domingo, julho 13, 2014

todo turismo é antropofágico

Painel Antropofagia, de Tarsila do Amaral

(vou reproduzir a polêmica politicamente incorreta em que me meti no facebook ontem, me servindo da linguagem ligeira e instantaneísta que costumo usar ali, e alguns acréscimos)
"todo turismo é sexual". já não lembro de quem li esta frase, mas ela me martela os ouvidos enquanto matuto a polêmica sobre a "dádiva" que a copa foi para a pegação amorosa, segundo matéria que eu citei ontem aqui. em tempos como o nosso de questionamento (saudável, se despido do espírito da vulgaridade, majoritária entre nós) dos tabus do moralismo, achei muito exagerado que (sempre ela) a famigerada maria do rosário viesse passar sermão de professora de colégio chata no luciano huck. o talento dela de encher o saco com esses sermões já se evidenciava na santa leniência que a consagrou como madre teresa de calcutá dos bandidos.literalmente uma freira no bordel.  quanto à matéria, ela traz depoimentos que, sem serem generalizáveis, é claro, me parecem de um teor psicológico interessante. não vêm denegrir o caráter de quem se interessou em conhecer gringos na copa (afinal, qual o problema disso? todo interesse que é sexual é tão excitante porque envolve viagem, espírito turístico de abertura ao "estrangeiro" de si mesmo, todo tesão é vontade de turismo, para inverter a frase citada no início). cá entre nós, se alguém deve se sentir provocado por uma brincadeira como a de huck, não são as brasileiras, mas os brasileiros: o que lhes falta, quando falta, para que tantas meninas vejam nos gringos parceiros ideais? o que faz deles, e não de nós, homens idealizados como portadores de um grau de educação e de autoridade pessoal, não para o turismo prostituto, mas para a "antropofagia" intercultural, tão exaltada pelos modernistas, que viam nossa identidade brasileira porosa e aberta ao estrangeiro, das mentes e corpos? . antes de passar de literal a literário, mas sempre se mantendo "sexual", o canibalismo já dos tempos arcaicos embutia uma homenagem implícita ao estrangeiro, uma admiração por suas energias. comer o estrangeiro como ritual de apropriação do melhor dele...  tampouco esse impulso antropofágico brasileiro é exclusivo de brasileiras em relação a gringos; eu mesmo me canso de explorar, em análise e na minha escritura, o fascínio pela Mulher arquetípica, universal, mas que fala "línguas" alheias à minha, gauchês, carioqueixxx, paranaês, pernambuquês, francês, castelhano etc etc
pra quem não leu a matéria: