Saturday, January 31, 2015

Tuesday, January 06, 2015

os paparazzi da desgraça


Em " Amor e Outras Drogas", Jake Gyllenhaal já encarnava um personagem "muito treinável", segundo lembro suas palavras: destemido, aguerrido e atrevido o bastante pra se dar bem como o típico self-made man em sua versão hoje tão em voga do empreendedor.
Em "O Abutre", que acaba de estrear em SP, esse mesmo auto-elogio é proferido pelo galã, que agora aparece em versão weird, desglamourizada, afora um ou outro take em que parece estar retomando os traços que ligam, no personagem anterior, seu capital erótico e seu poder de persuasão social. No filme de 2011, essas qualidades alavancam a carreira de Jamie Randall na indústria farmacêutica, depois de ter sido demitido do modesto cargo de vendedor numa loja de eletrodoméstico (o bilhete azul foi por conduta imprópria decorrente de excesso de libido, digamos: ele era um garanhão incorrigível, com tremendo magnetismo sexual, até na hora do expediente).
 
Randall usa de seu charme, lábia, tino comercial e tesão abissal como qualidades comunicativas pra se tornar vendedor de sucesso de antidepressivos e, em seguida, do Viagra, que a gigante Pfizer estava lançando. O filme mostra a frieza de  médicos e indústria das drogas no conluio para achacar o dinheiro e a esperança de alívio dos milhares de viciados em não elaborar seus desejos e desesperos senão pela mediação mercantil e ilusória, das pílulas de pacificação.
 Em "O Abutre", há também a passagem de uma posição modesta -mas ilegal, a de ladrão de ferragem- para outra, de destaque -mas amoral, a do "abutre" de tinturas psicopáticas, cinegrafista à cata de imagens sangrentas da noite de Los Angeles para vender pra um programa de tv sensacionalista, esse outro protótipo da sociedade narcotizada e sedada por maus valores nos dias de hoje. Randall,  em "O Amor e Outras Drogas" passa por uma grande modificação pessoal quando a sensualidade de don juan dá com a cara , quase literalmente, nos seios estonteantes de Maggie Murdock (Anne Hathaway), uma jovem de 26 anos que sofre de ainda incipiente, mas de prognóstico terrível, mal de Parkinson.



A mescla de qualidades de Maggie como beleza, carisma, extrema sensualidade mas também fragilidade de saúde impedem que ela se reduza a mais uma "das nêga dele", tonificam a flechada do Cupido, e arrastam nosso don juan pra uma jornada de tórrida paixão e, em especial, de humanização. Amor e humanidade que parecem eliminados por completo de Louis Bloom, que é divertido (ou assustador) pensar como sendo, embora jovem, o Random de Amor e Outras Drogas já após o final feliz, ou melhor, o final da felicidade, a de caixeiro-viajante do viagra, e após uma sobretudo uma presumível desilusão com os destinos de ou com Maggie, após as cortinas românticas se baixarem e o horror da doença tomar conta da cena real. 
Tendo emagrecido 14 kg por exigência do roteiro, Jake vive com extremo poder e presença cênica a condição faminta, errante e vazia de abutres que já nada esperam do homem, já nada amam na mulher, já nada desejam senão o sucesso cujas balizas morais não são sempre nítidas, e não só no mercado da informação sensacionalista. A paródia do discurso empreendedor mostra, como em “O Lobo de Wall Street”, que, assim como, dizem, a verdade é a primeira vítima fatal na guerra, a sanidade psíquica dificilmente sai ilesa quando o "CEO ideal" é mito que vira lixo atômico consumido inadvertidamente: induz uma mutação genética de homens em abutres, esses paparazzi da desgraça, na avidez carreirista que se cria e faz sucesso não na osmose do sucesso alheio, como lady die até a perseguição final por paparazzi então transformados, eles próprios, em abutres. Os abutres do filme e do jornalismo marrom de merda de cada dia parasitam o avesso do glamour e farelos dos tapetes vermelhos da celebridades que gostaríamos de ser. São ainda tapetes vermelhos, mas de sangue, o rastro líquido de fracasso de vítimas com que nos identificamos não pelo sucesso que nos esfregam na cara; antes se trata do avesso e do alívio de assistirmos, com a sofreguidão com que os abutres filmaram os detalhes de cadáveres, gritos, tiros,  gente como a gente que se deu mal “em nosso lugar” - a preferência do sistema que aninha esses exploradores do espetáculo da morte ,  mostra o filme, é pela classe média branca, moradores dos melhores bairros, alvejada por pobres, negros e demais rostos de nosso pavor e preconceito.