Friday, July 04, 2014

o diário de Hazel Grace


A nota, ou melhor, o "lembrete do Autor", no início do romance "A Culpa das Estrelas", adverte: este romance é um romance, tautologia que muitos esquecem quando se perguntam o que na história é "verídico", o que aconteceu "de verdade" com o próprio inventor. São perguntas ruins não porque xeretas, mas porque atentam, diz John Green com sabedoria, contra a "crença fundamental da nossa espécie", a saber, a de que "histórias inventadas podem ser relevantes".
O senso comum exalta os grandes inventores de engenhocas ou vacinas, mas tem mais dificuldade em lidar com o fato de que a própria vida a que esses inventos se prestam é uma ficção. Uma invenção de sentidos, tapetes vermelhos de realeza que nos permitem pavimentar em sonhos de conforto os buracos da estrada e caminhar eretos como os  "homo sapiens" (homens sábios) que nos orgulhamos de ser. Mas os buracos não nos abandonam só porque preferimos ignorá-los em nossas brincadeiras como "sua majestade, o bebê" (Freud), narcisistas compulsivos num mundo em que nos imaginamos  os eleitos, só nós, para espelhar a imagem e semelhança do bom Deus, dominando e dando nome a todas as coisas.  Malditos buracos. O câncer é um deles. 
E ele é tanto mais odioso para nossas expectativas de "sentido de vida" pelo absurdo de uma parte do corpo se rebelando demencialmente contra o próprio corpo, contra a lógica elementar da autopreservação, mesmo na flor da idade de crianças e adolescentes. Espantosa violência com que atenta à dignidade da pessoa humana. Também aterroriza por sua  imprevisibilidade, afora casos mais óbvios como o câncer de pulmão do fumante.
 A cantora Sheryl Crow resume bem essa perplexidade ao dar seu testemunho pessoal da luta para vencer, e antes disso, para aceitar, o câncer de mama: "Sempre achei que fosse autossuficiente, uma mulher do tipo que faz e acontece. Eu vivia em forma, tinha uma alimentação saudável, era adepta da meditação há anos. Ainda sou assim. No entanto, percebi que o câncer pode surpreender qualquer um e me dei conta de que ninguém controla a própria vida, mesmo que pense o contrário". Nossas ilusões de autossuficiência também ficam à mostra no ideário heroico do menino Augustus Waters, co-protagonista com Hazel Grace do drama de amor e morte entre os dois jovens pacientes terminais de câncer. Não só pela "metáfora" de Gus, o costume de pôr, mesmo nas suas condições de saúde fragílimas, um cigarro (!) na boca sem acendê-lo (gesto de "soberania" de se aproximar deliberadamente de uma arma letal e não lhe outorgar o poder de nos matar), mas também por sua vontade de escapar à morte ainda mais cruel que seria, para ele, cair no esquecimento, não ser "memorável". Destino inevitável, toma a palavra para replicar-lhe Hazel Grace , após o belíssimo "eye contact" com que dialogavam sem palavras no que, afora o encontro súbito, seria nada senão mais uma arrastada sessão do grupo de apoio cristão aos pequenos "isaacs" escolhidos pelo destino como vítimas sacrificiais de sua sanha incompreensível por sofrimento e morte. O desencontro entre o "coração de Jesus" da discurseira do líder do grupo e o afeto que nasce entre dois frágeis e intensos corações de carne mortal, é só um dos sintomas de que no livro de John Green, bem como na adaptação no filme de Josh Boone, os valores sagrados se divorciaram da religião institucional.
A "receita" para o sucesso de "A Culpa das Estrelas", seja o livro ou o filme (do qual falarei hoje), passa longe da mera exploração sensacionalista dos nossos medos mais recônditos e arcaicos em relação ao viver e ao morrer, parteiros psicológicos de crenças como a do destino, subjacentes ao simbolismo da "culpa das estrelas", os signos astrológicos, a vontade celestial, imperiosa, contra a qual nós mortais nada podemos fazer. As estrelas porém não são no filme apenas símbolo do destino aziago; o jovem casal aprende do chef do restaurante holandês que o descobridor do champanhe tivera com seu "invento" um prazer a ponto de dizer que estava saboreando as estrelas.  Vastidão dos sabores, da alegria de viver, que a champanhe também trará aos dois adolescentes na jornada romântica que estavam para consumar.
Choramos "A Culpa é das Estrelas" como os gregos choravam  suas tragédias: por terror, sim, mas também por piedade, e, mais que isso, por admiração pela grandeza dos heróis, no caso, a menina Hazel Grace (a graça), de 17 anos,  e seu namorado, de 18, Augustus Waters - sobrenome cuja semelhança fonética com "hours" é explorada na epígrafe do romance, sendo ambos, as águas e as horas, ali representadas como potências insolúveis de dissolução de todas as coisas, a vitória da Natureza contra todas as ficções, a não ser a do amor parteiro da ressurreição cíclica de tudo o que morre, nem que pela lembrança dos que ficam e amam o que se foi. Mesmo que logo chegue também a vez dos que haviam ficado partirem, mas a memória delas permanece nos que leram o "romance" de suas vidas, o incorporaram, o testemunham, enquanto estão, e se vão, e assim por diante.   Nuvens que passam e ressurgem no ciclo das águas e das horas.
O namoro que choramos de alegria e dor, enquanto dura e quando e porque termina, é entre a natureza, aparentemente cruel, sem sentido, indiferente às pessoas, como diz com intelecto agudo e sem resquício de coração o amargo escritor niilista que vomita (também como pai ferido pela perda da filhinha por leucemia, anos antes) "verdades" sobre o câncer no pobre casal de jovens que ele fez questão de desiludir (não sobre a vida, mas sobre ele, velho bebum amargo). Mas à desilusão com o motivo que lhes levara a viajar (conhecerem o autor do livro que foi um dos pretextos de sua empatia imediata, o ermitão que se escondera dos conterrâneos americanos na Holanda) se seguiu a inesquecível noite de amor, um sem perna, a outra com tubos de oxigênio no rosto, mas para além de estigmas, num reino puro de beleza tanto mais sagrada por vir coroar o que pra mim é a cena mais sensacional do filme, dessas de ir pra minha antologia cinéfila pessoal de todos os tempos, a visita de Hazel Grace e Augustus Waters à casa de Anne Frank, a menina símbolo da devastação irracional que foi o nazismo, câncer dos delírios políticos do século 20. 

Triste e encantadora a sincronicidade proposta entre o drama de Hazel, subindo as escadas íngremes da casa/ museu de Anne Frank em Amsterdã, com dificuldade para respirar, e prisioneira da "bola de ferro" , o cilindro de oxigênio, e a doçura e as palavras da menina  Anne  sobre sua fé, imorredoura em plena catástrofe que lhe dizia o contrário, e a esperança, a certeza da bondade profunda no coração dos homens, por mais que embrutecidos pela História, e o convite que ela faz a que a gente não perca de vista a beleza que insiste em nos fazer companhia por piores que sejam as adversidades. Peças de crença, peças de ficção, nem por isso inverídicas. Grave incompreensão considerar o fictício sinônimo de mentiroso. Abismo entre invenções que descobrem - a verdade oblíqua da condição humana, só passível de revelação na travessia do fantástico- e artificialidades que encobrem, como as historinhas românticas, água com açúcar, que Hazel, no início de sua espécie de "diário de Anne Frank", descarta em nome do romantismo bem mais radical e incrível que tinha para nos contar. 

Romantismo com as tinturas de tragédia, embelezando a ouro não só nossas lágrimas, mas os demorados abraços de casais ao final da sessão. Assim como, no filme, o aplauso a Hazel e Gus, no sótão de Anne incluía um casal gay -outro tipo de rótulo de moer gente na engrenagem da intolerância social- também vi, já com as luzes acesas e os créditos subindo, ao meu lado um casal gay, no melhor aplauso que podiam devotar ao filme que terminara como começara, com tão alta intensidade:em silêncio ou talvez sussurando o "ok" mais simples, desapegado e autêntico de Hazel e Gus, não o "always" ilusório do amigo Isaac, nome que remete ao sacrífício do próprio filho exigido por Deus ao patriarca da fé ocidental, Abraão, em episódio mítico de aparente crueldade absurda parteira de um símbolo da fé incondicional, de novo o par natureza e graça. A diferença contra a indiferença, a revolta no coração humana que, antes de paralisado de uma vez por todas pelas células do mal, nos faz, sabendo que a morte é certa, e que os deuses e a vida após a morte não, sorrir nosso amor por quem nos toca e a quem nos damos o direito de escolher o que nos fira, nem que pela sua partida, já que não sermos feridos, e não nos despedir, não podemos escolher.
-Unzuhause-