Monday, July 14, 2014

o sobrenatural na padoca


Não cheguei a chorar, mas como lamentei por ti, Argentina! Complicado entender a satisfação de ver os alemães campeões, o circo petralha encerrado entre vaias e a entrega constrangida da taça a quem o destroçou, mas estar intimamente triste por ti..  Minhas mãos ao alto, irritado a cada uma das chances perdidas por Messi e companhia, não me deixaram esconder de mim mesmo a identificação com os hermanos.  O resultado foi sim justíssimo, spinozamente geométrico na cadeia de causas que levavam a esse desfecho tão lògico como um xeque-mate. Previsível também que o jogo em si fosse como foi, truncado e chato, tenso, de dois coletivos bem azeitados, mas sem a rebelião do imprevisível, do imponderável, das razões do coração (mais para Pascal que para Spinoza) ou da improvisação sobrenatural que se esperaria de um, segundo muitos, "craque" como Messi, para mim apenas um bom jogador de nosso tempo, que só por razões do barulho espetaculoso de nosso tempo precisa ser nomeado -pelo e para o divertimento de nosso tempo- com as insígnias heroicas que gênios de outrora mereciam mais. Só por falta de imaginação, ou porque mesmos uniformes verbais são contratados a contragosto, e resmungando quando arrancados do armário, é possível se exaltar com os mesmos termos épicos um Maradona e um Messi. Nosso tempo não està para craques.

O problema com "nosso tempo", como mostra Mircea Eliade ao analisar a mentalidade mítica, é o seu déficit inevitável em relação à "Idade de Ouro" que projetamos no passado. Ou que cremos descobrir no exótico, caso dos europeus quando aportaram no "Novo Mundo" com o mesmo encanto com que se divertiram com nosso povo hospitaleiro neste mês de Copa. Aqui os navegantes do século XVI, fazendo a travessia de sua idade média em agonia para a adolescência da modernidade, dos `dezesseis`,  acharam paisagens, frutos, bichos e povos que se encaixavam nos seus próprios scripts bíblicos quanto a um "paraíso perdido" da infância remota- crença também dos próprios povos ditos primitivos, que se consideram, como todo bom melancólico, afastados da "Origem", tempo forte de presença dos "craques", deuses, heróis, ancestrais civilizadores, por vezes projetados no invasor que trazia doenças e saques, lição sobre falsas "salvações" que nossa mítica carência deve evitar. 
Precisa fugir dessa tentação, por exemplo,  meu Partido Resistencialista, inspirado que é nos tons sombrios de tango nostálgico do ensaio "A Resistência", do argentiníssimo (pra lembrar minha ferida de ontem) Ernesto Sabato. 
Uma alternativa para não nos fixarmos em mera teimosia ranzinza é sentir que nossos sonhos não são mero capricho solitário, estão disseminados na cultura. Há muitos outros "resistencialistas" entre nós, possivelmente calados, até porque são um partido de oposição num mundo em que o barulho insensato e burro é hegemonia. 
Tive um exemplo inesperado e sobrenaturalmente bom, nesse sentido, há pouco, na padaria aqui do lado de casa. Sentada próxima ao balcão do café, num momento de descanso entre os rigores do seu trabalho, e os do barrigão de seis meses de grávida,  a funcionária, de nome Gabriela, contou de sua má vontade de assistir televisão, quando lamentei com ela a perda do querido doutor Osmar de Oliveira, um dos poucos comentaristas que me encantavam pelo caráter e competência, afora o bom gosto de ser mais um membro no bando de loucos da Fiel. 
Gabriela, pelo testemunho pessoal, glosou, provavelmente sem ter lido, as ideias de Sabato sobre a ruína que o excesso de "televisão" traz para nossos espíritos já tão sobrecarregados pelo diuturno naufrágio na tempestade (de areia, sertaneja, na São Paulo atual) que é enfrentar a vida de trabalho e de convívio com massas serializadas (amorfas, de pessoas fechadas em si mas se empurrando umas às outras nos espaços apertados e  de águas escassas). Voltarei outra hora para desenvolver essas ideias tal como expostas por Sabato na bíblia de meu resistencialismo. Mas, como toda escritura sagrada, essas ideias se deixam ler sob a luz natural do texto do mundo, no convívio fraterno e alegria pela nobreza que descobrimos ao nosso lado numa conversa rápida de padoca, nos vestígios  com que resistimos, na prática, ao massacre do "nosso tempo", previsível e chocho, como a vida que recomeça hoje após a grande, mas meramente simbólica, por isso efêmera, confraternização mundial que se encerrou ontem no Maraca, numa prorrogacao que, conforme o irônico meme (desses tipicos de "depressao pos copa"), devemos agradecer tambem por ter adiado uns minutinhos a mais o domingão do faustão. 
 Os Messias são de outro mundo,  o que temos é mesmo um ou outro Messi esforçado, mas impotente diante da racionalidade férrea do poder do mais forte. Os sobrenaturais de almeida que habitam o espírito de um Nelson Rodrigues, e que sempre foram mais literários que literais,  parecem meio sem saco para nosso jogo profano, que na maior parte do tempo se desenrola previsível, truncado e chocho como a final de copa mundana de ontem. Não no ininterrupto barulho burro das massas, nem na melodia efêmera dos grandes espetáculos de encontro festivo da Humanidade que somos mas ignoramos. O caminho está neste silêncio, neste recato para a música da vida íntima de  "resistencialistas" como Gabriela, amiga da padoca, mamãe iminente, grávida, senão do Messias, ao menos de futuro que cada um de nós podemos ajudar a construir, ao mudarmos de canal e acendermos o som que toca dentro.
-Unzuhause-