sábado, junho 07, 2014

xereca sagrada e a fuga mágica



Recebi a divertida e angustiante ilustração deste post no facebook, de uma amiga que compartilha de minhas inquietações com os rumos do Brasil petralha, dominado por um marxismo cultural que, pelos tentáculos do aparelhamento partidário do Estado, coalizão dos sindicatos do inferno e apodrecimento dos valores morais, quer fazer do país uma imensa "xereca satânik" - me referindo aqui ao título da memorável farra estudantil outro dia nas dependências de uma universidade federal.
Mas a imagem nos cala mais fundo em meio à azáfama do caos. Enseja um silêncio que dá voz a um anseio de ascensão celestial que nos assedia há milênios,  vide a disseminação universal das lendas da "fuga mágica" (Magische Flucht) e acerca do poder sobrenatural de voar, associado a xamãs, feiticeiros,  alquimistas, iogues, sábios, místicos e reis. 
No caso específico dos xamãs, mostra Mircea Eliade, o tema do voo mágico é uma tradução plástica para o objetivo do êxtase, nome (sintomático) de uma das drogas mais famosas do mundo contemporâneo, e que etimológica e existencialmente implica a saída de si, retorno, pelo portal sagrado representado fisiologicamente pelo órgão feminino caluniado como "xereca satânica" (o quanto será que essas feministas gostam do seu corpo?) ao seio materno das energias primordiais, abolição da condição humana "im-prensada" nos padrões vulgares de comunicação e demais limitações do mundo profano. 
A fuga a que os provavelmente drogados da xereca satânica almejam não passa, pois, de versão degradada de um sonho de cura (muitos dos êxtases xamânicos eram forma do curandeiro sair à caça da alma do doente, que os demônios teriam sequestrado ou extraviado) que comove a alma mística da humanidade desde o princípio dos tempos, por ser não só atemporal, mas antitemporal: revolta contra o tempo, esta região existencial da vida fadada à morte e a suas prefigurações como as perdas, separações, frustrações, impedimentos, envelhecimentos.
Quanto ao tema da Fuga Mágica, ele se distingue, a rigo, do "voo" por ser mais horizontal do que vertical, ou seja, não é ainda ascensão celestial, como nos voos xamânicos, por exemplo. O poder sobrenatural de que o protagonista está investido é o da velocidade excepcional, mas sem a vitória sobre os constrangimentos, os "pesos" da lei da gravidade, que hoje infelizmente vitimaram, num acidente de helicóptero, o ex-jogador de futebol Fernandão, ídolo do Internacional de Porto Alegre. 
A fuga mágica é um dos "mais antigos motivos folclóricos: encontramo-lo por todo lado e nos estratos mais arcaicos da cultura. Para falar com precisão, não se trata de um 'voo', mas de uma fuga vertiginosa, na maior parte do tempo na direção horizontal, o que se explica se a ideia fundamental do conto é, como pensam os folcloristas, o escape de um jovem herói do reino da Morte e sua perseguição por uma figura aterrorizante, que personifica a Morte", Ou seja, a Fuga Mágica como uma espécie de sonho de angústia, como diriam os psicanalistas, "o esforço supremo para escapar a um perigo iminente, libertar-se de uma terrível presença. O herói foge mais rapidamente do que os corcéis mágicos, mais rapidamente do que o vento, tão veloz como o pensamento - e contudo, só no final consegue desembaraçar-se do seu perseguidor". 
Este é um pesadelo estranhamente ao gosto moderno -a própria modernidade sendo também uma estrutura psíquica de pesadelo: não contamos nos contos de fuga mágica com o auxílio da divindade suprema, sendo socorridos por seres intermediários entre céu e terra, arautos, animais prestativos, fadas, quiçá os extraterrestres da nossa imagem acima, na qual porém as distinções entre fuga e voo mágico tendem a se dissipar.
Fuga e voo mágico: duas modalidades ancestrais da revolta existencial contra um mundo em que, como diriam os gnósticos, segundo Marilia Fiorillo (cf. o livro O Deus Exilado - Breve História de uma Heresia), "no princípio era a crise". Somos criatura da discórdia, da cisão primordial entre céu e terra, consciência e inconsciente, matéria e espírito, condenados à errância num mundo de absurdos, escrotos, petralhas, e sonhando em temor e tremor por alguém que nos leve para fora deste inferno, que nos dê o bilhete de volta pelos portais vaginais do mundo de antes do tempo. Que este alguém sejamos nós mesmos. Ame e deixe.
-Unzuhause-