domingo, novembro 30, 2014

Resenhas para a Folha, 29/11/14


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos CAIO LIUDVIK

A AGONIA DOS PÁSSAROS
Crítico de rock e música pop, ex-vocalista da banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, Fernando Naporano publica seu primeiro livro de poesia –tem vários outros ainda inéditos. São versos impulsionados por um afeto primordial de saudade, ou como ele diz, “saudadeavestruz”, ardendo no fogo da terra, no piche fervente da angústia, seja pela  filha –em 2011, quando os escreveu, ele morava em Curitiba, ela em São Paulo-, seja no luto antecipado pela  cachorrinha, que agonizava de um câncer. Mas não apela para sentimentalismos estereotipados na maneira contundente e enxuta como transfigura  a dor pessoal em lamento e revolta metafísicas da condição humana em nossos desertos, dias desabitados, fortaleza da solidão.


AVALIAÇÃO - ÓTIMO 

O SILÊNCIO E A PROSA DO MUNDO
"Se a palavra que você vai pronunciar não é mais bela do que o silêncio, não a pronuncie". O preceito sufi é o ponto de partida de Adauto Novaes neste novo ciclo de conferências que organizou. Num mundo cada vez mais "interconectado" e tagarela, a palavra, que deveria ser sementeira de pensamento, ameaça soterrá-lo na vulgaridade dos discursos irrefletidos. Que o conflito entre silêncio e linguagem não é de hoje, fica porém claro em textos da coletânea como a da filósofa Olgária Matos, que a partir de Benjamin e Barthes recua à espiritualidade monástica, calcada no imperativo tríplice do "fuge, tasce, quiesce" (foge, cala, repousa). 
Romain Graziani  nos transporta ao Oriente de Confúcio e dos taoístas, para os quais o divino que pode ser falado já não é mais o divino. Quando a alma fala, não mais fala a alma é o preceito do romantismo alemão cuja categoria do "sublime" é alvo de primoroso ensaio de filosofia musical por Vladimir Safatle. Já Marcelo Coelho comenta o "fascínio" de intelectuais da atualidade por uma modalidade específica de arrancar o homem do silêncio: a tortura.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO



SABINA SPIELREIN
Sai, em edição crítica primorosa por Renata Udler Cromberg, o  primeiro volume das obras completas de uma genial e até pouco tempo ignorada protagonista na gênese da psicanálise. A russa Sabina Spielrein (1885-1942) foi uma jovem e fundamental paciente  de Carl Jung no mítico hospital suíço que revolucionava, na primeira década do século 20 a psiquiatria em diálogo com a psicanálise. 
O sucesso do tratamento a fez passar de grave vítima de histeria (senão de psicose) a uma analista talentosíssima, colaboradora direta de Freud em Viena e que lhe antecipou (em texto incluído no volume) o conceito de pulsão de morte. 
 Entre a ruína e o triunfo pessoal e profissional, o polêmico caso amoroso com Jung, e seus reflexos na ruptura dele com Freud, acrescentam intensidade a essa trajetória extraordinária, sustada  pelos nazistas que a fuzilaram juntamente com as filhas.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO 

NOSSA TERESA
O narrador, neste romance de estreia da poeta Micheliny Verunschk, nos exige “olhos que não pisquem em desatenção, o que não é muito para quem se propõe a conhecer a história de uma vida”. Mas nem precisaria –tão envolvente é a história- desse gesto de petulância, típico, diz, de todo aquele que conta um conto, “Deus a seu modo com suas onipotências, arrogâncias e vontades”. O livro narra a “vida e morte de uma santa suicida”, a adolescente e vidente Teresa. 
No seu forte tom iconoclástico contra o “Deus minotauro”, que, como o monstro grego,  se delicia com o sacrifício de jovens no patíbulo da hipocrisia e da crueldade,  o livro investe em paradoxos como o tabu religioso que pesa contra quem atenta contra a própria vida – isso como se o próprio cristianismo não estivesse calcado na memória de mártires “suicidas”, a começar do próprio fundador.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O HOMEM DIANTE DA MORTE
“Como sois insistentes, ó deusa cruel”, diz La Fontaine do poder tirânico de Tânatos, em uma das tantas referência s recolhidas neste estudo monumental de Phillipe Ariès sobre a história das percepções da morte pelo ao longo do processo  histórico de secularização e de afirmação da individualidade ocidental. 
Se a morte “insiste” em assombrar o imaginário humano, não o faz da mesma maneira desde a Idade Média, ponto de partida  do livro. A atitude “tradicional” com base na qual o moderno tabu e a ocultação em hospitais é contrastado é a da  exaltação medieval da bela morte, aquela que dá tempo ao moribundo de reunir parentes e amigos, testemunhar alguns de seus ritos funerários , como aliás vemos o adolescente com câncer terminal fazer no comovente best-seller   “A Culpa é das Estrelas”.
AVALIAÇÃO -ÓTIMO

O EFEITO ETNOGRÁFICO
O lançamento desta coletânea de ensaios da britânica Marilyn Strathern é causa de dupla alegria para a comunidade acadêmica brasileira em antropologia. Primeiro, pela ocasião de estreitar contato com uma das pesquisadoras mais densas e interessantes da atualidade. 
A autora de “O Gênero da Dádiva” conjuga de maneira original a tradição etnológica anglo-saxã e a crítica pós-modernista e feminista, com contribuições seja no campo melanésio, ou na descrição –prática privilegiada pelo “efeito etnográfico”- da sua própria sociedade, vide o ensaio sobre as relações de parentesco inglês ou a crítica ao individualismo tatcherista. 
Outra felicidade é atestar, pelos elogios e farta utilização do perspectivismo de Eduardo Viveiros de Castro, a inserção do Brasil no mapa da antropologia internacional não só como objeto de estudos, mas foro de produção teórica original.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO 


segunda-feira, novembro 17, 2014

fé, razão, Romeu e Julieta


Esta madrugada avançava em claro, como de hábito, mas excepcionalmente light, estando eu a distância segura do sofá de meus deleites intelectuais mais densos e de tirar o sono, como a recente travessia das quase mil páginas de uma biografia sensacional sobre Nietzsche. 
Deitado confortavelmente, assistia Bruno Mazzei sempre engraçado, e sempre no papel de Bruno Mazzei, no filme "E Aí, Comeu?". Mas a angústia é minha amante voraz e ciumenta, não aceitou ficar de fora da cama, e veio se insinuar com seus atrativos -tão irresistíveis pra meu romantismo melancólico quanto, na outra face da moeda da libido,  a contemplação da dona de uma minissaia provocante - quando a televisão avisou da mudança pré-programada para o canal em que começaria, dali a instantes, o filme "A Tentação", de Matthew Chapman.  Não resisti à tentação. 
O castigo não foi tanto o de dormir depois das quatro (antes das três quase nunca o sofá das leituras me dá refresco mesmo), quanto acordar ainda empapado das sensações "puxadas", por assim dizer, de uma longa noite de gozo, no sentido usual de deleite e no de Lacan, um  prazer psíquico pelo desprazer, doloroso fascínio de me deixar desviar (seduzir)  e reencontrar, pelo  filme,  com as duas faces típicas da minha libido, a que irradia tesão pela vida, aqui sob os traços encantadores de Liv Tyler, e a sombria, abismal, do drama em que sua personagem, a  enigmática Shana, se vê enredada com o seu vizinho de apartamento, em seguida também patrão e logo amante, o subgerente de hotel Gavin (Charlie Hunman). Logo no início o vemos no alto de um edifício, e literalmente na beira (por isso o título original, The Ledge) do suicídio. Era a exigência do marido de Shana,  Joe (Patrick Wilson), para não matá-la, depois de ter descoberto a traição. 
Não bastasse o aspecto sentimental, o drama -como é típico da grande obra de arte trágica- é inseparável da dimensão filosófico-religiosa. Joe é o típico fundamentalista evangélico norte-americano, "lavado, redimido e justificado" do mundo imundo, e dos pecados pregressos, pela fé fanática. É claramente o vilão da história -embora apresentado de uma maneira não estereotipada, e sim assustadoramente complexa, até excelente pela atuação de Wilson; seu antagonista, Gavin, encarna a visão antirreligiosa do diretor e roteirista. Tetraneto de Darwin, Matthew Chapman foi amigo desde as baladas juvenis do grande ensaísta Christopher Hitchens (morto em 2007), e fervoroso como ele na cruzada contra a direita religiosa dos EUA. 
O elo entre o conflito afetivo e o religioso é tão íntimo no filme que, no alto do edifício em que moram -não o do salto para a morte, mas para o amor-, Gavin consuma o primeiro beijo em Shana após diálogo comovente em que, deitados, contemplam as estrelas, e ele lhe fala que o júbilo de pertencer a algo maior que nós mesmos não precisa depender  de ilusões religiosas. O céu é grandioso mesmo que não haja nenhum pai eterno ou anjinhos ali escondidos a nos proteger, é poético em sua magnitude e em paradoxos como saber que o que vemos lá no alto é, pelo tempo que leva a viagem da luz pelo espaço sideral, não as estrelas, mas imagens dela, reflexos, lembranças póstumas de milênios atrás. Se houver algum ovni nos estudando a uma distância proporcional, por telescópio, nesse momento, a Terra a que estariam estariam  assistindo não seria a atual, mas quiçá a dos tetravôs dos dinossauros. Trata-se ipsis litteris do argumento de outro grande popstar do ateísmo contemporâneo, Richard Dawkins, no livro "A Magia da Realidade", de 2011, ano anterior ao do filme.
Somos evidentemente compelidos à simpatia pelas posições de Gavin, pela sua vitória junto a Shana contra os argumentos do marido tirano e intolerante. Também ajuda nesse sentido a  "hospitalidade" que, ecoando seu ofício, Gavin demonstra com as pessoas ao seu redor, em especial o amigo gay que acolheu em casa, e com quem se permite a discordância afetuosa -impossível no embate contra o fundamentalista- em relação às manias "new age" em que o amigo talvez encontre compensação imaginária para as agruras da discriminação social e da contaminação por HIV.
A generosidade de Gavin também terá papel fundamental para o desenlace de outro drama paralelo da história, a do policial Hollis (Terrence Howard), que não bastasse a tensão de tentar demovê-lo  de pular,  convivia com uma descoberta desconcertante, poucas horas antes: sempre foi estéril e portanto não tivera com a esposa os meninos que considerava seus filhos.   
Falava de Nietzsche no início. Elo indispensável da consciência ateia do Ocidente no seu arco  entre a geração de Darwin e a do seu tetraneto, o Anticristo não recomenda: "Quanto mais abstrata verdade que você ensina, tanto mais deverá seduzir os sentidos para ela"? O filme de Chapman cumpre à risca esse imperativo, se se tratava de fazer, por uma arrebatadora alegoria de amor e de morte, a propaganda de uma visão racional, desencantada do universo. Ou melhor, racional sim, desencantada jamais. Desmistificada das hipocrisias e intolerâncias em que os Joes camuflam dos outros e de si mesmos, por um tempo, sua crueldade e sua covardia. Mas reencantada pela "magia da realidade" de que fala Dawkins e pelo doloroso fascínio do amor destes Romeu e Julieta  do filme trágico e sublime que me impediu uma madrugada mais suave e me arrancou um pouco mais do sono dogmático que insiste em sonhar-se protegido por anjinhos atrás das estrelas. O que no mínimo torna mais exigente o desafio da fé, se quiser se diferenciar do fanatismo que é dela uma versão estúpida, a anos luz de um sentimento que, se outrora autêntico e capaz de ver algo do real, se degradou e morreu na retina corrompida do dogmatismo toupeira. 
-Unzuhause-    

sexta-feira, novembro 14, 2014

a travessia e abismo Pascal


Começou ontem no Centro Universitário Maria Antonia, da USP o curso "Existência e Ética em Pascal, Kierkegaard e Levinas". A ideia é discutir autores que,a seu tempo, se levantaram contra seu tempo, ou melhor, contra a hegemonia intelectual de certo tipo de racionalismo abstrato, por exemplo o de Descartes (alvo de Pascal) ou de Hegel (contestado por Kierkegaard). Se é verdade que a ética é a busca de valores humanos para além do interesse egoísta, isso não implica virar as costas para o homem de carne e osso, eu você, a pessoa concreta e singular, nas agonias e opacidades de uma existência que não se deixa jamais "explicar" teórica e dirigir praticamente (ética é uma disciplina do agir) do pedestal, torre de marfim ou biblioteca mofada dos presunçosos intelectuais. 
Sem recair no que hoje chamaríamos (e que muito me atrai) de revolta irracionalista, Pascal  (1623- 1662), tema da aula de ontem, entrou pros anais da auto-ajuda como o autor da frase de efeito "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Mas para além do clichê, o que essa frase transmite é o senso, tão atual, aliás, de que a ciência sem consciência, e a consciência sem afeto, não bastam, podemos nos servir dos instrumentos mais refinados do intelecto e da técnica e nem assim dotar de sentido -ético, em especial- este mundo que cada vez mais toma a forma de jaula de ferro profetizada por Max Weber na virada do século XX, que haveria supostamente de ser o ápice de felicidade, conforto e emancipação intelectual do homem liberto pela ciência das crendices do passado. 
Pois bem, Pascal, gênio da matemática, com grandes contribuições também para a física, a engenharia e tantos outros campos da incipiente razão moderna, nem por isso se curvou ao racionalismo, isto é, à ideologia da razão. Evocando a tradição cristã, mas num registro sem dúvida mais sombrio do que habitual nos clérigos e nos escolásticos, Pascal "humilha", chama de volta (sentido de sua "revolta") à humildade, o orgulho (hybris, diriam os trágicos gregos) humanista encarnado pelo absolutismo cartesiano da do sistema racional de saber, de certo modo uma réplica intelectual do absolutismo do Estado moderno que se emancipava das garras da religião. Se a por natureza compartilhamos da grandeza da Criação divina, nossa condição de seres  manchados pelo pecado de Adão e Eva (estranha presença e sedução dos velhos mitos no raciocinar filosófico) é a de uma miserabilidade lamentável. Grandeza e miséria do homem, caniço pensante de uma fragilidade constrangedora como a do grande filósofo -Pascal ama essas alegorias de nosso ridículo- que na imponência de seu gabinete de trabalho perde a mais básica concentração e elevação racional sob o infernal assédio do zumbido de uma mosca. E essa madrugada, eu em agonia por uma coceira particularmente vexatória, pelas partes íntimas que me atacava,  não terei provado, no chão da cama poucas horas depois dos ares profundos do espírito na aula de meu mestre Franklin,  dessa mesma ambiguidade pascaliana ?
Sem pretender aqui detalhar em sua riqueza a aula de Franklin (para minha honra, o orientador de meu mestrado e doutorado e tutor no pós-doc), queria destacar, entre outros pontos, a ênfase dele no fato de Pascal, ao se rebelar contra Descartes, nem por isso abdicar dos instrumentos conceituais e lógicos oferecidos pelo adversário. Não saía da órbita intelectual de seu tempo, era preciso entrar em diálogo, assimilá-lo com suficiente empatia e profundidade para ir mais longe.  Por isso o cuidado de Franklin em afastar de Pascal a pecha de irracionalista, embora mostre mais tolerância com a impressão de críticos marxistas de que o mestre jansenista já era "dialético", séculos antes de Hegel e Marx, em momentos brilhantes como aquele em que diz que o homem, sujeito a todas as agressões e meios de aniquilamento neste universo esmagadoramente hostil, todavia se conserva mais digno do que qualquer das armas cegas que o destrua, justamente por se saber finito e frágil. Nossa grandeza, aqui diretamente vinculada à consciência de nossa fraqueza, não como ideal abstrato que a escondesse de nós mesmos, não bastasse o Absoluto que nos chama (pela sensibilidade, sem "provas" possíveis da Sua existência) ser verdadeiramente o Deus obscuro, diz Pascal citando Isaías.
 Com efeito, o Deus de Pascal é o dos grandes profetas, santos, místicos e mártires da fé, o Deus do temor e tremor, insondável e avassalador, não o Deus dos filósofos, personagem meramente conceitual dos teoremas, "ideia" inata ou ideologia forjada e imposta à mente humana como em Descartes ou nos críticos ateus e psicólogos e sociólogos laicos da religião. 
Falei em recalque; o equivalente pascaliano desse termo consagrado do esperanto psicanalítico é divertissement. 
Mais que "diversão", embora a inclua, o conceito pascaliano aqui tem base militar, é diversionismo, como a manobra do general que ludibria o adversário fingindo que fará uma coisa enquanto se prepara para outra. Quem o homem do divertissement existencial quer enganar? Sobretudo a si mesmo, pois nada mais insuportável -eis outro aforismo célebre de Pascal- para o homem comum do que passar muito tempo a sós no silêncio para ele tedioso de seu quarto, fora do rebuliço do mundo, dos ruídos e cores das "diversões" todas daquele tempo, tão maiores em quantidade e em vulgaridade hoje em dia.
Outra "dialética" possível de se entrever em Pascal está em sua tipologia do espírito de fineza e do espírito de geometria. Prefigurando um William James ou mesmo Jung, mostra a dicotomia entre introversão e extroversão, intelecto e intuição, "aposta" (termo de riquíssimo significado para a experiência de fé em Pascal, não esmiuçada por Franklin ontem) e raciocínio demonstrativo, cujas primeiras premissas tentem sempre a não serem demonstráveis, a serem questão de "gosto", de temperamento pessoal. 
Animal ainda não determinado, diria o tão "pascaliano" Nietzsche, o homem é chamado por pensadores desta profundeza, os "abismais", a um encontro face a face consigo mesmo, no espelho do seu dilaceramento, imperfeição e nudez, parando com a farsa de se fingir de rei num universo que faz dele tão-somente testemunha efêmera da Grandeza que, ela sim, é absoluta mas não nos pertence. Por que -outro  petardo pascaliano- um rei é tão rodeado de gente a lhe fazer a corte? Para que não se veja como é. Pascal: de nome próprio a adjetivo da paixão de Cristo, paixão de cada um de nós, na travessia da existência com a bússola da fé e do afeto em sendas éticas de mais autenticidade do que a mera vestimenta dos códigos morais convencionais e arbitrários que fazem de um assassino de compatriota francês um criminoso, mas de um assassino francês do soldado espanhol um herói. A travessia pascal é árdua, íngreme, mas recompensadora, ética, em sentido grandioso e humilde,  na companhia de amigos críticos da índole de um Pascal. 
-Unzuhause-

sábado, novembro 08, 2014

o rugir da essência do homem doméstico


Menin aiede, the, Peleiadeo Achileos
Ouloumenem, he myri Achaiois alge eteke

A ira canta, ó deusa, do filho de Peleu, Aquiles,
a ira portadora de desgraça, que mil sofrimentos aos Aqueus
Criou e muitas imponentes almas para baixo até o Hades arrojou

O filósofo alemão Peter Sloterdjik nos lembra que o verso de abertura da Ilíada, ela própria obra fundante da tradição ocidental, tem por palavra de alvorada a ira. Começo do começo do começo, a paixão iracunda é o equivalente afetivo à guerra e violência objetivas que tingem de sangue e de seiva, de vida e de morte, a todas as coisas, ao Caos e ao Cosmos e a miniatura deles que chamamos e vivemos, vaidosos protagonistas de nossas quimeras, pomposamente de "História".  O Antigo Testamento, que Nietzsche elogia e prefere ao Evangelho cristão dos "minguados animais domésticos" e seu Deus amoroso e bonzinho, é repleto de momentos de ira seja de Deus ou de seus profetas; o salmista podia ser franco o bastante com suas pulsões bélicas ao compartilhar de sua espera, com língua em estado de apetite, pelo dia em que o justo banhará seus pés no sangue dos pecadores ( Sl 58, 11). Na luta pela sobrevivência entre espécies e indivíduos, homens ou formigas, o "pega pra capar" é um instinto e uma necessidade que humilham nossas risíveis projeções "fofinhas" que querem fazer da Terra um paraíso de golfinhos sorridentes e cachorrinhos fiéis. 
Essas verdades inconvenientes estão entre os ingredientes da delícia de assistir aos  "Relatos Selvagens", do argentino Damián Szifron. Com co-produção de Pedro Almodóvar, o filme expõe com incrível fluidez narrativa, humor negro e capacidade envolvente seis pequenas esquetes sobre personagens que perdem o controle dos nervos, renunciam ao pacto de repressão universal e internalização individual do instinto cruel dos minguados animais domésticos que a civilização moderna faz de nós. Nesse pacto, transferimos todos, para nossa segurança, o monopólio da violência legítima para uma só esfera, a do Estado; o filme mostra o quanto hoje se difunde a consciência de que "vândalo é o Estado", como li outro dia na camiseta de uma aguerrida militante, modos rijos, cabelo joãozinho, que por acaso dividia comigo uma mesa no Centro Cultural São Paulo. Cada vez mais desconfiados, senão mesmo fartos uns dos outros, no trânsito, nas filas, na briga por emprego, no stress do trabalho, não temos um Estado ao qual dirigir o olhar aliviado do "ufa, pelo menos nessa força superior posso confiar". Falta água, falta segurança, falta decência, ninguém nos representa. Nossa pulsão também não se representa, cai no esquecimento pela ausência de uma imagem ressonante o bastante que lhe honre.
 As imagens do filme nos honram. Nos despertam, ainda que em fagulhas e ruídos de anamnese de nossa essência frustrada e ferida. A ira vira fio condutor do emergir da verdade. Em duas de suas histórias, a corrupção é desmascarada não como aberração, mas modus operandi do Estado, da sociedade, de nossas almas corrompidas; do magnata ao caseiro, não há valores acima dos interesses imediatos, tudo se compra e se vende, fidelidade conjugal é um teatro bisonho, mas nem por isso amamos a nossa individualidade, a liberdade não parece valer grande coisa - veja a cozinheira que desabafa que isso aqui (a vida fora do presídio) é uma merda, que se sentia muito mais livre quando prisioneira; veja o engenheiro bombita, suas humilhações antes da aclamação geral atrás das grades.
O filme não faz uma apologia irresponsável da violência, o que fica evidente no patético da guerra primitiva entre o rico do carrão novo e o gorila (de pele clara, mas "escura" o bastante para o insulto racial) da charanga com adesivo "paris dacar". Mas mostra, por outro lado, o que a ira tem de potencialmente "terapêutica"  quando nos arranca da hipocrisia, do delírio esfuziante de ritos de casamento que abafam na ostentação de alegria e luxo o vazio e a suspeita íntimas. A ira como desacato a uma vida lesada pela frieza e pela mentira pode ser a via paradoxal de, no extremo oposto do amor, tocar os pés no chão da piscina que parecia sem fundo e adquirir impulso  para voltar a respirar. 
Quantos outros atrativos espetaculares, num filme que -quase regra da excelência do cinema argentino atual- se dá ao luxo de contar com um Ricardo Darín , mas vai bem além dele. Érica Rivas no transe das grandes performances.  Julieta Zylberberg, simplesmente minha nova paixão cinematográfica, avatar de minha Anima ideal na telona, Beatriz delicada e selvagem, rosto de meu impulso, o de com os dedos do pé ascender desde o  fundo da piscina dantesca, suportar uma sociedade corrompida como esta, aliviado ao menos de saber que meu nariz não é feito pra isso, a angústia o mostra, e que neste mar de lodo não se respira, e lutar por respirar o ar da superfície, melhor ainda, o vento montanhês que nos brinda não quando escondemos de nós mesmos, minguados animais domésticos, o bestial, mas quando afirmamos, com ele e para além dele, também o angelical. 
-Unzuhause-

segunda-feira, novembro 03, 2014

um sonho com Paulo Arantes


Tive um verdadeiro sonho de crioulo-filósofo doido, esta madrugada: Paulo Arantes, uspiano marxista, destaque,  com Vladimir Safatle, entre os pensadores da geração junho de 2013,  em serena conversa professoral comigo; me indica livros, mas não os que seriam previsíveis no caso dele, um Marx, Zizek ou Badiou. Não!  Nada mais nada menos que Auguste Comte, pai do positivismo, autor do imperativo "ordem e progresso" de nossa bandeira, conservador idolatrado por nosso exército. Mais curioso ainda, Paulo, no sonho, fala de Comte como fundador de certo "queremismo" (sim, o termo consagrado pelos defensores de Vargas, arquirrival de meu atual xodó nos estudos políticos nacionais, Carlos Lacerda). mas no vocabulário do meu spiritus rector onírico, queremismo seria coisa distinta, algo assim como as ideologias do Querer, que "viriam a desaguar", segundo a torta cronologia esquisita do enredo, na filosofia de Schopenhauer, irracionalista nas antípodas da religião comteana da razão. Meo Dels! rssss Esse borbulhar de razão e irrazão, direita e esquerda, Vargas e Lacerda, ordem e caos, progresso e retrocesso, moções em batalha dentro de mim, precisa de um bruxo como  Jung para ser pilotado e  cuidado como caldeirão e vassourinha (affe, aqui introduzo Jânio, outro fetiche de meus estudos sobre o populismo de direita) que seja firme para o limpar e leve para o voar :)
-Unzuhause-