Saturday, July 26, 2014

contra um mundo banguela


Tenho dedicado os últimos dias ao estudo do Sermão da Montanha da perspectiva da filosofia Vedanta. Base do ensinamento ético do cristianismo, ele contém palavras que, por demais "familiares" aos ocidentais, por isso mesmo tendem com o tempo a deixar de serem compreendidas, muito menos postas em práticas. Assim como o fluxo  entre a mente, olhos, coração e as mãos quando se acaricia a mulher amada, assim também é o circuito da compreensão das verdades espirituais. A ação não é um adorno externo, é palavra também, a seu modo, para que uma carta do espírito para o espírito (que é como, em todos os tempos, as Escrituras sagradas, inclusive as grandes literaturas profanas, se definem) não fique rasurada, ininteligível, adulterada, esclerosada pela falta de prática. 
Prática por exemplo -eis um dos motivos de escutar uma tradução indiana da sabedoria de Cristo- da tolerância intercultural, ou melhor, da alegria do reconhecimento de diferenças, singularidades, sim, mas também harmonias profundas que as pessoas de todos os quadrantes contêm em germe, centelha sufocada quando fanáticos e interesseiros arrogantes -vide o espetáculo lamentável no Oriente Médio atual- tomam a palavra, sequestram a consciência, e bombardeiam e humilham como foram bombardeados e humilhados. Olho por olho, dente por dente, eis o mantra para um mundo cego e banguela.
Vamos então à primeira das bem-aventuranças, isto é, das felicidades extremas propiciadas pelo gozo do Bem em senda de aventura, que Cristo nos instrui a tomar como GPS para caminhar com tocha de sentido no mundo das trevas: a humildade. Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus. 
 O guru hindu Swamim Prabhavananda, em quem me inspiro no diálogo cristão-hindu deste texto, observa: "Se uma pessoa orgulha-se do que sabe, da riqueza, da beleza ou da linhagem; se tem ideias preconcebidas do que seja a vida espiritual e de como deveria ser ensinada - então sua mente não está receptiva aos ensinamentos mais elevados". 
Ele então propõe uma analogia com o "evangelho dos hindus", expressão que não visa a relativizar a Boa- Nova judaico-cristã, mas enobrecê-la na sua analogia com a Revelação divina formulada em outra língua. No Bhagavad-Gita, lemos: "As almas iluminadas que perceberam a verdade hão-de intruirte no conhecimento de Brahma (o aspecto transcendental de Deus), se tu te prostrares diante delas, as interrogares e as servires como um discípulo" 
Swamim então acrescenta deliciosa parábola, que nos dá conta de que, "naquele tempo" (para usarmos expressão típica dos folhetos da missa católica, e que Eliade considera uma fórmula universal do passaporte mítico que nos leva do aqui-agora profanovulgar para o reino arquetípico intemporal), havia um homem que procurou um mestre e pediu para ser seu discípulo. O mestre logo se apercebe, qual numa entrevista de emprego para a qual nos apresentemos nervosos, inseguros e transparecendo "falta de currículo", que o homem não estava ainda preparado para ser instruído. Mas, ao invés de despachá-lo sem mais, o interroga: "Você sabe o que precisa fazer para ser meu discípulo?"
O homem confessou que não e pediu ao mestre que lho dissesse. 
"Bem", disse o mestre, "você precisa ir buscar água, apanhar lenha, cozinhar e trabalhar muitas horas em serviços pesados. Precisa também estudar. Está disposto a fazer tudo isto?"
O homem respondeu:
"Sei agora o que o discípulo precisa fazer. Diga-me por favor, e o mestre, o que ele faz?
"Ah", provocou o guru, "O mestre fica sentado, e em sua maneira recolhida dá as instruções espirituais"
"Entendi", disse o jovem desapontado, que nos lembra o jovem rico que se recusou a abrir mão de sua avareza para seguir o Cristo. "Nesse caso, não quero ser discípulo. Por que você não faz de mim um mestre?"
A história é saborosa também por nos advertir contra um tipo específico de arrogância de que se padece na senda da sabedoria; a arrogância da própria sabedoria, se a encaramos com os apetites de poder, prestígio e conforto pessoal para além dos quais está a genuína sabedoria. Lembremos que, ao se definir como um "amigo (filo) da sabedoria (sofia)", o verdadeiro filósofo se desidentifica com ela, a ama porque, como todo que ama, sente uma falta em si que o objeto do amor vem completar. Discipulado portanto da amizade. Disciplina do amor, energia para os trabalhos supostamente "prosaicos" que nos dão musculatura e astúcia para que o romance com Deus e com a vida não seja poesia desperdiçada.
Também de humildade nos fala Jean Tauler, o místico dominicano do século XIV, ao comentar outra passagem do Evangelho, em que Nosso Senhor observa: «Muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram» (Lc 10,24).
"Por profetas entenda-se os grandes espíritos subtis e dados ao raciocínio que se apegam às subtilezas da razão natural e delas têm vaidade; uns olhos assim não são ditosos. Por reis entenda-se os que são por natureza senhores, de energia forte e poderosa, senhores de si próprios, das suas palavras, das suas obras e do seu idioma, e que fazem tudo o que querem com jejuns, vigílias e novenas, fazendo disso grande alarde, como se de algo extraordinário se tratasse, mas desprezam os outros. Também não são esses olhos que são ditosos.
Todas estas pessoas quiseram ver e não viram. Quiseram ver, mas apegaram-se à vontade própria [...], uma vontade que encobre os olhos da alma como uma película ou uma membrana encobre os olhos do corpo, impedindo-os de ver [...]. Quanto mais permanecerdes na vontade própria, mais privados sereis de ver com o olhar interior, uma vez que a verdadeira felicidade advém do abandono verdadeiro, que é o afastamento da vontade própria. Tudo isso nasce do fundo da humildade [...]. Quanto mais pequenos e humildes fordes, menos vontade própria tereis [...].
Quando tudo está em paz, a alma vê a sua própria essência e todas as suas faculdades; reconhece-se como imagem racional daquele de Quem saiu, e os olhos [...] que fixam aí o seu olhar podem perfeitamente ser tidos por ditosos por causa do que vêem. E então sim, é a maravilha das maravilhas que se descobre, o que há de mais puro, de mais certo, aquilo que menos poderá ser-vos tirado (Lc 10,42) [...]. Possamos nós seguir neste caminho e ver de tal modo que os nossos olhos sejam ditosos. Assim Deus nos ajude!"
-Unzuhause-