Saturday, July 12, 2014

oratório místico


Dervixes durante o Sema, prática giratória que, introduzida pelo poeta Rumi, opera pelo corpo a alegria do retorno da criatura ao Criador. Istambul, Turquia

Coplas da Alma que anseia por ver a Deus
(São João da Cruz, trad. Dora Ferreira da Silva)


 Vivo sem viver em mim 
 e de tal maneira espero 
 que morro por não morrer. 

 1. Em meu eu não vivo já, 
 sem Deus não posso viver; 
 sem ele perco meu ser, 
 e este viver que será? 
 Mil mortes parecerá, 
 minha vida é este querer, 
 morrendo por não morrer. 
 2. Mas esta vida que eu vivo 
 é privação de viver 
 e assim continuo morrer 
 até que viva contigo. 
 Ouve meu Deus o que digo 
 a esta vida falta ser 
 que morro por não morrer. 

 3. Estando ausente de ti 
 que vida poderei ter 
 senão morte padecer 
 a maior que jamais vi? 
 Lástima tenho de mim 
 pois se assim permanecer 
 eu morro por não morrer. 

 4. O peixe que da água sai 
 de alívio nenhum carece, 
 pois na morte que padece 
 a morte por fim lhe vale. 
 Que morte há que se iguale 
 a meu viver sem socorro, 
 pois, se mais vivo, mais morro? 

 5. Quando penso me alegrar 
 ao ver-te no Sacramento 
 acresce-me o sentimento 
 de não poder te abraçar; 
 tudo é para mais penar, 
 por não ver-te no teu ser, 
 que morro por não morrer
6. E se me alegra, Senhor, 
 esta esperança de ver-te, 
 ao ver que posso perder-te 
 mais aumenta minha dor; 
 vivendo em grande pavor 
 nesta espera a padecer, 
 que morro por não morrer. 

 7. Tira-me, pois, desta morte, 
 meu Deus, e dá-me tua vida; 
 não me mantenhas tolhida 
 neste laço assim tão forte; 
 olha que peno por ver-te, 
 meu mal é todo meu ser, 
 que morro por não morrer. 

 8. Chorarei a morte já 
 lamentarei minha vida 
 sempre tão entretecida 
 a meus pecados está. 
 Ó meu Deus, quando será 
 que eu diga sem mais sofrer: 

 vivo já por não morrer?

Rachaduras luminosas do corpo de mármore

O Grande Momento
(por Cruz e Sousa)


Inicia-te, enfim, Alma imprevista,
Entra no seio dos Iniciados.
Esperam-te de luz maravilhados
Os Dons que vão te consagrar Artista.
Toda uma Esfera te deslumbra a vista,
Os ativos sentidos requintados.
Céus e mais céus e céus transfigurados
Abrem-te as portas da imortal Conquista.
Eis o grande Momento prodigioso
Para entrares sereno e majestoso
Num mundo estranho d’esplendor sidéreo.
Borboleta de sol, surge da lesma…
Oh! vai, entra na posse de ti mesma,
Quebra os selos augustos do Mistério!

Êxtase Búdico
(Cruz e Sousa)

Abre-me os braços, Solidão profunda,
Reverência do céu, solenidade
Dos astros, tenebrosa majestade,
Ó planetária comunhão fecunda!
Óleo da noite, sacrossanto, inunda
Todo o meu ser, dá-me essa castidade,
As azuis florescências da saudade,
Graça das Graças imortais oriunda!
As estrelas cativas no teu seio
Dão-me um tocante e fugitivo enleio,
Embalam-me na luz consoladora!
Abre-me os braços, Solidão radiante,
Funda, fenomenal e soluçante,
Larga e búdica Noite redentora!