terça-feira, junho 03, 2014

o mundo novo sob as cascas de nós


Amigo de Carl Jung e especialista em mitologia indiana, Heinrich Zimmer resgata junto a Martin Buber uma bela fábula sobre a necessidade da viagem ao longínquo para redescobrir os tesouros que sempre estiveram perto,  mas inacessíveis na penúria de nossos estados esclerosados de consciência e de atitude. 
A lenda (termo que significa "aquilo que deve ser lido") nos diz também da importância de atentar para os arautos, isto é, mensageiros no processo iniciático, que podemos deparar ao longo do caminho, mesmo ali onde eles se apresentem como mensageiros do bloqueio, indiferença ou até mesmo escárnio. Tantas vezes nos sentimos quais surdo-mudos num mundo brutalmente hostil e ignorante da língua de nossas necessidades e potencialidades do tamanho de galáxias encerradas (isto é, fechadas, talvez mesmo exauridas, mas paradoxalmente nem sequer iniciadas) sob as cascas de nós que nos amarram e nos impedem.  
Nos tempos atuais, de avassaladora desertificação e superficialização dos afetos e sentidos, cresce em importância você discernir quem e o que traz consigo um potencial de se comunicar com sua intimidade, de contribuir para o florescimento do que há de poderoso e original, e ao mesmo tempo profundamente delicado e sutil, em sua alma. Quem e o que vem é portador inaugural de uma palavra nova, de um canto que encante,  estímulo de fluidificação,  e quem e o que, ao contrário, é mais do mesmo e cerra fileiras no pelotão majoritário que não faz senão nos aprisionar na mendicância, de esquecimento de nosso tesouro próprio, contra a qual se insurge o sonho da lenda. Vamos então a ela:
O rabino Eisik, filho do rabino Jekel, vivia na Cracóvia.
Uma noite ele sonhou que havia um tesouro enterrado próximo a uma ponte em Praga. Ele ignorou o sonho (afinal de contas, era apenas um sonho), mas quando ele o teve por mais duas noites, decidiu dar uma chance e andou o longo caminho para Praga. Quando ele chegou, lá estava a ponte, do jeito que ele tinha sonhado. Infelizmente, havia uma pequena diferença: a ponte era guardada por uma companhia de soldados. Então Eisik ficou por lá por uns poucos dias, examinando a ponte e agindo como se estivesse interessado em sua arquitetura, e em qualquer outra coisa na qual ele pudesse pensar, esperando ter uma chance para cavar o tesouro. Mas não teve sorte.
Finalmente, o capitão da guarda suspeitou e perguntou a ele o que fazia. Eisik contou a estória do sonho, e o capitão riu. “Um sonho,” disse ele. “Quem acredita em sonhos? Por exemplo, eu sonhei por três noites que havia um tesouro enterrado ao lado do fogão na casa Eisik, filho de Jekel, na Cracóvia. Mas você me vê indo à Cracóvia para cavar? Não, eu fico aqui, onde eu deveria estar”.
Eisik agradeceu-lhe, e tomou novamente o longo caminho de volta. Ele cavou ao lado de seu fogão, e lá estava o tesouro.

-Unzuhause-