Wednesday, July 02, 2014

covardia


Volto pra complementar o comentário ao programa de Gikovate ontem. Como antecipei no post sobre a fila de entrada, o tema de abertura foi o que ele chamou de a covardia, ou medo desmesurado, prudência excessiva, duplamente ruim: desproporcional talvez ao perigo real e inibidora de ações necessárias. Não é o caso do menino franzino que teme trocar soco com o colega de escola maior e mais agressivo. Ocorre que muitas vezes o colega maior se comporta como o franzino. E, no modelo hipotético de Gikovate, ele se inibe menos pelo medo de apanhar que pelo de bater. Sim, tem uma espécie de empatia espontânea com o adversário, a ponto de se pôr na pele dele, por isso machucar o outro seria como machucar a si mesmo. Uma versão por assim dizer muito cristã, e por isso belíssima, para um problema que evidentemente tem muitas outras possibilidades, menos belas, de interpretação.  
O próprio teor cristão deste gesto de não revidar o mal pode assumir tinturas de sabedoria num Tolstoi, e as de um nerd retardado, ao espelho crítico de um Nietzsche, para quem o cristianismo é um manto para acobertar a fraqueza e a fuga de nossos instintos mais essenciais, os de poder e de amar. Interpretações excludentes no âmbito árido de quem precisa de uma fórmula filosófica para se dependurar na vida, mas igualmente possíveis. Na fórmula esotérica de Cristo, duas mulheres estarão, no dia final, moendo no moinho, uma será arrebatada, outra será deixada para trás. Mesmos gestos, mesmos textos, abismo entre os sentidos. 
No caso de Gikovate, a reflexão se conecta a um âmbito mais concreto. Ele pensa sobretudo no adulto que leva consigo vida afora a inibição infantil de dizer não, com mais ou menos ênfase,  a gente folgada, seja pelo medo de bater ou de apanhar. 
Tal pessoa, "altruísta",  pode se esconder o quanto quiser em justificativas elevadas para não passar o trator nos outros, mas assim será candidatíssimo a ser ele chiclete das rodas do trator dos egoístas ao seu redor. Cristão em meio a maquiavélicos (no sentido deturpado desse adjetivo, que não faz jus a Maquiavel), será, como o próprio Cristo previa, um eleito para a bem-aventurança de nutrir fome e sede de justiça, mas, sem a argúcia das serpentes, será um pombinho vítima contumaz de injustiças,  fracassado na certa, nos jogos de poder que povoam a sociedade. Somos competitivos desde os espermatozoides em "fórmula um" para ser o um que vai fecundar o óvulo e formular com ele o ser que viemos a ser dentre os tantos outros possíveis, passando pelo choro pela atenção da mãe contra o pai, a disputa das bolinhas de gude (ainda se brinca disso?) na escola, a menina mais cobiçada da balada, a conquista da futura mãe de nossos filhos (que não se torne a mãe do próprio marido), a carreira, a saúde, enfim, tudo aquilo em que que a essência imortal, a "consciência-testemunho" hindu, se vê como gladiadora mortal nas arenas da existência, diante da  sazonalidade frágil das horas e a escassez das oportunidades. 
Gikovate mencionou, à pergunta de um espectador, a figura do sabotador interno que nos perturba e afronta nossos sonhos e as decisões que precisamos tomar (com coragem) se queremos a felicidade. Queremos? Nossa pulsão de morte, no mito freudiano, certamente quer outra coisa, seu "sucesso" é nos aprisionar ao fracasso, à repetição miserável, ao repouso nirvânico covarde em suportar as dores que acompanham quaisquer projetos consistentes de nos "destacarmos" -como se, nos diferenciando da multidão medíocre que de algum modo protege, nos tornássemos alvos individualizados do facão da castração, como o órgão que se "destaca" no homem quando ele se excita. 
Sim, muitas vezes nos habita a ideia, ou superstição, de que é melhor fugir não só do perigo real (o menino franzino que tem razão em evitar sair no pau com o mais forte), mas do próprio prazer. Então somos o menino forte mas que se bota pra baixo até diante dos mosquitos. Como se proclamando nossa autoridade pessoal fossemos incorrer numa hybris (orgulho) a ser punida pelo demônio. Como se o prazer de viver nos obrigasse a pagar não o preço da responsabilidade, da humildade genuínas, mas o castigo delirante de quem se apavora de imaginar o tijolo que cairá em sua cabeça para punir o delito de tomar sorvete andando e sorrindo tranquilo na calçada! O doutor não deu esse exemplo, mas o da mulher que não conta aos amigos,  por muito tempo, que está grávida, temendo de algum modo que isso acarretaria um aborto espontâneo. 
Quantos abortos a covardia nos impõe? Empregos, viagens, amizades, amores, cursos que deixamos de fazer e viver, pessoas que deixamos de ser, tirando graça da vida em nome da desgraça sempre temida, evitada, e soberana.
-Unzuhause-