Tuesday, July 01, 2014

paradoxo do palhaço


Sempre volto abastecido de boas inspirações pro pensar e pro viver quando posso comparecer à gravação dos programas do Flávio Gikovate na rádio CBN. E hoje as lições começaram antes, na fila do teatro da Livraria Cultura, ao escutar a conversa de um assistente do programa com o público que esperava para entrar no teatro. Ele falava de perrengues que às vezes passa com gente chata e mal-humorada nas filas de toda semana, gente que reclama se o sistema das senhas é assim ou assado, se o lugar que pegaram é esse ou aquele etc. Mas o que podia ser mais uma conversa genérica sobre como somos estressados etc se tornou peça de reflexão interessantíssima, dessas pepitas que a gente colhe com os ouvidos abertos às minas de alma veladas em nosso cotidiano, ou com as retinas sem miopia de ingratidão para aproveitar um lindo dia de sol de inverno como o de hoje.
O rapaz, traduzindo-o em palavras minhas, disse que por piores os constrangimentos e as durezas todas que todo emprego traz no envelope do seu salário,  não são bobagens assim que derrubam sua energia. Extrai sua força inclusive da rememoração das situações difíceis que já encarou. 
Ele vem da experiência de atuar como comediante, mais exatamente como palhaço. Me fez lembrar o "paradoxo do comediante" (teoria sobre o ator em geral) de Diderot ao dizer que, de um bom palhaço, se exige o despojamento radical a ponto de poder fazer rir mesmo quando por dentro o ator chora. Tem um filhinho de um ano e oito meses que esteve internado por um tempo em hospital, para onde o pai ia toda noite velar e dormir após mais uma jornada em que por dever de ofício havia feito rir filhos dos outros. 
Outro despojamento, por assim dizer zen-budista, penso eu,  de um palhaço, ele observou ao falar de outro desafio: superar os pudores do ridículo, estando de peito aberto, assim, para o que der e vier. Com a coragem para a loucura dos poucos escolhidos, dentre os muitos chamados, para a aliança com o (não) sentido invisível da vida a ser inventada e posta de pé, como a Arca de Noé segundo o poeta místico Rumi: "Não hesite diante de um projeto maluco, como o de Noé. Não fará nenhuma diferença o que as pessoas pensarem de você".
Quanta auto-estima é necessária para deixar de lado, em nome da arte, o senso limitativo de ridículo, observou acertadamente a senhorinha que escutava o gentil funcionário. Sim, auto-estima, mas não autorreferência narcísica, de gente que precisa se esconder na montagem obsessiva da  "melhor versão" possível de si mesmo para se vender a preço de amarelo ouro que não passa de amarelo baço de banana, escudo de baixo preço tingido de virtudes e arrogâncias "sérias" para não precisar expor e sustentar a dor de ser quem se é, mas só a delícia falsa do que se finge ser, ator canastrão na existência.
Melancólico amigo de Cioran, Dostoiévski, Schopenhauer, Buda e Cristo, tendo muito a ser sensível às dores do mundo, ao que a existência oferece de sofrimento, como estágio preliminar no aprendizado da gratidão. Essa propensão ao negativo, até como método para dissolver ilusões e futilidades,  não me priva da graça de tantas vezes gargalhar como um Bira do Jô Soares, tampouco a fé nas palavras com que Nietzsche, trágico da alegria, pessimista bacante do poder, denuncia a pseudotragédia dos exaustos de viver, que se arrastam sobre a muleta dos valores de fachada,  esses trapaceiros covardes -covardia, aliás foi o tema de abertura do programa de Gikovate, volto a isso depois:
"De momento, a comédia da existência ainda não se tornou 'consciente´de si mesma. De momento, continuamos a viver na era da tragédia, na qual imperam a moral e a religião". Admiravelmente concordante com isto é Oscar Wilde ao fuzilar os falastrões da vida burguesa, aqueles que Sartre em A Náusea chama de os sinistros "salauds", e que Wilde contempla com a distância sarcástica de seu dandismo: "A seriedade é o único refúgio dos medíocres".
-Unzuhause