Wednesday, June 11, 2014

o sacramento da revolta


A experiência de Brasil propiciada por "Riocorrente", nas sessões do Espaço Itaú da Augusta, começa antes do filme propriamente dito. Atentem para o comercial do banco dono do pedaço: "Isso muda o jogo", uma série, creio, que reúne torcedores fanáticos pela Seleção Brasileira de futebol. O personagem daquela ocasião trabalha num tribunal trabalhista de Campinas. Ele cumpre promessa desde o tetracampeonato de 1994: só se veste com peças em verde e amarelo, únicas cores que admite também para seus alimentos. E a promessa dele para o hexa, diz contendo a emoção, é acrescentar "Brasil" a seu sobrenome.
A Copa que não houve
Às vésperas de começar uma Copa que já não houve, como mostrou bem Vladimir Safatle em artigo ontem na Folha, é preciso fazer força para não descarregar na nossa gente humilde um mal-estar mais difuso, relativo a um país que, se alguma vez houve, parece estar se desmanchando. É preciso, mas difícil, não ser xenófobo de nosso próprio país: deixar crescer a percepção de ser brasileiro como maldição relembrada pelo RG e pela incapacidade de dar o fora daqui, tendo de conviver com um calvário social que não mais tem peias de expor suas vísceras, qual numa peça de teatro experimental que atire na cara do público um fígado sangrando.
Não é só o Policarpo Quaresma (de nome Nelson Paviotti) do comercial do Itaú que é engolido e vira um personagem a mais  de Paulo Sacramento. Difícil não nos vermos lá, todos e cada um, todos como um, sobretudo se nossa  xenofobia como estrangeiros da existência ordinária tem ainda a duvidosa sorte de, quais prometeu ao rochedo, termos o fígado comido sem pressa e sempre de novo pelo abutre que é morar em São Paulo.
A cidade não é apenas ambiente, mas protagonista. 
A ferida no inorgânico 
Na cena inicial, vira tema de "close" na tomada panorâmica de sua noite escura, entrecortando a ação em que o moleque  "Exu" abre com sua faca uma "cicatriz" gigantesca num carro de luxo (sim, ferido como um ser vivo qualquer, e no lugar do ser vivo que o dirige ou por ele é dirigido / digerido)  estacionado e à mercê do ódio frio do menino negro, de apelido e vocação de demônio, na percepção cristã habitual sobre os cultos da negritude africana.  
Quantos Exus como ele nos assombram no dia a dia, passam por nós, até de camisa do Brasil (ou seja, do time de futebol das CBF), nos forçando a driblá-los, quando damos sorte. 
Eu, que tenho fobia a contato físico com estranhos de todas as classes sociais, outro dia fui abordado pelo temível adolescente de camisa do São Paulo que pede "fralda" no caminho da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Tirei o braço involuntariamente quando ele trazia a mão pra  cima de mim, e respondi, antes de qualquer pergunta ser verbalizada: "Não tenho". 
Na saída da livraria, reencontrei aquele exu da Paulista, que me abordou de novo, e ficou com o mesmo olhar de ódio frio do Exu de Sacramento quando eu repeti o meu "não tenho", embora já tivesse, dessa vez, uma sacola plástica nas mãos e, nela, minhas duas novas aquisições na minha Livraria-templo, o livro de João Pereira Coutinho sobre o pensamento conservador, e a edição da Vozes do "A Transcendência do Ego", de Sartre, o filósofo imortalizado junto ao senso comum pela frase de que o "inferno são os outros": nossa única transcendência possível não é a fuga mágica para o céu, como sonhavam os místicos, e sim o transbordamento cotidiano  da consciência sempre para fora de si. Ela é amorfa e vazia, é sempre consciência de, por isso refém em potencial de outra consciência que não se lhe ofereça como coisa-espelho, mas como Outro- carrasco. Eu nessa medida "sou" o Exu que me transpassou com seu olhar ressentido, faca de olhos a reabrir no meu corpo a ferida sem cicatriz possível.
Exu exorcizado
 Nem mesmo exorcismos que a psicologia do pavor inspirou à evangélica Rachel Sheherazade, quando foi à TV dar voz a e "justiçar" o sentimento de milhões que compreendem quando o diabo ladrão de nossa paz é preso junto a um poste. Tá com pena, leva pra casa: palavras que mostram o quão longe estamos da postura de "acolhimento" das diferenças, termo que o filósofo Mario Sergio Cortella disse, no "Saia Justa", semana passada, preferir ao conceito de "tolerância". Tolerar seria suportar o outro apesar de ser o que é; acolher é amar o outro como é.
No país que se desmancha, não parece haver lugar para os caminhos do meio cordiais, os sincretismos. É ou a purificação evangélica ou o corpo do Exu sendo tatuado por mãos imundas com a palavra "Maldito", antes de voltar para a rua, contemplar um leão engaiolado numa carroça. A câmera nos faz ver a grade de ferro como atributo do leão e do próprio menino, que se decide naquele instante a arrancar o dente de leite que pendia na sua boca: rito de passagem da sua "sina", como diz o pai adotivo do menino. Sua sina assassina, ou assassinada, de vestibulando altamente gabaritado para ingressar, pelos ritos sacramentais de uma sociedade que não há, enquanto consciência moral e solidariedade, num dos carandirus que Sacramento, anos atrás, tão bem retratou no documentário "O Prisioneiro da Grade de Ferro". 
A instância mediadora de sìnteses sincrèticas de `casa grande & senzala` que outrora foi a Igreja Católica brasileira parece dormir como a Catedral de portas fechadas, tarde da noite, quando o Exu nas escadarias da Sé, sozinho,  é mostrado preparando sabe lá que vodu incendiário. 
Vermelho, branco e preto
Só mais uma das ocorrências do simbolismo do fogo ao longo do filme, todo ele profundamente arquetípico também nos outros personagens, como o intelectual prisioneiro da esterilidade de seu apartamento todo branco, o bandido pai adotivo de Exu em sua casa sempre às escuras, e a burguesa (Renata) namorada do intelectual (Marcelo), amante do bandido (Carlos), que tenta se virar entre a marginalidade com incrível facilidade de acesso a todos os carros e apartamentos que quiser e o  sub-emprego no ferro-velho,  e "vermelha" como a libido que não aplaca nem mesmo depois de meditar junto à árvore que, aliás, está no quintal de Hilda Hilst, a poetisa do desejo.  O vermelho, para Carlos, é o desejo interditado e morto como o sinal no cruzamento da Paulista, sinal eternamente fechado que ele terá de ter a coragem de atravessar, em cena que nos dá medo, pela disposição da câmera, de uma colisão iminente com o desconhecido.
 No tempo cíclico como o de  Finnegans Wake, de Joyce -romance sobre o despertar de um ser mítico, e que inspira o título do filme- as ideias voltarão a ser perigosas, lema do situacionismo francês de 68, e  evocado por Sacramento. O diretor se mostra pleno da virtude do poeta, ser antena da raça, diria Pound; de uma incrível ressonância, de forma e conteúdo, estética e política da anarquia, com uma realidade atualíssima, embora tenha rodado o longa em 2012, antes dos acontecimentos de junho passado, mas já anunciando e mostrando uma "combustão" de nossas cabeças quais fósforos que já não dá mais para deixar apagados, que é preciso riscar agora. 
O rato  e o rei 
Quem não entender isso, e se enclausurar numa recusa histérica, num sonho restauracionista por ditaduras, num horror capaz de passar álcool no ouvido só de ouvir o mínimo ruído da balbúrdia que não quer mais se calar, se arrisca a ser estoque morto de informações como os "jornalões", no fundo invejados também, mas caricaturados com ódio pelas mídias ninja sabe-se lá a serviço de quem ou de que "debate com a sociedade" em prol de um "controle social" por parte dos iluminados do Povo. A mídia tradicional é tratada com pouca consideração no filme de Sacramento. Não só na cena dos ratos roendo a roupa do rei de Roma, ops, dos jornais esquecidos no armazém; o coquetel molotov de Carlos é atirado a uma banca de jornal e revista.
"Riocorrente", com pouquíssima história, narrativa, nos arrasta em suas águas sujas e incendiárias, nos desafia ao desconhecido, a atravessar, em seus experimentalismo, o sinal fechado do inconsciente. É hermético no sentido de que investido de uma gramática simbólica que requer decifração em aberto para que cada espectador se implique, mesmo que não explique. Mas não é esnobe, permite que pessoas de diferentes repertórios intelectuais façam experiência igualmente intensa, porque sobretudo sensorial e afetiva. 
Suas cenas requerem apenas a disposição da entrega. Não "rejeitam" o espectador que não "saiba" que  Marcelo se refere a Ezra Pound num comentário sobre os criadores e os vulgarizadores em arte,  na exposição que conduz no "museu a céu aberto" que é o cemitério-cidade.
Um filme para estrangeiros camusianos, para exilados em e de si mesmos, um filme para desenvolver tolerância, quem sabe mesmo crescer numa bizarra santidade de acolhida ao diferente fora e em nós, aceitando a revolta que explode como a belíssima cena do tietê em chamas. Ante as tantas razões de nos revoltar, como dizia o libelo libertário de Sartre,  já não bastam grades de ferro  para conter o perigo das ideias. Elas não têm pauta, norte ou centro da maneira habitual de nos fazermos representar. Elas não têm um eu, como na pichação "não fui eu" feita por Carlos no apartamento de Renata.  Elas são o inconsciente a céu aberto. A cada Exu acorrentado outros tantos estão botando fogo no mundo com o dente de leite, cidade em chamas de um ódio e sede com cada vez menos água e bombeiros para se aplacar. 
-Unzuhause-