Thursday, December 31, 2015

o despertar dos neurônios


Ah, se cada fogo de artifício de cada imbecil que passa a noite comunicando ao céu e à terra sua "alegria" fosse um neurônio se acendendo na treva, decidido a fazer do seu hospedeiro um ser novo para o ano novo.Mas se fosse o neurônio despertando, não seriam os fogos estourando (nosso saco).

Wednesday, December 30, 2015

"Macbeth - Ambição e Guerra"


Dois MONSTROS em cena, Fassbender e Marion Cotillard,em "Macbeth - Ambição e Guerra", pra minha despedida das telonas em 2015, na tarde deste dia 30, e pra me recordar que nem tudo que é "monstruoso" na història è sinônimo de obra do capeta, ao contrário do que o próprio Macbeth veio a acreditar, em profissão de fè diabòlica que é mais retrato DELE, de sua alma autocondenada quando optou pelo Mal, simbolizado no assassinato do bom rei Duncan: 
”A vida nada mais é do que uma sombra, um pobre ator que se pavoneia no palco, e então não é mais ouvido. É uma estória contada por um idiota, cheia de som e fúria, que significa nada”.
Macbeth FEZ a historia, digo, sua história, ser como a definiu aqui. Na falta de uma natureza humana fechada como a das andorinhas e jacarés, cada indivíduo e época moldam uma VERSÃO do que seria esta natureza que não há, que é "segunda natureza", quando surge a cultura. E moldamos essa suposta essência em função dos valores que imprimimos à nossa existência. Por isso Sartre dizia que "a existência precede a essência". Seu próprio universo de referência é de uma laicidade ainda mais radical do que a do tempo de Shakespeare; este é saturado de uma sacralidade ainda que em colapso, aberta para o futuro (a "morte de Deus") e para o passado remoto, o mundo da magia, figurado pelas três bruxas que anunciam ao heroico general que ele viria a ser o novo rei da Escócia. 

As bruxas porém não ordenavam, nem viam como inscrito no destino, que a tomada do poder fosse como foi, pelo regicídio. Foi nessa brecha que certo "livre arbítrio", impulsionado pelas provocações de Lady Macbeth, se impôs (com o que haja de paradoxal nesta "imposição" de que temos de ser livres). A decisão de matar, de romper a lealdade de súdito, guerreiro e parente próximo do rei, foi a "desmedida" trágica com que o herói interpretou e deliberou, diferentemente (e esse é um signo da secularização) de um Orestes ou um Édipo na tragédia grega. Mais alguns séculos, e o herói da vida moderna se definiria pela completa REVOLTA, pela insurgência CONTRA o que quer que se pretenda representante de vontades transcendentes, que para nós perderam a pureza, a confiabilidade de outrora, se reduzindo a ópio ideológico (Marx), vontade de poder (Nietzsche), delírio (Freud) ou má-fé (Sartre).  
Para além do mérito intrínseco de um e outro desses dispositivos de desmistificação do mítico, Shakespeare, operando em fronteiras mais ambíguas, nos deixou um alerta que é fundamental para policiarmos nossos ISSO NADA MAIS È QUE, nossas declarações de fè generalistas; por mais que, sim, o pessimismo de Macbeth tenha um apelo quase irresistível se considerarmos a vida com a seriedade devida, melhor não abrir mão da prudência cética e, como aliás o próprio Nietzsche recomenda, ver nas filosofias sobretudo confissões, como termômetros da saùde de nossa pròpria consciência, de sua fidelidade ou não à nobreza que Macbeth deixou ser esmagada pela ambição desmedida.

adeus, ano velho

Um Velho
-Konstantinos Kaváfis, trad. José Paulo Paes-
No meio do café ruidoso, sem ninguém,
por companhia, está sentado um velho. Tem
à frente um jornal e se inclina sobre a mesa.

Imerso na velhice aviltada e sombria,
pensa quão pouco desfrutou as alegrias
dos anos de vigor, eloquência, beleza.
Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece.
No entanto, o seu tempo de moço lhe parece
ser ainda ontem: faz tão pouco, faz tão pouco…
Medita no quanto a Prudência dele rira;
em como acreditara sempre na mentira
do “Deixa para amanhã. Há tempo.” Que louco!
Pensa nos ímpetos que teve de conter,
nas alegrias frustras por seu tolo saber,
que cada ocasião perdida agora escarnece.
Porém, tanto pensar, tanta recordação,
põem o velho confuso, e sobre a mesa, então,
daquele café, debruçado, ele adormece.

Tuesday, December 22, 2015

"Garota Sombria Caminha Pela Noite"



"Sabor da Vida"

Eis um filme que se faz ótima viagem e companheiro de viagem para reflexões e balanços típicos de um fim e recomeço nas revira-e-voltas do tempo. Japonês, nele sorvemos, como as panquecas amalgamadas à mágica pasta de feijão da misteriosa senhorinha que bate à porta de um amargo doceiro, o sabor xintoísta da reverência à vida, amalgamado à consciência zen da impermanência de tudo. Na encruzilhada entre a mecânica fria das relações capitalistas (parênteses: amo uma Ayn Rand, que aliás é maior que uma apologista do capital, mas nunca vou me conformar com a recém-empossada chefete de um café da Paulista e seu timing brutal de demitir funcionárias sérias, de longo tempo de casa, a uma semana do natal) e a sensibilidade aos laços primários entre as pessoas e delas com a natureza, tal como postos em ato na alquimia da culinária e na contemplação das cerejeiras. Lindo!



o videogame da vida


Sunday, December 20, 2015

Federale, "Sarcophagus"


Contra os sábios mentecaptos


19/12/15
FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
19/ 12/ 15
VAMOS AO QUE INTERESSA
O que sua lucidez implacável ilumina de nossa "era da brutalidade" , seu humor -outro nome da inteligência- torna menos insuportável para nossa travessia. Nesta impressionante amostra das suas colunas para a Folha, desde 2008 até a atualidade, o cientista político português João Pereira Coutinho mostra que "o que interessa" é defender os grandes valores civilizatórios, a começar da liberdade,  contra o que os ameaça, dos terroristas islâmicos à corrupção bolivariana, passando pelos colaboracionistas intelectuais, o que ele chama de os "sábios mentecaptos", cuja hipocrisia, medo da irrelevância e frouxidão moral abrem caminho para as barbáries. Com extrema agilidade mental e prosa envolvente, Coutinho nos leva pela mão (se a metáfora não soar paternalista demais para um intelectual cujo foco e talento é nos educar à independência) por questões polêmicas como o "racismo às avessas" dos defensores das cotas para negros, a censura a Monteiro Lobato, o atentado contra o "Charlie Hebdo", em Paris.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO


Friday, December 18, 2015

Ayn Rand e o vômito brasileiro

Chego quase às lágrimas pensando na dor da mãe que viu, há pouco, a filha adolescente tomar um banho de vômito de uma massa gorda, que parece atender por algum nome humano, mas que na condição bêbada em que estava nada responderia, senão com um sorriso de mongolóide com que reagia aos protestos até brandos, por ciclos de indignação que só chegaram à palavra "seu porco", da pobre mãe. Sim, algo do Cristo que chora vendo sua Jerusalém me incita, não a mim, ao "Cristo em mim", como diria São Paulo, o Apóstolo, a chorar pela São Paulo, a cidade, e pelo país que ela resume tão bem no Mal puro que acabei de testemunhar. Estive perto, ainda que a salvo. Pouco mais perto estivesse e provavelmente não estaria em casa agora, mas num hospital fazendo exames, desesperado, como graças a Deus essa jovem não ficou, ao imaginar as imundícies daquele cara invadindo minha boca, ouvidos, olhos. As imundícies físicas e psíquicas, aquele sorriso leso, aquela existência de que fomos todos obrigados a tomar ciência, no jato absurdo, desumano, grotesco, que deve estar no chão até agora, esperando pelas humildes funcionárias encarregadas de limpar esse tipo de rastro da escória humana. O dia porém não foi de todo agônico; alegria pelo desfecho da leitura de A Nascente, de Ayn Rand; devo agora reler metodicamente (não quero perder contato, não ainda, com este mundo alternativo), mas o arrebatamento foi pleno, comparável ao que leituras juvenis me trouxeram, tipo Hermann Hesse, Thomas Mann, Dostoiévski. As palavras do protagonista, quase ao final, sobre o criador e o parasita, o homem livre, nem servo nem senhor, e a lesma viscosa que "vive" se arrastando, sujando o mundo com sua mera presença pestilenta, ressoam mais nítidas, por absoluto contraste, quando penso na barbárie que acabo de presenciar no metrô, cenário metonímico da degradação dos espaços e intervalos (físicos e psíquicos) necessários entre os seres humanos para que não sejam mero gado de tiranos imbecis como suas ovelhas: "A civilização é o progresso em direção a uma sociedade de privacidade. A existência inteira de um selvagem é pública, governada pelas leis de sua tribo. A civilização é o processo de libertar os homens uns dos outros".

Tuesday, December 15, 2015

os islamistas estão chegando?


Em condições normais de temperatura e pressão eu acharia apenas surpreendente e bonito. Para o conhecedor das diretrizes ideológicas da assim chamada Nova Ordem Mundial, e em especial para o leitor de "Submissão", de Houellebecq, a imagem - o Conjunto Nacional, um dos ícones da cidade, na Avenida Paulista,  transformado em "mesquita" comercial para a comemoração do Natal- toma um aspecto ligeiramente mais inquietante, talvez comparável ao que um adepto de Mitra sentisse ao ver seu sagrado 25 de dezembro ser festejado mas reinterpretado pelo cristianismo que vinha lhe tomar o lugar como força dominante.

a disputa das drogas


O cartoon acima, com que topei hoje no facebook, é interessante como ilustração de um dos tipos clássicos de falácia, ou fuga do debate lógico, que é contrapor ao seu acusador uma outra acusação, que de preferência soe mais grave. 
O fundamental è não precisar responder pelo que VC fez. O nome dessa esperteza é ˜Tu quoque (você também)". 
atual pocilga política brasileira, você não passa um dia sem topar com doses cavalares desse expediente. 
No caso do cartoon, outra esperteza é fazer a crítica a um costume, o consumo de maconha, ser desferida por alguém obviamente sem autoridade moral nenhuma para tanto. O que nos remete a outra falácia fundamental para quem deseja "vencer um debate sem precisar ter razão", no estilo que Schopenhauer zueiro ensina em livro sobre a erística (arte do combate de ideias, que para o bicho homem passa muito longe de ter por alvo a vitória da sensatez). 
segunda falácia è essa" ? O estreitamento das opções em disputa. O consumo de maconha se legitima porque seu adversário é um asqueroso viciado em junk food etc. Náo há alternativas fora deste espectro do possível, é escolher entre este preto ou este branco, como ou é Cunha ou é Dilma, ou é petralha, aceitando as coisas como estão petralhamente, ou é golpista. 
Você não destrói o gosto da massa pela alta cultura dizendo que Ibsen é uma merda, mas admitindo que os futucadores de cu (refiro-me à famigerada peça dos "macaquinhos", que tanta celeuma gerou esses dias pelo gosto duvidoso e apoio de verbas federais) fazem uma arte que merece o mesmo nome do que Ibsen fazia. Você se legitima não pelo que é ou tem a oferecer, que vc sabe ser uma bosta, mas pelo rebaixamento do nível de expectativas do respeitável público.

Sunday, December 13, 2015

inútil comédia demo-crática








Na morna passeata desta tarde, na Paulista, o único dos caminhões parados que me arrancou do torpor estático em que eu caminhava era o que tocava este clássico do Ultraje. "Inútil". Nunca a ouvi com tamanha sensação de atualidade. É de 1984, nem havíamos voltado a votar para presidente ainda, mas parecia feita para essa passeata, para a falta de vergonha na cara coletiva que nos trouxe até a presente sarjeta, da qual não há sinal de salvação à vista, se considerarmos o leque de representantes que "temos por hoje" para seguir nessa comédia demo-crática, não por acaso demonizada por tantos pensadores, e tão diversos em tantas coisas mas uníssonos no asco e distância cética dos espetáculos sadomasoquistas do rebanho no poder. O que diriam vocês, caros Platão, Nietzsche, de um caso como o brasileiro, dado o nível de política eleitoral possível com esses representantes e esses  representados? Com essa pátria educadora e mestra como poucas em fazer de uma música como "Inútil" a única verdade nesta terra da mentira?


INÚTIL
-Ultraje a Rigor-

A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dente
Tem gringo pensando que nóis é indigente

(Refrão)

Inútil
A gente somos inútil
Inútil
A gente somos inútil
Inútil
A gente somos inútil
Inútil
A gente somos inútil

A gente faz carro e não sabe guiar
A gente faz trilho e não tem trem prá botar
A gente faz filho e não consegue criar
A gente pede grana e não consegue pagar

(Refrão)

A gente faz música e não consegue gravar
A gente escreve livro e não consegue publicar
A gente escreve peça e não consegue encenar

A gente joga bola e não consegue ganhar

ABC de Ayn Rand- Estrutura


"Ele [Gail Wynand] largou o carro e subiu a colina a pé. Viu Roark entre os homens. Ficou do lado de fora e observou a maneira como ele andava através da estrutura, o modo como virava a cabeça ou erguia as mãos, apontando. Notou a forma como Roark parava: as pernas afastadas, os braços retos ao longo do corpo, a cabeça erguida; uma POSTURA INSTINTIVA DE CONFIANÇA, DE ENERGIA MANTIDA SOB CONTROLE SEM ESFORÇO, um momento que dava ao seu corpo a SIMPLICIDADE ESTRUTURAL de seu próprio prédio. A ESTRUTURA, pensou Wynand, é UM PROBLEMA SOLUCIONADO DE TENSÃO, DE EQUILÍBRIO, DE SEGURANÇA ENTRE FORÇAS QUE SE OPÕEM".
Ayn Rand,
A Nascente, vol. II

Friday, December 11, 2015

um esgoto em forma do mapa do Brasil


Esgoto jorrando na Barra da Tijuca, a menos de um ano dos Jogos Olímpicos

"Ele não conseguia dar nome ao que queria da vida. Sentia-a o ali, nessa solidão selvagem. Entretanto, não encarava a natureza com a alegria de um animal saudável, como um ambiente final e apropriado. Encarava o com a alegria de um homem saudável, como um desafio, como instrumentos, meios e materiais. Portanto, sentia RAIVA POR ENCONTRAR A EXALTAÇÃO SOMENTE EM UMA REGIÃO DESABITADA, e porque tinha que perder esse grande senso de esperanca quando voltasse aos homens e ao trabalho dos homens. Pensou que isso não estava certo; que o trabalho do homem deveria ser um passo mais elevado, um aperfeicoamento da natureza, não uma degradação. Ele NÃO QUERIA DESPREZAR OS HOMENS; QUERIA AMÁ-LOS E ADMIRÁ-LOS. Mas temia a visão da primeira casa, ou do salão de sinuca, ou do pôster do filme que encontraria em seu caminho".
AYN RAND,
A NASCENTE, vol. II

Tuesday, December 01, 2015

Sunday, November 29, 2015

Resenhas para a Folha, novembro de 2015

FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
28/11/2015
DRAMATURGIA ELIZABETANA
Em mais um legado deixado pela saudosa rainha da crítica teatral brasileira, Barbara Heliodora (morta em abril), saem suas traduções de autores que foram precursores imediatos e fundamentais de Shakespeare, embora inevitavelmente eclipsados pela glória do Bardo, amor maior da carreira de Heliodora. 
Trata-se de Thomas Kyd ("A Tragédia Espanhola") e sobretudo de Christopher Marlowe, com  "Tamerlão" e "A Trágica História do Doutor Fausto", primeira das grandes versões do mito literário que, de Goethe a Thomas Mann, de Fernando Pessoa a Guimarães Rosa, viria a  sintetizar a aventura existencial do homem moderno, em sua  grandeza e abismos "mefistofélicos". 
O título da coletânea alude ao peculiar teatro renascentista inglês, marcado pela celebração não só da emancipação do homem frente à teocracia medieval, mas também da auto-afirmação política e cultural  do país  durante o reinado de Isabel I,  entre 1558 e 1603.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO
BEIJE-ME ONDE O SOL NÃO ALCANÇA 
“A história é um romance verdadeiro”, Mary del Priore gosta de dizer, evocando Paul Veyne. E é o que demonstra com brilhantismo neste seu primeiro romance histórico.  Ela reconstitui imaginativamente,  mas não sem a precisão de pesquisadora (recorrendo a farta documentação de época, sobre este caso verídico), o  triângulo amoroso entre um conde russo, a herdeira de um barão do café no Vale do Paraíba e uma ex-escrava, no Brasil imperial. Afora a riqueza humana dos personagens e do drama em si, o livro nos oferece, com linguagem fluente e fidedigna (até nos palavrões, colhidos na poesia erótica e pornográfica do século 19), uma preciosa chave de acesso às contradições e hipocrisias de um pais que nascia para a era moderna mas ainda “embriagado de escravidão”.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ROSA CANDIDA

O que seu nome tem de impronunciável, sua escrita tem de deliciosa: vale a pena de deixar embriagar pelas cores, odores e delicadezas desta narrativa da islandesa Audur Ava Ólafsdóttir. Livro que fez dela uma celebridade literária internacional –já foi traduzido em mais de 20 línguas-  trata-se de um “romance de formação” sobre um jovem   apaixonado pelas flores, especialmente por essa variedade rara de rosa de oito pétalas. Um amor em comum com a mãe que acabou de perder num trágico acidente. Aturdido, ele  deixa o pai quase octogenário, o gêmeo autista e a filha recém-nascida de uma relação sexual casual, sai do país para trabalhar no jardim de um mosteiro.  Segue-se um processo de autodescoberta que o fará  florescer de menino em homem.  
ANTÔNIO: O PRIMEIRO DIA DA MORTE DE UM HOMEM
Sexo é filosofia. É arte, é música, é trovão, é tempestade, é harmonia ou caos. Vista grossa: tudo é sexo. Este era o tipo de pensamento que andou relampeando nas cabeças de Manuela, Nádia e Antônio nos quatro dias que eles ficaram dentro do quarto de Nádia. Quatro dias.” A celebração a Eros, não só é tema, mas é motor narrativo  e intensa experiência propiciada por este que é o romance de estreia de Domingos Oliveira, mas repleto de marcas que nos transportam à atmosfera de filmes. Em foco (quase se poderia dizer, em tela) um professor de antropologia sexagenário, escritor frustrado que a mulher troca por um namorado bem mais novo, mas que tem a vida convulsionada por uma “mixture blessing” (bênção ambígua) que tantos de nós homens pedimos aos céus: a paixão tórrida por duas lindas jovens, uma delas ex-aluna.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ASSIM FOI AUSCHWITZ
Primo Levi (1919-1987) era um químico de 24 anos quando foi deportado para o campo de extermínio nazista que Adorno tomou como lápide da civilização. Da experiência trágica, sobreviveu e  renasceu  como escritor dedicado à denúncia dos horrores que viu e sofreu numa daquelas máquinas de morte e desumanização de agressores e vítimas. Nessa coletânea (entre 1945 e 1986) de testemunhos dele e de outro ex-prisioneiro, o médico Leonardo de Benedettia  indignidade macabra do que têm a relatar é tanto mais impactante porque vertida numa prosa sóbria, sem sentimentalismos, mas com coragem para, detalhando as atrocidades, contrariar a tendência, no pós-guerra, a um certo clima cultural de “deixa disso” e olhemos “para a frente”, de esquecimento e relativização. 
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

FORMALISMO & TRADIÇÃO MODERNA
Conforme avança o belíssimo projeto editorial da É Realizações  de relançar José Guilherme Merquior, o leitor tem a oportunidade de matizar uma rotulação ideológica  apressada desta “obra” (para além da soma de seus livros) como a de um mero, por mais que sofisticado, liberal-conservador. Um livro como este, de 1974, mostra a densidade da influência em Merquior de um certo tipo de crítica cultural de esquerda, ao estilo de Adorno e Benjamin. É de lastro frankfurtiano sua crítica  ao kitsch (o mau gosto pretensioso e feito para as massas), embora seja discutível se Merquior é justo em incluir nesse conceito condenatório desde “99% da crítica literária dita estuturalista” ao teatro de Ionesco e Arthur Miller. O genial ensaísta brasileiro, numa linha que faz lembrar Antonio Candido na fina articulação de literatura e sociedade, volta suas baterias também contra a degradação formalista da ideia de “forma”, desconectada das tendências e conflitos histórico-culturais.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO 

Thursday, November 26, 2015

ABC de Ayn Rand - Sagrado


"Howard Roark construiu um TEMPLO AO ESPÍRITO HUMANO. Ele viu o homem como sendo FORTE, ORGULHOSO, LIMPO, PURO E DESTEMIDO. Ele viu o homem como UM SER HEROICO. E construiu um templo a isso. Um templo é um lugar onde o homem deve experimentar exaltação. Ele achou que a exaltação vem de NÃO CARREGAR NENHUMA CULPA, DE VER A VERDADE E ALCANÇÁ-LA, DE CONSEGUIR REALIZAR A SUA MAIS ALTA POSSIBILIDADE, DE NÃO CONHECER A VERGONHA E NÃO TER MOTIVO PARA SENTI-LA, DE SER CAPAZ DE FICAR NU EM PLENA LUZ DO SOL. Ele achou que um local construído como um cenário para o homem é um LUGAR SAGRADO. Foi isso que Howard Roark pensou sobre o homem e a exaltação. Mas Ellsworth Toohey disse que esse templo era um monumento a um ódio profundo pela humanidade. Toohey disse que a essência da exaltação é estar morrendo de medo, cair e rastejar. Toohey disse que o ato mais elevado do homem era dar-se conta de sua própria falta de valor e implorar por perdão. Ele disse que era depravado não ter certeza de que o homem é algo que precisa ser perdoado. Toohey viu que essa prédio era do homem e da Terra, e disse que esse edifício tinha sua barriga na lama. Glorificar o homem, disse Toohey, era glorificar os prazeres indecentes da carne, pois o reino do espírito está além do alcance do homem. Ellsworth disse que, para entrar nesse reino, o homem deve vir como um pediente, de joelhos. Toohey é um amante da humanidade. (...) 
Eu não condeno Elllsworth Toohey. Condeno Howard Roark. Dizem que um prédio deve fazer parte de seu local. Em que tipo de mundo Roark construiu esse templo. Para que tipo de homens? Olhe à sua volta. (...) Toohey tem razão, aquele templo é um sacrilégio, embora não no sentido que ele quis dar. (...) Quando você vê um homem jogando pérolas sem receber em troca ao menos uma costeleta de porco, não é contra o porco que você se sente indignado. Você fica indignado contra o homem que DEU TÃO POUCO VALOR ÀS SUAS PÉROLAS A PONTO DE ESTAR DISPOSTO A ATIRÁ-LAS NA LAMA E DEIXÁ-LAS TRANSFORMAREM-SE EM UMA OCASIÃO PARA UM CONCERTO INTEIRO DE GRUNHIDOS, TRANSCRITOS PELA ESTENÓGRAFA DO TRIBUNAL.
(...)
O Templo Stoddard é uma AMEAÇA a muitas coisas. Se fosse permitido que ele existisse, ninguém ousaria olhar para si mesmo no espelho. E isso é algo cruel para se fazer com as pessoas. Peça qualquer coisa a elas. Peça-lhes que alcancem FAMA, FORTUNA, AMOR, ou que cometam atos de BRUTALIDADE, ASSASSINATO, AUTOSSACRIFÍCIO. Mas não lhes peça que alcancem o respeito por si próprias. Elas odiarão sua alma. (...) Portanto, de que adiante ser um mártir para o impossível? De que adianta construir para um mundo que não existe?
(...) Vamos destruir, mas não vamos fingir que estamos cometendo um ato de virtude. Vamos admitir que somos toupeiras e temos aversão a picos de montanhas."
DOMINIQUE FRANCON,
in: AYN RAND, 
A NASCENTE

Sunday, November 22, 2015

The Contours, "Do You Love Me?"

You broke my heart
'Cause I couldn't dance
You didn't even want me around
And now I'm back
To let you know
I can really shake 'em down
Do you love me?
(I can really move)
Do you love me?
(I'm in the groove)
Ah, do you love?
(Do you love me)
Now that I can dance
(Dance)
Watch me now, oh
(Work, work)
Ah, work it all baby
(Work, work)
Well, you're drivin' me crazy
(Work, work)
With a little bit of soul now
(Work)
I can mash-potatoe
(I can mash-potatoe)
And I can do the twist
(I can do the twist)
Now tell me baby
(Tell me baby)
Mmm, do you like it like this
(Do you like it like this)
Tell me
(Tell me)
Tell me
Do you love me?
(Do you love me)
Now, do you love me?
(Do you love me)
Now, do you love me?
(Do you love me)
Now that I can dance
(Dance)
Dance
Watch me now, oh
(Work, work)
Ah, shake it up, shake it
(Work, work)
Ah, shake 'em, shake 'em down
(Work, work)
Ah, little bit of soul now
(Work)
(Work, work)
Ah, shake it, shake it baby
(Work, work)
Ah, you're driving me crazy
(Work, work)
Ah, don't get lazy
(Work)
I can mash-potatoe
(I can mash-potatoe)
And I can do the twist
(I can do the twist)
Well now tell me baby
(Tell me baby)
Mmm, do you like it like this
(Do you like it like this)
Tell me
(Tell me)
Tell me
Do you love me?
(Do you love me?)
Now, do you love me?
(Do you love me?)
Now, do you love me?
(Do you love me?)
(Now, now, now)
(Work, work)
Ah, I'm working hard baby
(Work, work)
Well, you're driving me crazy
(Work, work)
And don't you get lazy
(Work)
(Work, work)
Ah, hey hey baby
(Work, work)
Well, you're driving me crazy
(Work, work)
And don't you get lazy
(Work)

Saturday, November 21, 2015

Alan Jackson, I`II Try





"I'll Try"
Here we are
Talkin' bout forever
Both know damn well
It's not easy together

We've both felt love
We've both felt pain
I'll take the sunshine
Over the rain

And I'll try
To love only you
And I'll try
My best to be true
Oh darlin', I'll try

So I'm not scared
It's worth a chance to me
Take my hand
Let's face eternity

Well I can't tell you
That I'll never change
But I can swear 
That in every way

And I'll try
To love only you
And I'll try
My best to be true
Oh darlin', I'll try

I'm not perfect
Just another man
But I will give you
All that I am

And I'll try
To love only you
And I'll try
My best to be true
Oh darlin', I'll try

I'll try
To be true to you
I'll try
I'll try
To always love you
I'll try

Friday, November 20, 2015

aqui é HEXA

Reproduzo abaixo o meu post do já distante 13 de agosto em que, ainda sob o espanto do que parecia impossível, eu comemorava a confirmação do Timão como líder do campeonato, em virtude de uma derrota do Atlético. Não podia imaginar, mesmo com todo o otimismo do mundo (que aliás nunca foi meu forte), que essa liderança JAMAIS seria revertida até o final, e que chegaríamos agora, a três rodadas de antecedência e enormes 12 pontos de distância do mesmo Galo, à consagração como campeões. Obrigado, Corinthians, por ser quem você é e por esta verdadeira jornada do Herói, à la Luke Skywalker, cujas virtudes eu esboçava naquele texto, e que só ficaram mais nítidas com o passar do tempo e dos desafios, nesta campanha impressionante, sintetizada, duas semanas atrás, na verdadeira "final" do certame, nos acachapantes TRÊS A ZERO contra os mineiros na casa do adversário. 

Líder
(http://unzuhause77.blogspot.com.br/2015/08/lider.html)

A uma rodada do fim do primeiro turno, parece um sonho: mas somos LÍDERES do Campeonato Brasileiro! Os horizontes do início eram terríveis, com os ecos da eliminação precoce no Paulista e na Libertadores, a crise financeira levando a atrasos salariais e incapacidade de investimento, a perda de Guerrero. 
Num clube de massas como o Corinthians, a amplificação das notícias boas e ruins tende a ser gigantesca. Por isso temi que acontecesse um replay da tragédia do Botafogo ano passado: do primeiro semestre na Libertadores, foram ladeira abaixo à segunda divisão. Mas o Timão vem, há anos, num processo de fortalecimento de estruturas e de mentalidade organizacional, processo que rendeu frutos dentro e fora de campo, os títulos históricos de 2012 e um organismo mais resistente a fatores irracionais como os humores das arquibancadas e a incerteza das partidas em si. Andrés introduziu, desde o rebaixamento de 2007, uma outra lógica no clube, em que qualidades como o intenso apelo emocional da marca Corinthians passam a funcionar mais a nosso favor do que contra, com virtudes de empresa moderna como o planejamento, resiliência, recusa a imediatismos. 
Além disso, temos um grande craque postado bem na linha fronteiriça entre o dentro e fora de campo: Tite. Nosso comandante na conquista da Libertadores e do Mundial, ele agora contribui de uma maneira espetacular para, senão a mesma trajetória vitoriosa, ao menos nos imunizar dos efeitos mais perigosos da crise do início do Brasileiro, quando o time parecia estar evaporando, cada dia um nome de jogador entrando na prateleira de saldão de venda. O Itaquerão começou a nos cobrar sua pesada conta, depois do glamour da construção, de sediar jogos da Copa, de nos encher a boca, enfim, de uma resposta à zombaria dos adversários (éramos time sem estádio e sem passaporte -de 2012 para cá enfim conquistamos os dois).
Daí a importância da liderança  de seu Adenor. Entre suas muitas virtudes de treinador e líder, ele faz jus a uma máxima do supercampeão do basquete americano John Wooden: nosso time, após o jogo, tem que apresentar no vestiário uma força anímica parecida, na vitória ou na derrota, de modo a dificultar a vida de quem quisesse saber o resultado do jogo sem tê-lo visto, apenas pelo tom das entrevistas. Intensidade de entrega ao combate, mas desapego aos frutos da ação, como o "coach" Krishna, cocheiro mágico de Arjuna,  no Bhagavad-Gita, ensinava seu pupilo na batalha de Kurukshetra. 
Por isso que ontem mesmo Tite tratava de ressaltar que não importava tanto se hoje o Galo perderia (como perdeu), nos confirmando na liderança do certame. Claro que é prazeroso, claro que é promissor. Mas  estamos longe ainda de definições desse "paris dacar" que é um campeonato de pontos corridos. O legal é ver o carro, depois de tão avariado e testado em torrentes e lamaçais, mostrar motor forte e rumo certo.
PS: que a Seleção da CBF não nos venha encher o saco ao tomar nosso líder. Fica Dunga! Única razão para "torcer" por você.

Saturday, November 14, 2015

uma cruzada secular


Me sinto inspirado pela energia sagrada que brota de uma CONVOCAÇÃO poético-militar como esta que se me apresentou ao acaso da combinação do espírito cruzadístico da música (marcha templária) e da revolta atéia da "letra", os dizeres incendiários de Camus contra o fascismo de seu tempo. Me sinto em maior prontidão à BATALHA ESPIRITUAL pela frente. Que me toma contornos diferentes de uma simples oposição cristãos versus islã. É mais feurbachiana, ao reconhecer o homem por trás dos seus ideais sobre o que deveria ser o deus (que não é senão sua própria imagem e semelhança aperfeiçoadas). É o combate da razão, da espiritualidade secular, contra os inimigos totalitários de nosso próprio tempo, mesmo que, como no caso do "homem revoltado" camusiano, não haja deuses em quem depositar confiança, mesmo, e sobretudo, que sagrado seja o homem, a vida, o mundo, este mundo, o único, CONTRA os monstros que se arvoram em representantes do outro mundo que só existe em suas mentes delirantes e calhordas. "Numa palavra, vós escolhestes a injustiça, passando-vos para o lado dos deuses. (...) Eu, pelo contrário, escolhi a justiça a fim de permanecer fiel à terra. Continuo a pensar que este mundo não tem qualquer serntido superior. Mas sei que, nele, se alguma coisa tem sentido é o homem, porque é ele o único a exigi-lo. Este mundo possui pelo menos a verdade do homem, e é nosso dever dar-lhe razão contra o próprio destino. E essa razão não é outra senão o próprio homem. É ele que fará com que seja salva, se quisermos, a ideia que fazemos da vida. (...) Vai surgir a alvorada em que sereis finalmente vencidos. Eu sei que o céu, indiferente às vossas atrozes vitórias, será de novo indiferente à vossa justa derrota. Dele continuo a nada esperar. Mas nós ajudamos pelo menos a salvar as criaturas da solidão em que queríeis encerrá-las, Por terdes menosprezado essa fidelidade ao homem, sois vós que ireis morrer sozinhos, aos milhares."

Mireille Mathieu, "La Marseillaise"

Avante, filhos da pátria
O dia da glória chegou
Contra nós a tirania
A bandeira ensaguentada é levantada
A bandeira ensaguentada é levantada
Ouvi nos campos rugirem
Esses ferozes soldados?
Vêm eles até nós
Degolar nossos filhos, nossas mulheres

Às armas cidadãos! Formai vossos batalhões!
Marchemos, marchemos!
Que a terra se sacie de sangue impuro!

Franceses, em guerreiros magnânimos
Levem, carreguem ou suspendam seus tiros!
Poupem essas tristes vítimas
Que contra nós se armam a contragosto
Que contra nós se armam a contragosto
Mas esses déspotas sanguinários
Mas esses cúmplices de Bouillé
Todos esses tigres que, sem piedade
Rasgam o seio de suas mães!

Às armas cidadãos! Formai vossos batalhões!
Marchemos, marchemos!
Que a terra se sacie de sangue impuro!

Amor sagrado pela pátria
Conduza, sustente nossos braços vingativos.
Liberdade, querida liberdade!
Combata com teus defensores
Combata com teus defensores
Sob nossas bandeiras, que a vitória
Chegue logo às tuas vozes viris!
Que teus inimigos agonizantes
Vejam teu triunfo e nossa glória

Às armas cidadãos! Formai vossos batalhões!
Marchemos, marchemos!
Que a terra se sacie de sangue impuro!

sabedoria para tempos de sordidez


O horror e podridão da História voltam a dar as cartas, mostrando a canalhice de que a espécie humana sempre foi, é e será capaz. Nesse mundo em que, além de pretexto da fantasia sanguinária dos monstros, o divino se revela uma ideia vazia; em que contar com deuses,  ajuda divina, falar em "orar pelas vítimas", soa no mínimo à velha pia fraus, é tempo de insistirmos, no silêncio e solidão da consciência, na busca da sabedoria.
 Paciente, perseverante, consciente de que é um ideal transcendente. Não porque "celeste", mas porque tão mais autenticamente humana do que muitas vezes conseguimos ser, como espécie e indivíduos. Porque tão adiante de nós mesmos, superior às nossas possibilidades normais, se não forem trabalhadas, exercitadas no dia a dia. Mesmo nas situações mais desanimadoras, em que a besta-fera sórdida domina. Aliás, sobretudo nelas, tomando-as como a matéria bruta (ou brutal) para nosso esforço, resistência e invenção.
 A sabedoria é um estado, não uma posse, e se define em ações, nego não "nasce" sábio, como não nasce herói nem covarde, nem homem nem mulher (no sentido existencial que madame Simone de Beauvoir postulava). 
O filósofo tem na própria palavra que o define a distância em relação à sua meta. Quem deseja não possui, desejo é falta e busca. Amar a sabedoria é querê-la, não "tê-la". É amá-la, quiçá fazer amor com ela, mas sem fazer dela jamais, como tampouco da mulher que amamos e com que façamos amor, "coisa" nossa. É não o casamento gordo e confortável dos "proprietários", mas a tensão, o risco, a aventura e o sempre querer mais da corte e do namoro. 
De encruzilhadas entre lucidez e estupidez se fazem as provações desta busca, entre as quais a congruência entre o que se pensa, o que se diz e o que se faz: "A um velho homem, que lhe contava que escutava lições sobre a virtude, Platão respondeu: 'E quando começarás a VIVER virtuosamente?'. Não se pode fazer teoria sempre. É bem necessário, uma vez, enfim PASSAR AO EXERCÍCIO. Mas hoje se toma por sonhador aquele que vive o que ensina'" (Kant).

Thursday, November 12, 2015

Annie Lennox, No More "I Love You's"

No More "I Love You's"

Do be do be do do do oh
Do be do be do do do oh

I used to be a lunatic from the gracious days
I used to feel woebegone and so restless nights
My aching heart would bleed for you to see
Oh, but now
I don't find myself bouncing home
Whistling buttonhole tunes to make me cry

No more I love you's
The language is leaving me
No more I love you's
Changes are shifting
Outside the words

The lover speaks about the monsters

I used to have demons in my room at night
Desire, despair, desire
So many monsters

Oh, but now
I don't find myself bouncing around
Whistling my consence to make me cry

No more I love you's
The language is leaving me
No more I love you's
The language is leaving me in silence
No more I love you's
Changes are shifting
Outside the words

And people are being real crazy
But we will only come
And you know what mommy?
Everybody was being real crazy
The monsters are crazy.
There are monsters outside

No more I love you's
The language is leaving me
No more I love you's
The language is leaving me in silence
No more I love you's
Changes are shifting outside the words
Outside the words

No more I love you's
The language is leaving me
No more I love you's
The language is leaving me
No more I love you's
Changes are shifting outside the words

Do be do be do do do oh
Do be do be do do do oh
Outside the words


Link: http://www.vagalume.com.br/annie-lennox/no-more-i-love-yous.html#ixzz3rLK4GaET

ABC de Ayn Rand- Propósito da vida


Monday, November 09, 2015

Saturday, November 07, 2015

Thursday, November 05, 2015

a ovelha perdida


Beato Charles de Foucauld (1858-1916), eremita e missionário no Saara 
Retiro em Nazaré, Novembro de 1897


À procura da ovelha perdida
Ia-me afastando mais e mais de Vós, meu Senhor e minha vida, e a minha vida começava a ser uma morte, ou antes, era já uma morte a vossos olhos. E neste estado de morte me conserváveis ainda. [...] A fé tinha desaparecido por completo, mas o respeito e a estima haviam permanecido intactos. Concedíeis-me outras graças, meu Deus, mantínheis em mim o gosto pelo estudo, pelas leituras sérias, pelas coisas belas, a repugnância pelo vício e pela fealdade. Fazia o mal, mas não o aprovava nem o amava. [...] Dáveis-me essa vaga inquietação de uma má consciência que, por adormecida que esteja, nem por isso está morta.

Nunca senti esta tristeza, este mal-estar, esta inquietação, senão nessa altura. Era, pois, um dom vosso, meu Deus; que longe estava eu de suspeitar de que assim fosse! Que bom sois! E, ao mesmo tempo que impedíeis a minha alma, por essa invenção do vosso amor, de se afundar irremediavelmente, preserváveis o meu corpo: pois se tivesse morrido nessa altura, teria ido para o inferno. [...] Os perigos da viagem, tão grandes e tão numerosos, de que me fizestes sair como que por milagre! A saúde inalterável nos lugares mais malsãos, apesar de tão grandes fadigas! Ó meu Deus, como tínheis a vossa mão sobre mim, e quão pouco eu a sentia! Como me protegestes! Como me abrigastes sob as vossas asas, quando eu nem sequer acreditava na vossa existência! E, enquanto assim me protegíeis, e o tempo ia passando, parecia-Vos que tinha chegado o momento de me reconduzir ao cercado.

Desfizestes, apesar de mim, todos os laços maus que me teriam mantido afastado de Vós; desfizestes mesmo todos os laços bons que me teriam impedido de ser, um dia, todo vosso. [...] Foi a vossa mão, e só ela, que fez disto o começo, o meio e o fim. Que bom sois! Era necessário fazê-lo, para preparar a minha alma para a verdade; o demónio é excessivamente senhor de uma alma que não é casta, para nela deixar entrar a verdade; não podíeis entrar, meu Deus, numa alma onde o demónio das paixões imundas reinava como senhor. Queríeis entrar na minha, ó Bom Pastor, e fostes Vós que dela expulsastes o vosso inimigo.

Saturday, October 31, 2015

Resenhas para a Folha, 31/10/15



FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES

O CIRCUITO DOS AFETOS
De vigor jovial tão espantoso quanto a  maturidade intelectual, o filósofo e colunista da Folha Vladimir Safatle dá um novo e poderoso passo como um dos nossos maiores pensadores contemporâneos. Retoma e expande  sua já conhecida articulação magistral entre a tradição dialética, teoria social e psicanálise, e propõe “a filosofia necessária para uma teoria política da transformação”, em tempos de crise do capitalismo e das velhas alternativas revolucionárias.
Para tanto, mostra a conexão entre os modelos hegemônicos de poder  e (des) ordem social e determinadas configurações afetivas do “corpo” pessoal e político . E aponta a necessidade de  superação do individualismo moderno, calcado que é na lógica ilusória  e agressiva que já Lacan discutia ao pensar a gênese do eu no estádio do espelho.
 De  Hobbes aos atuais brados securitários e gozo sensacionalista em torno da violência cotidiana e terrorista, o medo, recalque artificial de nosso verdadeiro desamparo (Freud), é imposto como afeto determinante de uma vida -social e subjetivamente- repressiva, estagnada e infeliz.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO



 METAFÍSICAS CANIBAIS
 Esta –a minha- é uma pequena resenha sobre outra  bem maior, em todos os sentidos. Maior e mais maliciosa, porque borgianamente se dedica a um livro imaginário, que o próprio resenhista, Eduardo Viveiros de Castro, gostaria de ter escrito: “O Anti-Narciso”, em homenagem ao “Anti-Édipo” de Deleuze e Guattari. 
Consagrado no Brasil e fora, o antropólogo  carioca aprofunda a sua teoria do perspectivismo, segundo a qual para os povos ameríndios  o mundo é povoado de muitas espécies que se veem, cada qual, como as verdadeiramente“humanas” em comparação com as demais. 
O livro, ou a “resenha”, explora com maestria as  implicações “antinarcísicas” dessa metafísica para a antropologia (não só a disciplina acadêmica, mas a teoria geral do humano) do Ocidente. Mais que isso, se indaga sobre o quanto o fazer e pensar etnológicos, apesar do “carma” colonialista das origens, não é estruturalmente antinarcísico, influenciado diretamente pelo “Outro” -que assim é mais que objeto, é eixo perspectivista que nos ensina a achar bonito também o que não é espelho.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO

FONTES PASSIONAIS DA VIOLÊNCIA
Esse novo volume da série “Mutações”, de Adauto Novaes, é de especial impacto  para pensarmos, como ela propõe, de ângulos novos, e com rara densidade (vertida porém em ensaios acessíveis e agradáveis), os impasses do contemporâneo. Tem origem em conferências de intelectuais brasileiros e franceses ano passado, no bojo do centenário de uma guerra que ainda “não terminou”, em certo sentido. O conflito mundial de 1914, embora muitas vezes rebaixado a preâmbulo do apocalipse hitlerista, foi decisivo para a transformação da ideia e da escala da violência, essa paixão ancestral agora a serviço de uma civilização tecnocientífica que embrutece a capacidade reflexiva e ética do ser humano. Entre os autores convidados, destaques como Marcelo Coelho, Vladimir Safatle, Franklin Leopoldo e Silva e Fréderic Worms, um dos maiores especialistas mundiais na obra de Henri Bergson.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO