Saturday, October 18, 2014

os monstros do pântano



Em Os Pantanais da Alma,  o psicólogo junguiano James Hollis observa que o autoconhecimento e crescimento pessoal, via terapia, se distinguem da exigência social que hoje existe de que estejamos "felizes" o tempo todo. Não a felicidade, mas a sabedoria é a verdadeira meta. A sociedade do espetáculo nos cobra nunca estarmos tristes, a tristeza parece um atestado de fracasso, somos forçados  dançar o forró (for all) uniformizante da "empolgação" num mercado -ou farmácia- cujas anestesias (químicas ou não) nos empurram para fora do tempo, porque no tempo, diz o poeta, tristeza não tem fim, felicidade sim. Ou melhor, tristeza e felicidade são ambos estados fluidos, incertos, ilusórios como, para os fanáticos de um lado e de outro da atual corrida eleitoral, a angústia do rodamoinho de denúncias, perigos e dança dos números de uma pesquisa que bote um dia na liderança nosso  candidato e, noutro dia, o adversário.

 Kant propõe para a alma uma série de crenças, entre elas a de que há finalidade e liberdade pessoais, sem as quais tudo se reduziria a mecanismo cego e absurdo, e quem tem razão seriam os assassinos e corruptos de se locupletarem porque é tudo igual, entrar pra Cruz Vermelha ou levar vida de pinguço.
Uma crença junguiana básica sobre a natureza da alma é que tendemos a uma individuação que nos faz egos "des-mascarados" mas não desprotegidos (a máscara social era uma mentira que não deixava de proteger), ao contrário, mais fortes porque agora nosso respaldo vem de nossa verdade, vem do Self, luz e sombra para além do bem e do mal arbitrários e caprichosos da moral, da ideologia, da religião externa, da imbecilidade do rebanho humano. E para o Self, que os antigos chamavam de "alma", todo saber vem do sofrer. Nem todo, me corrijo. Só o mais importante. Os "pântanos da alma" (tradução melhor que pantanais, que no Brasil evocam região bem mais bela do que o autor tem em vista) são lugares de enfrentamento pessoal com o que a realidade tem de mais opressivo. Ansiedade, depressão, culpa, mágoa, luto e outros monstros, não porém de todo "desalmados", porque neles, ou na luta contra eles, há sementes para jardinar o pântano e reflorescer como um ser humano maior, mais pleno, menos manco (manquer - faltar), sem porém aquele pisar duro e indiferente ao solo gretado com que nós paulistanos, e todo aquele ego desenraizado da profundeza do Self, levamos nossa vida cada vez mais sem água e sem vida.

-Unzuhause-