Saturday, June 07, 2014

dois sonhos de voo mágico





Para complementar o comentário de hoje à tarde sobre o simbolismo do voo e da fuga mágicas, queria compartilhar duas reverberações contemporâneas desse arquétipo. Uma, de "Mar Adentro", Oscar de filme estrangeiro em 2005, e baseado na história verídica de um mergulhador que luta pelo direito à eutanásia, após quase 30 anos do acidente que o deixou tetraplégico. Ramón Sampedro (espetacular atuação de Javier Bardem) é de uma virilidade, inteligência e lucidez que se agigantam no trágico contraste com as limitações, seja as da crueldade do destino, seja as impostas pelo tabu moral que ele tem de enfrentar pelo direito a morrer voluntariamente, que aliás os estoicos, ao contrário dos cristãos, consideravam legítimo, quando as condições de vida regrediam e escapavam dos poderes de automodelagem do homem, visto pelos estoicos não como criatura miserável e à mercê da graça de Deus que nos dá e nos tira a vida quando bem entender, mas artesão ético de sua própria felicidade, na tensão entre liberdade do espírito e as coerções da existência.
A cena do "voo mágico", no filme, é o comovente devaneio em que Ramón se vê levantando da cama e lançando-se pelos ares, ao encontro da amada que caminha junto ao mar. Um redespertar do corpo e protesto da liberdade e do amor como exigências da "bela vida", que os antigos exigiam de si mesmos tanto quanto a "bela morte" a que viam fadados os heróis.  
A cena tanto mais magnífica na medida em que embalada pelos acordes poderosos de "Nessun Dorma" (Ninguém Durma!)

Nessun Dorma

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, principessa
Nella tua fredda stanza
Guardi le stelle
Che tremano d'amore
E di speranza.

Ma il mio mistero e chiuso in me
Il nome mio nessun saprá!
No, no, sulla tua bocca lo diró
Quando la luce splenderá!

Ed il mio bacio sciogliera il silenzio
Che ti fa mia!

(Il nome suo nessun saprá!
E noi dovrem, ahimé, morir!)

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vinceró!

Vinceró, vinceró!

(tradução)

Ninguém Durma
Ninguém durma! Ninguém durma!
Tu também, ó princesa
Na tua fria alcova
Olhas as estrelas
Que tremulam de amor
E de esperança!

Mas o meu mistério está fechado comigo,
O meu nome ninguém saberá!
Não, não, sobre a tua boca o direi,
Quando a luz resplandecer!

E o meu beijo destruirá o silêncio
Que te faz minha!

E o seu nome ninguem saberá!
E nós deveremos, infelizmente, morrer!

Desvencilhe, a noite!
Desapareçam, estrelas!
Desapareçam, estrelas!
Ao alvorecer eu vencerei!
Vencerei,vencerei!!!

O segundo exemplo é a música "SOS" de Raul Seixas. Ao seu modo mais pra sátiro que pra trágico, Raulzito denuncia a miséria da existência cotidiana e lança um apelo simbólico -o mesmo da imagem de nosso post anterior-  ao "moço do disco voador". 

S.O.S.
-Raul Seixas-
Hoje é domingo
Missa e praia
Céu de anil
Tem sangue no jornal
Bandeiras na Avenida Zil...

Lá por detrás da triste
Linda zona sul
Vai tudo muito bem
Formigas que trafegam
Sem porque...

E da janela
Desses quartos de pensão
Eu como vetor
Tranqüilo eu tento
Uma transmutação...

Oh! Oh! Seu Moço!
Do Disco Voador
Me leve com você
Prá onde você for
Oh! Oh! Seu Moço!
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí...

Andei rezando para
Tótens e Jesus
Jamais olhei pr'o céu
Meu Disco Voador além...

Já fui macaco
Em domingos glaciais
Atlântas colossais
Que eu não soube
Como utilizar...

E nas mensagens
Que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar
Estão muito ocupados
Prá pensar...

Oh! Oh! Seu Moço!
Do Disco Voador
Me leve com você
Prá onde você for
Oh! Oh! Seu Moço!
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí...

Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí!
Enquanto eu sei que tem

Tanta estrela por aí!...




Fã de Aleister Crowley, é do mago britânico que Raul noutra canção evoca a frase de que "todo homem e mulher é uma estrela". O moço do disco voador, a uma leitura conjugada das duas músicas, é o Mentor que nos levará, pois, numa viagem que é mais pra dentro que pra fora, pro profundo que pras alturas, rumo ao descentrante centro de nós mesmos, pra nossa singularidade única e irrepetível, por mais que soterrada pela mediocridade devastadora da solidão na multidão.
Por mais que nublados pelo vazio das diversões e interesses da vida  pedestre, nossas almas seguem tendo, ou melhor, sendo, potenciais inexplorados, centelhas divinas, "estrelas", o verdadeiro self de Winnicott, inconsciente coletivo em germe. Aliás  Jung, em ensaio ousado, quase ao fim da vida, interpreta os rumores crescentes sobre aparições de extraterrestres  como uma nova emergência, nos anseios e pesadelos do homem da era tecnológica, carrasco e réu da devastação e da saturação da Terra, do velho anseio messiânico (eram os deuses astronautas?) e por uma reconstrução da totalidade psíquica perdida (vide a forma circular dos Ovnis, como os "mandalas").
SOS e Mar Adentro, de suas respectivas perspectivas, nos fazem reencontrar a revolta e o desejo de liberdade que, como diz Eliade, se enraízam no sonho profundo dos homens de todas as eras, antes de virar ideal de ficar pelado para "conduzir o povo" nos delírios assassinos e vulgares da modernidade na espiral de declínio que vai do altivo seio exposto da França da revolução  à xereca satânica arreganhada do Brasil petralha.

-Unzuhause-