leitura conjugada das duas músicas, é o Mentor que nos levará, pois, numa viagem que é mais pra dentro que pra fora, pro profundo que pras alturas, rumo ao descentrante centro de nós mesmos, pra nossa singularidade única e irrepetível, por mais que soterrada pela mediocridade devastadora da solidão na multidão.
Por mais que nublados pelo vazio das diversões e interesses da vida  pedestre, nossas almas seguem tendo, ou melhor, sendo, potenciais inexplorados, centelhas divinas, "estrelas", o verdadeiro self de Winnicott, inconsciente coletivo em germe. Aliás  Jung, em ensaio ousado, quase ao fim da vida, interpreta os rumores crescentes sobre aparições de extraterrestres  como uma nova emergência, nos anseios e pesadelos do homem da era tecnológica, carrasco e réu da devastação e da saturação da Terra, do velho anseio messiânico (eram os deuses astronautas?) e por uma reconstrução da totalidade psíquica perdida (vide a forma circular dos Ovnis, como os "mandalas").
SOS e Mar Adentro, de suas respectivas perspectivas, nos fazem reencontrar a revolta e o desejo de liberdade que, como diz Eliade, se enraízam no sonho profundo dos homens de todas as eras, antes de virar ideal de ficar pelado para "conduzir o povo" nos delírios assassinos e vulgares da modernidade na espiral de declínio que vai do altivo seio exposto da França da revolução  à xereca satânica arreganhada do Brasil petralha.

-Unzuhause-

sábado, junho 07, 2014

xereca sagrada e a fuga mágica



Recebi a divertida e angustiante ilustração deste post no facebook, de uma amiga que compartilha de minhas inquietações com os rumos do Brasil petralha, dominado por um marxismo cultural que, pelos tentáculos do aparelhamento partidário do Estado, coalizão dos sindicatos do inferno e apodrecimento dos valores morais, quer fazer do país uma imensa "xereca satânik" - me referindo aqui ao título da memorável farra estudantil outro dia nas dependências de uma universidade federal.
Mas a imagem nos cala mais fundo em meio à azáfama do caos. Enseja um silêncio que dá voz a um anseio de ascensão celestial que nos assedia há milênios,  vide a disseminação universal das lendas da "fuga mágica" (Magische Flucht) e acerca do poder sobrenatural de voar, associado a xamãs, feiticeiros,  alquimistas, iogues, sábios, místicos e reis. 
No caso específico dos xamãs, mostra Mircea Eliade, o tema do voo mágico é uma tradução plástica para o objetivo do êxtase, nome (sintomático) de uma das drogas mais famosas do mundo contemporâneo, e que etimológica e existencialmente implica a saída de si, retorno, pelo portal sagrado representado fisiologicamente pelo órgão feminino caluniado como "xereca satânica" (o quanto será que essas feministas gostam do seu corpo?) ao seio materno das energias primordiais, abolição da condição humana "im-prensada" nos padrões vulgares de comunicação e demais limitações do mundo profano. 
A fuga a que os provavelmente drogados da xereca satânica almejam não passa, pois, de versão degradada de um sonho de cura (muitos dos êxtases xamânicos eram forma do curandeiro sair à caça da alma do doente, que os demônios teriam sequestrado ou extraviado) que comove a alma mística da humanidade desde o princípio dos tempos, por ser não só atemporal, mas antitemporal: revolta contra o tempo, esta região existencial da vida fadada à morte e a suas prefigurações como as perdas, separações, frustrações, impedimentos, envelhecimentos.
Quanto ao tema da Fuga Mágica, ele se distingue, a rigo, do "voo" por ser mais horizontal do que vertical, ou seja, não é ainda ascensão celestial, como nos voos xamânicos, por exemplo. O poder sobrenatural de que o protagonista está investido é o da velocidade excepcional, mas sem a vitória sobre os constrangimentos, os "pesos" da lei da gravidade, que hoje infelizmente vitimaram, num acidente de helicóptero, o ex-jogador de futebol Fernandão, ídolo do Internacional de Porto Alegre. 
A fuga mágica é um dos "mais antigos motivos folclóricos: encontramo-lo por todo lado e nos estratos mais arcaicos da cultura. Para falar com precisão, não se trata de um 'voo', mas de uma fuga vertiginosa, na maior parte do tempo na direção horizontal, o que se explica se a ideia fundamental do conto é, como pensam os folcloristas, o escape de um jovem herói do reino da Morte e sua perseguição por uma figura aterrorizante, que personifica a Morte", Ou seja, a Fuga Mágica como uma espécie de sonho de angústia, como diriam os psicanalistas, "o esforço supremo para escapar a um perigo iminente, libertar-se de uma terrível presença. O herói foge mais rapidamente do que os corcéis mágicos, mais rapidamente do que o vento, tão veloz como o pensamento - e contudo, só no final consegue desembaraçar-se do seu perseguidor". 
Este é um pesadelo estranhamente ao gosto moderno -a própria modernidade sendo também uma estrutura psíquica de pesadelo: não contamos nos contos de fuga mágica com o auxílio da divindade suprema, sendo socorridos por seres intermediários entre céu e terra, arautos, animais prestativos, fadas, quiçá os extraterrestres da nossa imagem acima, na qual porém as distinções entre fuga e voo mágico tendem a se dissipar.
Fuga e voo mágico: duas modalidades ancestrais da revolta existencial contra um mundo em que, como diriam os gnósticos, segundo Marilia Fiorillo (cf. o livro O Deus Exilado - Breve História de uma Heresia), "no princípio era a crise". Somos criatura da discórdia, da cisão primordial entre céu e terra, consciência e inconsciente, matéria e espírito, condenados à errância num mundo de absurdos, escrotos, petralhas, e sonhando em temor e tremor por alguém que nos leve para fora deste inferno, que nos dê o bilhete de volta pelos portais vaginais do mundo de antes do tempo. Que este alguém sejamos nós mesmos. Ame e deixe.
-Unzuhause-

terça-feira, junho 03, 2014

o mundo novo sob as cascas de nós


Amigo de Carl Jung e especialista em mitologia indiana, Heinrich Zimmer resgata junto a Martin Buber uma bela fábula sobre a necessidade da viagem ao longínquo para redescobrir os tesouros que sempre estiveram perto,  mas inacessíveis na penúria de nossos estados esclerosados de consciência e de atitude. 
A lenda (termo que significa "aquilo que deve ser lido") nos diz também da importância de atentar para os arautos, isto é, mensageiros no processo iniciático, que podemos deparar ao longo do caminho, mesmo ali onde eles se apresentem como mensageiros do bloqueio, indiferença ou até mesmo escárnio. Tantas vezes nos sentimos quais surdo-mudos num mundo brutalmente hostil e ignorante da língua de nossas necessidades e potencialidades do tamanho de galáxias encerradas (isto é, fechadas, talvez mesmo exauridas, mas paradoxalmente nem sequer iniciadas) sob as cascas de nós que nos amarram e nos impedem.  
Nos tempos atuais, de avassaladora desertificação e superficialização dos afetos e sentidos, cresce em importância você discernir quem e o que traz consigo um potencial de se comunicar com sua intimidade, de contribuir para o florescimento do que há de poderoso e original, e ao mesmo tempo profundamente delicado e sutil, em sua alma. Quem e o que vem é portador inaugural de uma palavra nova, de um canto que encante,  estímulo de fluidificação,  e quem e o que, ao contrário, é mais do mesmo e cerra fileiras no pelotão majoritário que não faz senão nos aprisionar na mendicância, de esquecimento de nosso tesouro próprio, contra a qual se insurge o sonho da lenda. Vamos então a ela:
O rabino Eisik, filho do rabino Jekel, vivia na Cracóvia.
Uma noite ele sonhou que havia um tesouro enterrado próximo a uma ponte em Praga. Ele ignorou o sonho (afinal de contas, era apenas um sonho), mas quando ele o teve por mais duas noites, decidiu dar uma chance e andou o longo caminho para Praga. Quando ele chegou, lá estava a ponte, do jeito que ele tinha sonhado. Infelizmente, havia uma pequena diferença: a ponte era guardada por uma companhia de soldados. Então Eisik ficou por lá por uns poucos dias, examinando a ponte e agindo como se estivesse interessado em sua arquitetura, e em qualquer outra coisa na qual ele pudesse pensar, esperando ter uma chance para cavar o tesouro. Mas não teve sorte.
Finalmente, o capitão da guarda suspeitou e perguntou a ele o que fazia. Eisik contou a estória do sonho, e o capitão riu. “Um sonho,” disse ele. “Quem acredita em sonhos? Por exemplo, eu sonhei por três noites que havia um tesouro enterrado ao lado do fogão na casa Eisik, filho de Jekel, na Cracóvia. Mas você me vê indo à Cracóvia para cavar? Não, eu fico aqui, onde eu deveria estar”.
Eisik agradeceu-lhe, e tomou novamente o longo caminho de volta. Ele cavou ao lado de seu fogão, e lá estava o tesouro.

-Unzuhause-