Thursday, June 26, 2014

a filha da filha


Que água é maior? A das lágrimas de cada um, nos poucos dias que nos são dados,  ou a de todos os oceanos e mundos? Mestre nos paradoxos da existência, Buda também subverte a primeira resposta que imaginaríamos para essa questão. Mais vasta é a água que já choramos, na nossa longa jornada existência após existência.
 Mesmo se não quisermos acreditar (ou melhor, se quisermos não acreditar, o que já é um acreditar em outra coisa) em reencarnação, mais vasta, no vivido da existência, é a nossa efêmera lágrima do que os infinitos oceanos, na medida mesma em que nenhuma dor é mais dolorosa do que a vivida por nós, naquele instante desamparado, certeiro, em que mal acreditamos que é "justo comigo" que a desgraça tenha se abatido sobre mim. É justo? 
Tudo depende do enfoque. Como diz o Buda nesse mesmo discurso sobre o samsara (avesso do nirvana, "círculo" das reencarnações e da barafunda de nossas ilusões e dores), longuíssima é a noite para quem agoniza na insônia, longuíssimo o caminho para os que estão fatigados, e infinita como um carrossel automovente a sucessão e repetição das existências, portanto das lágrimas, de quem desconhece a Lei. A tomada da consciência da inevitabilidade, nesse sentido (causa-efeito) justa, do sofrimento, como é "justa" a leptospirose que ataca o menino que apenas queria brincar ao se jogar na água suja de uma enchente, como a frustração que envenena com a podridão de nossas paixões  egoístas mesmo o mais refinado vinho dos prazeres que a vida teria a propor aos desapegados, aos que superaram em si o pavor da morte ao descobrir a vida mesma perpassada de mortes.
As mortes: as tantas perdas necessárias de nosso caminho evolucionário. As despedidas, normalmente mais precoces quanto mais precioso aquele ou aquilo que se vai (porque para quem ama, portanto para os de narina sensível aos flagrantes e fragrâncias do eterno, o tempo tirano é sempre escasso).

 O alzheimer da senhorinha do vídeo acima, apenas um nome específico para a patologia maior que é o tempo, força de deformação das formas que nos eram mais caras, aparentemente mais eternas, da mãe antes altiva, poderosa, que nos carregava no dentro, depois fora, depois nos pondo no chão, nos levava na mão, nos dava palmadas (quando o governo, babá melhor, nos dava essa liberdade), nos aplaudia no teatrinho da escola, nos secava o pranto, nos enchia (o saco, até) de amor, nos tornava possíveis. A mãe agora filha de sua filha, a filha mãe de sua mãe. A compaixão que nasce quando vemos que o Outro é apenas outro nome, na verdade uma abreviatura para a palavra completa, "outro Eu".  Círculo, metamorfose, idades-máscara da escola-teatro, do jogo rápido e frágil qual sonho. Que se torna pesadelo, porque desmedido, e ainda mesmo um céu de brigadeiro é indigesto se se repete em demasia, se não soubermos de sua lei, a causa e efeito, e seu propósito, a compaixão que liberta. 

-Unzuhause-