Saturday, June 28, 2014

Resenhas para a Folha, 28/06


Folha de S. Paulo
Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
textos de CAIO LIUDVIK
TRAVESSIA MARÍTIMA COM DOM QUIXOTE
Esta coletânea de textos do alemão Thomas Mann cobre um período que vai de 1906 a 1952. Um dos maiores escritores do século 20, ele faz uma uma espécie de diário de viagem e de leitura da obra clássica de Cervantes,  apresenta Kafka como um "humorista religioso" e reflete sobre temas-chave de sua própria obra, como a ironia e o romance de formação. 
Este gênero, alheio aos engajamentos do romance político-social,  condensa, segundo ele, um individualismo tipicamente alemão, romântico, apolítico e capaz de fazer face às tendências coletivistas da sociedade e do Estado modernos. 
Mann faz também um "elogio ao sono" pelo qual explicita a influência (mediada por Schopenhauer) do conceito hindu e budista de "nirvana". Paradoxalmente, num texto bem posterior, e já há poucos anos da morte, Mann tece um comovente elogio não da eternidade nirvânica, mas da transitoriedade que insufla alma ao ser e sentido no viver.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO
OS JUDEUS DO PAPA
A peça "O Vigário" (1963), de Rolf Hochhuth, levada aos palcos pelo diretor vanguardista Erwin Piscator, foi o marco do escândalo de grandes proporções: o papa Pio XII e a Igreja Católica eram acusados de concordância tácita com o Holocausto.  Recaiu sobre o pontificado de Eugenio Pacelli (1939-1958), antecessor do "papa bom" João23, a alcunha bem menos nobre de papa omisso. 
 O livro-reportagem de Gordon Thomas argumenta que esta é uma grande injustiça (reafirmada recentemente,  pelo bombástico "O Papa de Hitler", de John Cornwell) e que ,se de fato Pacelli se calou publicamente em relação à barbárie nazista–com receio de represálias contra os católicos de língua alemã-, ele liderou uma rede de apoio humanitário que salvou cerca de 800 mil vidas, doou ouro do Vaticano para o gueto judaico de Roma (a fim de que se negociassem condições de trégua com os alemães), escondeu milhares de judeus em sua casa de verão e em conventos e mosteiros do Vaticano. 
O que talvez não baste –na falta de gestos propriamente políticos- para lhe decretar "santo", como parece o objetivo do autor.  

AVALIAÇÃO - BOM