Saturday, October 25, 2014

Resenhas para a Folha, 25/06/14


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de CAIO LIUDVIK
A ARTE DA NOVELA
Num feliz paradoxo da escritora Francine Prose, a arte de escrever não se ensina, mas se aprende. E que melhores professores do que os mestres do passado, pergunta, “generosos, não-críticos, abençoados com sabedoria e gênio, tão infinitamente magnânimos como só os mortos podem ser?”
Quatro dos títulos da coleção “A Arte da Novela”, da Grua Livros, funcionam como notável “sala de aula” para se ler como quem escreve, e se lapidar para escrever.
Escrever uma vida com alma. O pobre protagonista de “Bartleby, o Escrevente”, de Herman Melville, está na antípoda disso.  Com seu “prefiro não”, se recusa em ato -como muitos de nós apenas em pensamento-  a cumprir as ordens burocráticas do chefe, que é o narrador perplexo e fascinado a ponto de não conseguir demiti-lo, em “generosidade” igualmente surreal.  
Em “A Lição do Mestre”, Henry James ensina sobre as tensões entre o seu ofício e os “falsos deuses”, os atalhos e acomodações devido às quais um decadente escritor perdeu a mão para a grande arte.
Outros dois títulos são “A Briga dos Dois Ivans”, de Nikolai Gógol, e “Freya das Sete Ilhas”, de Joseph Conrad. Gógol, em narrativa satírica menos conhecida que “O Capote”,  comenta a condição humana pela ruptura por motivo banal de uma amizade de longa data. E Conrad evoca a mitologia nórdica (Freya é a deusa da beleza, da fertilidade e do amor) na descrição de uma jovem encantadora que ama um capitão e com ele defronta os obstáculos da hostilidade paterna e da inveja de um oficial holandês.  
AVALIAÇÃO - ÓTIMOS
Os ensinamentos da loucura
Não é novidade o interesse da psicanálise pela obra de Fiódor Dostoiévski. Freud via em "Os Irmãos Karamázov" uma das mais potente ilustrações literárias do complexo de Édipo. Já em "Os Ensinamentos da Loucura", Heitor O' Dwyer de Macedo enfoca “O Duplo”,  "Memórias do Subsolo" e "Crime e Castigo", aproximando os fantasmas do gênio russo à auto-análise freudiana, da qual emergiu a descoberta da fantasia como mundo próprio do inconsciente.  
Radicado na França, Meca dos lacanianos,  Macedo não se furta a diatribes contra essa escola que, no nível teórico,  se perde em abstrações lógicas satirizadas pelo homem do subsolo -que, em confronto com a psique viva, se recusa a reduzir a existência à ditadura do dois e dois são quatro. Também no nível prático, uma leitura superficial do homem do subsolo se limitaria a ver nele uma mera confirmação da sanha destrutiva  de psicanalistas que se dão por satisfeitos se convencerem seus clientes a abandonar os idealismos egoicos e se verem como "lixo".
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

Sunday, October 19, 2014

Saturday, October 18, 2014

os monstros do pântano



Em Os Pantanais da Alma,  o psicólogo junguiano James Hollis observa que o autoconhecimento e crescimento pessoal, via terapia, se distinguem da exigência social que hoje existe de que estejamos "felizes" o tempo todo. Não a felicidade, mas a sabedoria é a verdadeira meta. A sociedade do espetáculo nos cobra nunca estarmos tristes, a tristeza parece um atestado de fracasso, somos forçados  dançar o forró (for all) uniformizante da "empolgação" num mercado -ou farmácia- cujas anestesias (químicas ou não) nos empurram para fora do tempo, porque no tempo, diz o poeta, tristeza não tem fim, felicidade sim. Ou melhor, tristeza e felicidade são ambos estados fluidos, incertos, ilusórios como, para os fanáticos de um lado e de outro da atual corrida eleitoral, a angústia do rodamoinho de denúncias, perigos e dança dos números de uma pesquisa que bote um dia na liderança nosso  candidato e, noutro dia, o adversário.

 Kant propõe para a alma uma série de crenças, entre elas a de que há finalidade e liberdade pessoais, sem as quais tudo se reduziria a mecanismo cego e absurdo, e quem tem razão seriam os assassinos e corruptos de se locupletarem porque é tudo igual, entrar pra Cruz Vermelha ou levar vida de pinguço.
Uma crença junguiana básica sobre a natureza da alma é que tendemos a uma individuação que nos faz egos "des-mascarados" mas não desprotegidos (a máscara social era uma mentira que não deixava de proteger), ao contrário, mais fortes porque agora nosso respaldo vem de nossa verdade, vem do Self, luz e sombra para além do bem e do mal arbitrários e caprichosos da moral, da ideologia, da religião externa, da imbecilidade do rebanho humano. E para o Self, que os antigos chamavam de "alma", todo saber vem do sofrer. Nem todo, me corrijo. Só o mais importante. Os "pântanos da alma" (tradução melhor que pantanais, que no Brasil evocam região bem mais bela do que o autor tem em vista) são lugares de enfrentamento pessoal com o que a realidade tem de mais opressivo. Ansiedade, depressão, culpa, mágoa, luto e outros monstros, não porém de todo "desalmados", porque neles, ou na luta contra eles, há sementes para jardinar o pântano e reflorescer como um ser humano maior, mais pleno, menos manco (manquer - faltar), sem porém aquele pisar duro e indiferente ao solo gretado com que nós paulistanos, e todo aquele ego desenraizado da profundeza do Self, levamos nossa vida cada vez mais sem água e sem vida.

-Unzuhause-