sábado, setembro 27, 2014

Resenhas para a Folha, 27/ 09/2014


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
CAIO LIUDVIK

Edith Stein

A judia  Edith Stein sofreu na pele as agruras de um mundo de ódio que a impediu de fazer carreira acadêmica e a levou ao assassinato em Auschwitz. Discípula de Husserl, ela encetou sofisticada articulação entre a fenomenologia moderna e a escolástica de São Tomás de Aquino, como mostrado em duas obras a ela consagradas, "Pessoa Humana e Singularidade em Edith Stein", de Francesco Alfieri, e "A Antropologia de Edith Stein", de Mariana Bar Kusano.
 Ambas se destacam pela linguagem acessível, reforçada, no caso da obra de Alfieri, pelo excelente glossário, para o qual Kusano foi uma das colaboradoras. Ficam cristalinos os pilares do projeto steiniano de investigação. De um lado, aquilo que une a consciência e o mundo, segundo a lição husserliana da "intencionalidade" (a "vibração de nosso espaço interno, sempre voltado para e preenchido por objetos afetivos ou cognitivos que não a própria consciência).
De outro, o que nos singulariza, torna-nos "pessoas", faz-nos mais que redundantes espécimes da espécie humana ou cidadãos da cidade: o Eu profundo, núcleo de nosso ser e de nossas potencialidades, espécie de espaço monástico (monos, "uno") interno de não dispersão - que Stein conheceu intimamente ao se converter em monge carmelita, antes de precipitada ao sacrifício que a fez ser canonizada, décadas depois, como Santa Teresa Benedita da Cruz.
AVALIAÇÃO - ÓTIMOS

CORPO E SOCIEDADE
Sociólogo da Universidade Nacional de Cingapura, Bryan Turner apresenta densa, porém acessível, reflexão sobre a importância -que deveria ser óbvia- da "condição carnal" ou, em termo não sem ressonância teológica, da "encarnação" (embodiment) do homem. Sua ambição é, dessa perspectiva, contribuir a uma nova teoria da ação social. 
Levantando questões que vão dos direitos humanos ao impacto social e psicológico da longevidade cada vez maior do homem, da dança e sexualidade à religião, Turner apresenta seu livro como réplica a Foucault; nesse sentido, e de um viés mais próximo à fenomenologia (a vivência pessoal da encarnação como conteúdo de consciência), abre fogo contra o clichê acadêmico relativista (que, como todo clichê, se desenraíza do possível momento de verdade da ideia que banaliza) segundo o qual o corpo humano não passa de uma "construção social" . 
AVALIAÇÃO - ÓTIMO  

ALTÍSSIMA POBREZA
Dando prosseguimento à dimensão "teológica" de sua arqueologia, em sentido foucaultiano, das formas contemporâneas do poder,  Aganbem se volta aqui ao exame do fenômeno monástico entre os séculos 4 e 13. A liturgia eclesiástica, tema de seu "Opus Dei", é aqui investigada no esforço das "regras" monásticas, como a de São Bento, de plasmar a totalidade do "ora e labora" do monge numa coessencialidade entre forma e vida,  "vida que se relaciona tão proximamente à sua forma a ponto de dela resultar inseparável". Para além do estereótipo da Idades das Trevas como tempo de opressão, a perspectiva medieval seria  alternativa para uma vida liberta das amarras da lei e da primazia do economicismo -daí a importância estratégica que o filósofo italiano confere ao ideário de pobreza dos monges franciscanos, em sua tensão com a Cúria romana.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

terça-feira, setembro 09, 2014

o cão negro da depressão



Comentava com uma amiga esses dias sobre a ressonância que a palavra "depressão" exerce em mim desde muito: algo como uma contrapressão, reversão da pressão, "despressão", talvez. A Carol (interlocutora nessa conjectura) traduziu bem o que eu tentara articular: "consegui entender o que você disse....pensei numa panela de pressão!! nem conseguimos abrir quando ela está na pressão..o movimento é totalmente "positivo", ela está ali cozinhando...perigoso até explodir! Para abrir...para retirar o que foi cozido...despressão!"
 O vídeo acima, por sua vez,  amplia essa compreensão da depressão pelo  simbolismo do "cão negro", metáfora que um Churchill usava muito, a partir de sua experiência pessoal de depressivo. 
No Fausto de Goethe, o cão é o disfarce de Mefistófeles para se infiltrar na casa e na vida do herói vitimado pelo fastio de viver com seu excesso de saber e pouco amar. O poeta  Manuel Laranjeira, conterrâneo de Pessoa  -mestre tradutor de "O Corvo", de Poe,essa outra potente figuração do espírito depressivo-, mostra, a esse propósito,  como o desespero de viver resulta de um estado de  "consciência hipertrofiada" (nos termos do homem do subterrâneo de Dostoiévski) diante da qual a vida é um deserto tanto mais impiedoso quanto mais não se lhe acena, entre os camelos raquíticos que cruzam com o peregrino que anda em círculos, o mínimo oásis de auto-engano que seria a sorte (?) de amar. 
Não por acaso seu livo se chama "Comigo";  começa por convidar o leitor à introversão (retirada da libido dos objetos do mundo, reinvestindo-a em si mesmo), via  solilóquio: "Quando os outros não te entendem, fala contigo mesmo". O eu poético se dilacera, por um lado, entre versos schopenhauerianos de denúncia da miséria metafísica da existência: 
Pobre alma desiludida,
teu mal é não esquecer
que tudo falha na vida... 

Mas ouve, alma: pra viver
e ser feliz é preciso
fitar a mentira e crer,

como alguém que sem juízo
olha pra a terra e a vê
convertida em paraíso... 

Um coração que não crê
na mentira cegamente,
coração feliz não é.

Mas o que poderia ser simplesmente uma constatação intelectual sobre a vanidade (palavra sintomaticamente tão próxima de "vaidade") do mundo "em geral" mostra ser uma condição trágica impulsionada pela falta do vinho do amor, ou pela versão caricata do licor nupcial (tema "dionisíaco" do primeiro milagre de Cristo, na festa de casamento, a pedido da mãe Maria), isto é, o  vinagre dos torturadores que querem espicaçar a sede do Crucificado na árvore da vida e da morte. O poeta português confessa a tortura tão fáustica do intelectualismo ressequido pela frustração amorosa, convite à amizade canina da depressão:
"Ânsia de amar! oh ânsia de viver!
um'hora só que seja, mas vivida
e satisfeita... e pode-se morrer,
–porque se morre abençoando a vida!

Mas ess'hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura,
oh vida mentirosa, oh vida impura,
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!

E quantos como eu a desejaram!
e quantos como eu nunca tiveram
uma hora de amor como a sonharam!

Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram
esse sonho de amor incompreendido!"




O vídeo acima não pretende essas altitudes metafísicas e existenciais da depressão, focaliza suas agruras cotidianas, as sensações que ela acarreta de  vazio, lentidão, perda de apetite, desmotivação,  falta de auto-estima. É interessante como o vídeo aponta na contramão da falácia chique de psicanalistas que insistem em que o sujeito deve ser afastado da "demanda de terapia" e convidado a fazer uma "demanda de análise", concordando em "pagar para trabalhar" (pode essa mais-valia, Arnaldo e lacanianos esquerdistas?) em ruminações numa espécie de dark room, com a cara afundada na lata de lixo mental em que devemos renunciar ao desejo de colo, de nome para nossa dor, de caminhos de cura. Não; já o fato de um terapeuta (cuidador do Ser, no sentido original do termo) vir ao nosso socorro com o diagnóstico de nosso mal, ele nos ajuda a começar a superá-lo, até por nos tirar do isolamento em que nos achávamos, ante os outros, reduzidos a distância entre mim e o tamanho da tampa da garrafa de iogurte que ainda há pouco deixei cair da mão junto à geladeira.  
O "nós" dos analistas gosta de se diferenciar do "eles", os terapeutas, pelo orgulho também de não oferecer soluções genéricas. Ora, as soluções que o vídeo indica -medicação, se for o caso, exercícios, descanso, meditação, contato com a natureza- não são genéricas no sentido frouxo,de uma moral de rebanho sob as vestes de dicas de bem-estar psíquico; são, isso sim, universais à natureza humana, aos nossos "instintos", essa palavra embaraçosa para gente que não pode, em sua sofisticação linguística, tolerar a dimensão evidentemente biológica que o"Trieb" freudiano tem; precisam traduzi-lo nas complicações intelectualistas da "pulsion" parisiense de fugir das verdades simples da natureza em nós e ao nosso redor, para irritação e gaia revolta argelina de um Albert Camus. 
Não por acaso o lacaniano caricato repete de seu mestre o mantra de que "a angústia é o único afeto que não mente"; falta de sorte, como a de Laranjeira, em encontrar amigos sinceros em outros afetos igualmente verídicos da existência,   como a alegria, a fé, o senso de grandeza. Nunca fui tão "gordo e preguiçoso", como o cão negro do vídeo,e  paralisado de autipiedade, quanto no período em que tentei tratar de meus sufocos na forma de uma "demanda de análise" com a cara enfiada na lata de lixo e suspirando pela fragrância da vida, e vida em abundância, que advém de outra postura, a do amor fati por tudo e todos, pelo que se passa conosco, pelo que nos advém, mesmo que seja o cão negro da depressão que, como Mefistófeles, vem nos convidar a outros caminhos e outras árvores de vida, de frutos menos bichados, à sombra das quais descansar, rolar com o bichano, reaprender a sorrir, na fidelidade a si mesmo, e então sim se reerguer, fortalecidos pela convalescência sagrada em que Nietzsche aprendeu, nas dores do parto do super-homem, a redenção do eterno retorno no amor fati, amor ao destino.  
-Unzuhause-