terça-feira, julho 29, 2014

Rubem Alves vive


"O professor alto, magro, cadavérico, verde
entrega ao seu discípulo, sua imagem,
também alto, magro, cadavérico, verde, 
a prova final do saber, o diploma,
um feto morto, dentro do tubo de ensaio"
Não conhecia essa impressionante imagem, nem palavras, do grande pintor mexicano José Orozco,  grande muralista como Diego Rivera. Devo minha descoberta a mestre Rubem Alves, no livro "Por uma Teologia da Libertação", tese de doutorado em filosofia que defendeu em 1969 nos EUA. Pouco conhecida, ela  praticamente lançou o nome e o conceito que revolucionaria o pensamento teológico (católico e, no caso de Rubem, protestante) mundial ao mostrar que o evangelho de Jesus Cristo é relevante não só para a a Humanidade em geral, mas para o homem moderno que é afinal o que somos. Religião que nos religa ao reino dos céus que se soergue com mãos humanas no tempo e espaço das lutas mundanas.
 Cheio de ideias, mas falto de tempo e de vontade de compartilhar pérolas com alguns porcos dos quais farejo a visitação carente e o odor pesado ao redor do meu espaço, não sei se me dedico a comentar esta obra fundamental do mestre Rubem, que nos deixou semana passada, mas certamente seguirá vivíssimo entre nós, religado que está, agora de corpo e alma, com o espírito eterno, em vida após a morte oposta à vida morta de pseudointelectuais como os retratados nesta "formatura" de Orozco, diplomados no douto saber de porra nenhuma senão de traduções fake de sua própria escrotidão e de suas limitações pessoais e profissionais. Gente que é devota do preceito "acuse os outros de fazerem o que você faz, de serem o que você é", de Lênin, em aplicação política singular da sabedoria d' Aquele que ensinou que quem julga já por julgar está sendo julgado. Se autojulgando, como transparece a quem tem olhos atentos para além da capa boba dos gestos inócuos pra russo ver. 
Rubem também nisso é transgressor. Porque ele, no prefácio de 1987,  evoca a imagem de Orozco não para criticar os outros, mas, veja você, para se desculpar pela tese "chata" que defendera em 1969. Chata porque submissa aos cânones do discurso acadêmico comum. E chata por banalizar a própria teologia, que em comentário ao "ateísmo" de Feuerbach Rubem irá mostrar que não é uma fortaleza de tipo medieval que esconde o homem de seus pavores. A teologia é gesto de imaginação, flor frágil e ilusória, em si mesmo bela -quando não envenenada de rancores impotentes, que não ousam dizer o seu nome e suas traduções fake-, e que fala do mundo e do Criador como um jardim de cerejeiras, como os jacarandás de Buenos Aires, que o resistencialista Ernesto Sabato diz que deixamos de notar quando sequestrados pela tele-visão, não só a do aparelho televisor, mas de toda visão à distância (etimologia de televisão), de toda quimera de além que nos impeça de ver e celebrar o cristo do ínfimo, o rubem rubi deixado na calçada, a menina pérola, pérola moça, fruto do orvalho, que nos sorri de dentro da concha de onde brotou como evangelho de beleza e luz. Como disse um Rubem Alves de outras eras, o místico e poeta Angelus Silesius, "A pérola é gerada e dada à luz pelo orvalho dentro de uma concha. O orvalho é o Espírito divino, a pérola Jesus Cristo, a concha minha alma".
-Unzuhause-