Friday, November 07, 2014

o rugir da essência do homem doméstico


Menin aiede, the, Peleiadeo Achileos
Ouloumenem, he myri Achaiois alge eteke

A ira canta, ó deusa, do filho de Peleu, Aquiles,
a ira portadora de desgraça, que mil sofrimentos aos Aqueus
Criou e muitas imponentes almas para baixo até o Hades arrojou

O filósofo alemão Peter Sloterdjik nos lembra que o verso de abertura da Ilíada, ela própria obra fundante da tradição ocidental, tem por palavra de alvorada a ira. Começo do começo do começo, a paixão iracunda é o equivalente afetivo à guerra e violência objetivas que tingem de sangue e de seiva, de vida e de morte, a todas as coisas, ao Caos e ao Cosmos e a miniatura deles que chamamos e vivemos, vaidosos protagonistas de nossas quimeras, pomposamente de "História".  O Antigo Testamento, que Nietzsche elogia e prefere ao Evangelho cristão dos "minguados animais domésticos" e seu Deus amoroso e bonzinho, é repleto de momentos de ira seja de Deus ou de seus profetas; o salmista podia ser franco o bastante com suas pulsões bélicas ao compartilhar de sua espera, com língua em estado de apetite, pelo dia em que o justo banhará seus pés no sangue dos pecadores ( Sl 58, 11). Na luta pela sobrevivência entre espécies e indivíduos, homens ou formigas, o "pega pra capar" é um instinto e uma necessidade que humilham nossas risíveis projeções "fofinhas" que querem fazer da Terra um paraíso de golfinhos sorridentes e cachorrinhos fiéis. 
Essas verdades inconvenientes estão entre os ingredientes da delícia de assistir aos  "Relatos Selvagens", do argentino Damián Szifron. Com co-produção de Pedro Almodóvar, o filme expõe com incrível fluidez narrativa, humor negro e capacidade envolvente seis pequenas esquetes sobre personagens que perdem o controle dos nervos, renunciam ao pacto de repressão universal e internalização individual do instinto cruel dos minguados animais domésticos que a civilização moderna faz de nós. Nesse pacto, transferimos todos, para nossa segurança, o monopólio da violência legítima para uma só esfera, a do Estado; o filme mostra o quanto hoje se difunde a consciência de que "vândalo é o Estado", como li outro dia na camiseta de uma aguerrida militante, modos rijos, cabelo joãozinho, que por acaso dividia comigo uma mesa no Centro Cultural São Paulo. Cada vez mais desconfiados, senão mesmo fartos uns dos outros, no trânsito, nas filas, na briga por emprego, no stress do trabalho, não temos um Estado ao qual dirigir o olhar aliviado do "ufa, pelo menos nessa força superior posso confiar". Falta água, falta segurança, falta decência, ninguém nos representa. Nossa pulsão também não se representa, cai no esquecimento pela ausência de uma imagem ressonante o bastante que lhe honre.
 As imagens do filme nos honram. Nos despertam, ainda que em fagulhas e ruídos de anamnese de nossa essência frustrada e ferida. A ira vira fio condutor do emergir da verdade. Em duas de suas histórias, a corrupção é desmascarada não como aberração, mas modus operandi do Estado, da sociedade, de nossas almas corrompidas; do magnata ao caseiro, não há valores acima dos interesses imediatos, tudo se compra e se vende, fidelidade conjugal é um teatro bisonho, mas nem por isso amamos a nossa individualidade, a liberdade não parece valer grande coisa - veja a cozinheira que desabafa que isso aqui (a vida fora do presídio) é uma merda, que se sentia muito mais livre quando prisioneira; veja o engenheiro bombita, suas humilhações antes da aclamação geral atrás das grades.
O filme não faz uma apologia irresponsável da violência, o que fica evidente no patético da guerra primitiva entre o rico do carrão novo e o gorila (de pele clara, mas "escura" o bastante para o insulto racial) da charanga com adesivo "paris dacar". Mas mostra, por outro lado, o que a ira tem de potencialmente "terapêutica"  quando nos arranca da hipocrisia, do delírio esfuziante de ritos de casamento que abafam na ostentação de alegria e luxo o vazio e a suspeita íntimas. A ira como desacato a uma vida lesada pela frieza e pela mentira pode ser a via paradoxal de, no extremo oposto do amor, tocar os pés no chão da piscina que parecia sem fundo e adquirir impulso  para voltar a respirar. 
Quantos outros atrativos espetaculares, num filme que -quase regra da excelência do cinema argentino atual- se dá ao luxo de contar com um Ricardo Darín , mas vai bem além dele. Érica Rivas no transe das grandes performances.  Julieta Zylberberg, simplesmente minha nova paixão cinematográfica, avatar de minha Anima ideal na telona, Beatriz delicada e selvagem, rosto de meu impulso, o de com os dedos do pé ascender desde o  fundo da piscina dantesca, suportar uma sociedade corrompida como esta, aliviado ao menos de saber que meu nariz não é feito pra isso, a angústia o mostra, e que neste mar de lodo não se respira, e lutar por respirar o ar da superfície, melhor ainda, o vento montanhês que nos brinda não quando escondemos de nós mesmos, minguados animais domésticos, o bestial, mas quando afirmamos, com ele e para além dele, também o angelical. 
-Unzuhause-