sexta-feira, novembro 14, 2014

a travessia e abismo Pascal


Começou ontem no Centro Universitário Maria Antonia, da USP o curso "Existência e Ética em Pascal, Kierkegaard e Levinas". A ideia é discutir autores que,a seu tempo, se levantaram contra seu tempo, ou melhor, contra a hegemonia intelectual de certo tipo de racionalismo abstrato, por exemplo o de Descartes (alvo de Pascal) ou de Hegel (contestado por Kierkegaard). Se é verdade que a ética é a busca de valores humanos para além do interesse egoísta, isso não implica virar as costas para o homem de carne e osso, eu você, a pessoa concreta e singular, nas agonias e opacidades de uma existência que não se deixa jamais "explicar" teórica e dirigir praticamente (ética é uma disciplina do agir) do pedestal, torre de marfim ou biblioteca mofada dos presunçosos intelectuais. 
Sem recair no que hoje chamaríamos (e que muito me atrai) de revolta irracionalista, Pascal  (1623- 1662), tema da aula de ontem, entrou pros anais da auto-ajuda como o autor da frase de efeito "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Mas para além do clichê, o que essa frase transmite é o senso, tão atual, aliás, de que a ciência sem consciência, e a consciência sem afeto, não bastam, podemos nos servir dos instrumentos mais refinados do intelecto e da técnica e nem assim dotar de sentido -ético, em especial- este mundo que cada vez mais toma a forma de jaula de ferro profetizada por Max Weber na virada do século XX, que haveria supostamente de ser o ápice de felicidade, conforto e emancipação intelectual do homem liberto pela ciência das crendices do passado. 
Pois bem, Pascal, gênio da matemática, com grandes contribuições também para a física, a engenharia e tantos outros campos da incipiente razão moderna, nem por isso se curvou ao racionalismo, isto é, à ideologia da razão. Evocando a tradição cristã, mas num registro sem dúvida mais sombrio do que habitual nos clérigos e nos escolásticos, Pascal "humilha", chama de volta (sentido de sua "revolta") à humildade, o orgulho (hybris, diriam os trágicos gregos) humanista encarnado pelo absolutismo cartesiano da do sistema racional de saber, de certo modo uma réplica intelectual do absolutismo do Estado moderno que se emancipava das garras da religião. Se a por natureza compartilhamos da grandeza da Criação divina, nossa condição de seres  manchados pelo pecado de Adão e Eva (estranha presença e sedução dos velhos mitos no raciocinar filosófico) é a de uma miserabilidade lamentável. Grandeza e miséria do homem, caniço pensante de uma fragilidade constrangedora como a do grande filósofo -Pascal ama essas alegorias de nosso ridículo- que na imponência de seu gabinete de trabalho perde a mais básica concentração e elevação racional sob o infernal assédio do zumbido de uma mosca. E essa madrugada, eu em agonia por uma coceira particularmente vexatória, pelas partes íntimas que me atacava,  não terei provado, no chão da cama poucas horas depois dos ares profundos do espírito na aula de meu mestre Franklin,  dessa mesma ambiguidade pascaliana ?
Sem pretender aqui detalhar em sua riqueza a aula de Franklin (para minha honra, o orientador de meu mestrado e doutorado e tutor no pós-doc), queria destacar, entre outros pontos, a ênfase dele no fato de Pascal, ao se rebelar contra Descartes, nem por isso abdicar dos instrumentos conceituais e lógicos oferecidos pelo adversário. Não saía da órbita intelectual de seu tempo, era preciso entrar em diálogo, assimilá-lo com suficiente empatia e profundidade para ir mais longe.  Por isso o cuidado de Franklin em afastar de Pascal a pecha de irracionalista, embora mostre mais tolerância com a impressão de críticos marxistas de que o mestre jansenista já era "dialético", séculos antes de Hegel e Marx, em momentos brilhantes como aquele em que diz que o homem, sujeito a todas as agressões e meios de aniquilamento neste universo esmagadoramente hostil, todavia se conserva mais digno do que qualquer das armas cegas que o destrua, justamente por se saber finito e frágil. Nossa grandeza, aqui diretamente vinculada à consciência de nossa fraqueza, não como ideal abstrato que a escondesse de nós mesmos, não bastasse o Absoluto que nos chama (pela sensibilidade, sem "provas" possíveis da Sua existência) ser verdadeiramente o Deus obscuro, diz Pascal citando Isaías.
 Com efeito, o Deus de Pascal é o dos grandes profetas, santos, místicos e mártires da fé, o Deus do temor e tremor, insondável e avassalador, não o Deus dos filósofos, personagem meramente conceitual dos teoremas, "ideia" inata ou ideologia forjada e imposta à mente humana como em Descartes ou nos críticos ateus e psicólogos e sociólogos laicos da religião. 
Falei em recalque; o equivalente pascaliano desse termo consagrado do esperanto psicanalítico é divertissement. 
Mais que "diversão", embora a inclua, o conceito pascaliano aqui tem base militar, é diversionismo, como a manobra do general que ludibria o adversário fingindo que fará uma coisa enquanto se prepara para outra. Quem o homem do divertissement existencial quer enganar? Sobretudo a si mesmo, pois nada mais insuportável -eis outro aforismo célebre de Pascal- para o homem comum do que passar muito tempo a sós no silêncio para ele tedioso de seu quarto, fora do rebuliço do mundo, dos ruídos e cores das "diversões" todas daquele tempo, tão maiores em quantidade e em vulgaridade hoje em dia.
Outra "dialética" possível de se entrever em Pascal está em sua tipologia do espírito de fineza e do espírito de geometria. Prefigurando um William James ou mesmo Jung, mostra a dicotomia entre introversão e extroversão, intelecto e intuição, "aposta" (termo de riquíssimo significado para a experiência de fé em Pascal, não esmiuçada por Franklin ontem) e raciocínio demonstrativo, cujas primeiras premissas tentem sempre a não serem demonstráveis, a serem questão de "gosto", de temperamento pessoal. 
Animal ainda não determinado, diria o tão "pascaliano" Nietzsche, o homem é chamado por pensadores desta profundeza, os "abismais", a um encontro face a face consigo mesmo, no espelho do seu dilaceramento, imperfeição e nudez, parando com a farsa de se fingir de rei num universo que faz dele tão-somente testemunha efêmera da Grandeza que, ela sim, é absoluta mas não nos pertence. Por que -outro  petardo pascaliano- um rei é tão rodeado de gente a lhe fazer a corte? Para que não se veja como é. Pascal: de nome próprio a adjetivo da paixão de Cristo, paixão de cada um de nós, na travessia da existência com a bússola da fé e do afeto em sendas éticas de mais autenticidade do que a mera vestimenta dos códigos morais convencionais e arbitrários que fazem de um assassino de compatriota francês um criminoso, mas de um assassino francês do soldado espanhol um herói. A travessia pascal é árdua, íngreme, mas recompensadora, ética, em sentido grandioso e humilde,  na companhia de amigos críticos da índole de um Pascal. 
-Unzuhause-