Saturday, March 28, 2015

Resenhas para a Folha, 28/03/2015

FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA- LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de CAIO LIUDVIK


NOBRES SELVAGENS
“Noble savage” é uma das formas de tradução, em inglês, do célebre mito do “bom selvagem” associado a Rousseau. Mas o propósito de Chagnon com este título não deixa de ser a ironia. Polêmico expoente da antropologia,  ele conta em linguagem atraente sua experiência com ianomâmis de Brasil e Venezuela. E desnuda sem dó os totens e tabus de sua própria “tribo”, acadêmicos e ativistas que sustentam (e sobretudo se sustentam com) a causa indígena com base em fetiches como o índio pacífico, só desvirtuado pelos malvados ocidentais, e um conceito de “cultura” com que, em fúria santa que lembra os criacionistas mais fanáticos, os cientistas sociais tentam fazer do homem social um demiurgo de si mesmo, livre e soberano, sem a influência “mesquinha” de suas origens biológicas.
Algo que  o antropólogo norte-americano (descendente mais de Hobbes que de Rousseau)  valoriza ao discutir a transição do estado de natureza à civilização, e a rivalidade pelas mulheres e o peso da seleção genética nas regras de conflito e solidariedade social.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

COMENTÁRIO SOBRE A ‘REPÚBLICA’
Este livro de Averróis (1126-1198)  é um desafio  em tempos de inflação do estereótipo de um “choque de civilizações” entre Islã e Ocidente.   Vem relembrar conexões de fundo sob aparentes abismos de heterogeneidade hostil. De papel crucial, na Idade Média,  na tomada de consciência do Ocidente sobre sua própria tradição grega, a filosofia islâmica tem entre seus maiores expoentes o “Comentador” –como Averróis ficou conhecido por suas leituras  de Aristóteles.
 Aqui ele se volta  para o pensamento político de Platão, bem verdade que numa versão mediada pela doutrina aristotélica das virtudes exigidas do governante e do cidadão. Discutindo também vícios e virtudes de diversos tipos de regime, Averróis busca na doutrina do “rei-filósofo” –que Popper considera um dos maiores inimigos das “sociedades abertas” - respaldo para uma reforma das sociedades islâmicas. Não à base de terror cego, mas articulando fé e razão na “Umma”, comunidade sagrada a ser realizada à luz dos ensinamentos e  exemplo moral de Muhammad.   
AVALIAÇÃO -ÓTIMO 

HISTÓRIA DOS ANIMAIS
“Quando pensamos que antes de Aristóteles não houvera, pelo que sabemos, biologia além de observações esparsas, percebemos que este empreendimento por si só deveria ter sido suficiente para uma vida e teria dado a imortalidade. Mas Aristóteles estava apenas começando”- e sua metafísica surgiu de sua biologia. Quem o diz é Will Durant, dimensionando a importância  de “História dos Animais”. 
A zoologia ali apresentada talvez não seja confiável para o vestibular. Mas é inspiradora para todo biólogo ou leitor tocado pelo “espanto” (nutriz da curiosidade filosófica) da complexidade da vida. Sejam éguas (que ele, em momento de pouca correção política, lembra terem sido já associadas a mulheres fogosas), répteis, aves ou homens, vemos em pleno vigor o gênio da observação, do “historiar” (recolher testemunhos de poetas, médicos, pescadores, camponeses) e  da experimentação direta, no esforço de constituir uma disciplina sistemática e científica de investigação da estrutura e comportamento das mais diversas espécies animais.
AVALIAÇÃO - ´ÓTIMO

CLIO
A História, dizia o herói joyceano perdido entre os dédalos e monstros da barbárie do século 20, é um pesadelo do qual desejamos despertar. Nos versos de Marco Lucchesi, “Clio” –nome da musa da História, filha de Zeus com a deusa da memória- é a experiência contraposta ao pesadelo em vigília que é a insônia.
 Os riscos, incertezas e naufrágios da aventura humana têm por referente objetivo o tempo “longíquo” das grandes navegações, e figuras tutelares do passado histórico, mítico e poético de Portugal (e nosso também, pois), como Camões e Dom Sebastião. Monarca sem arautos nem bandeira, “Rei de Algures e Nenhures”, o poeta, ----membro da Academia Brasileira de Letras-   declara que a “a superfície em que vou imerso / ela e não outra/ minha profundidade”, metáfora marítima que se prolonga na imagem da poesia como “mar vermelho do real”, espécie de milagre e travessia que porém afoga quem busca a promissão num mundo de angústias tão cerradas e difusas quanto uma noite de nuvens sem sinal de céu.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO
SOBRE O ESPÍRITO E A LETRA NA FILOSOFIA
“A letra mata, o espírito vivifica”: a tensão entre velha e nova aliança, nessa célebre declaração do apóstolo Paulo, ressoa séculos depois nas escaramuças do idealismo e do romantismo alemães em torno da relação entre arte-filosofia e da melhor interpretação e prosseguimento a se dar à revolução introduzida por Immanuel Kant.  Documento valioso nesse sentido é o livro de Fichte. 
Como explica o excelente aparato do tradutor  Ulisses Razzante Vaccari, trata-se de uma ofensiva  contra o que via como má assimilação de ideias de Kant e dele próprio por Schiller, a quem se dirige. O autor da “Doutrina-da-Ciência” aproveita também para aprofundar tópicos centrais de sua filosofia, como o estatuto da imaginação como estrutura mental essencial para a produção e recepção das  grande obras do espírito humano, sejam de arte, sejam de pensamento filosófico-científico. Ao “impulso lúdico” de Schiller, Fichte contrapõe o que não deixa de ser também convite a uma tomada de consciência estética da vida:  “a imaginação só pode ser apreendida pela imaginação”.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

Friday, March 27, 2015

o charco dos consolos mundanos

"Por que te debruçares a beber no charco dos consolos mundanos, se podes saciar a tua sede em águas que saltam para a vida eterna?"
JOSÉ MARIA ESCRIVÁ,
CAMINHO, 148

Wednesday, March 25, 2015

Permanece Conosco

Vem chegando a fase litúrgica mais poderosa e bela, pra mim, do calendário cristão. Aquela em que, atenuado o familismo e o consumismo que embaçam a relação da Sociedade com o Natal, é possível viver em maior profundeza e escuridão o sedutor mistério de Cristo, herói existencial, Sócrates da fé. Sócrates fez o escravo ver que sabia o que não sabia que sabia, e os senhores descobrirem que não sabiam o que achavam que sabiam. Cristo, por sua vez, transtorna noutras bases a hierarquia social do poder e do saber: a relação com a Verdade é tanto mais autêntica quanto mais pobre se é, não meramente por situação econômica, mas por despojamento de coração, capacidade de criancice criativa, sentir-se bem como e entre pequeninos, os enjeitados, os fodidos, os fora da ordem e do progresso. Ambos, Sócrates e Cristo, a filosofia e a fé, os ramos racional e espiritual de uma mesma Árvore evolucionária (um dos correlatos simbólicos da Cruz é a árvore) que nos abriga, a nós e aos passarinhos, ainda hoje, cada vez mais. Nos chamando à desalienação, nos convidando à escuta da voz da consciência, ao silêncio do inconsciente, nos energizando para, de posse da luz do universal, a travessia dos confrontos concretos, para a dialética de sentido e não sentido, de flor e náusea, cicuta dos sócrates e cruz dos cristos que se mortificam para a vida (renúncia às ilusões, denúncia das opressões, conciliação das oposições) para ressuscitarem da morte. Entre filosofia e fé, imantando as duas, vem a poesia. E com ela, o pedido pascal que Murilo Mendes faz para Deus e por nós, perto do "início dos trabalhos" da Semana Santa, no espírito de catolicismo sui generis, algo herético (a fé sem angústia é oca, e sem a dúvida é suicida ou assassina), dos versos de "Tentação":
Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo
“Já que és o Verdadeiro Filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”.
Libertação menos viável nos slogans e tumultos da História imediata, e mais nas lonjuras do nosso mais íntimo e estranho, atendidas as condições de recolhimento da pessoa à sua própria interioridade profunda. Não abandonada a si mesma num solipsismo egoísta em que a própria pessoa se deforma e ignora quem é, pois seu ser integral está em comunicação, por mais que tensa, com os outros e com o Outro. 
Na alteridade horizontal, importância do diálogo, nem que no silêncio simpatético da compaixão que irmana. Na alteridade ascensional, o peso decisivo do reaprender da oração como elevação da alma a Deus. Parafraseando Mt 7, 7, os Padres espirituais resumem as disposições do coração alimentado pela Palavra de Deus na oração: "Procurai pela leitura, e encontrareis meditando; batei orando, e vos será aberto pela contemplação" (Catecismo da Igreja Católica, 2654).
Assim o Filho de Deus nos desprega de nossa cruz. Ou quem sabe não, nos ensinando a, como Ele, aguentar firme, não apelar a pirotecnias milagreiras que impressionassem os incautos, restabelecessem certo "bem-estar" mas tornassem as feridas inúteis, porque não consumadas e cicatrizadas debaixo do túmulo em que brotaríamos pascais como o grão de trigo da vida nova.

Monday, March 23, 2015

Friday, March 20, 2015

a excelência e o charco


Escrevi as linhas a seguir no facebook no dia 12 de janeiro, sob o impacto da euforia que me tomou ao testemunhar, como que de joelhos, a procissão sagrada disfarçada de filme chamado "Whiplash". A perfomance de JK SImmons me fez torcer por ele no Oscar (que veio a ganhar)  com o fanatismo que uma seleção brasileira jamais suscitaria em mim. É que projeções de amor a gente quer que nos impulsionem pra além, não pra baixo, pra lama, pro charco da vergonha e da inércia em que soçobra este país em repugnante espiral declinante. Nas antípodas do ideal poderoso e implacável de excelência que este filme exala e exalta.
 Quis então compartilhar, como dizia o texto original, umas notas sobre o filme 'Whiplash' (que acaba de estrear em SP), dessa vez do prisma do conceito de maestria (Robert Greene), o conjunto de princípios e habilidades que psicólogos, filósofos, artistas testemunham serem universais na odisseia do desenvolvimento profissional. Sem me deter em detalhes específicos da história, nem muito menos entregar spoilers, vou pinçar traços comportamentais em geral, colhidos tanto do impiedoso professor e mestre do jazz Terence Fletcher (JK Simmons) quanto de seu aluno Andrew (Miles Teller):
1) O mestre muitas vezes vê no aluno o que outros não veem e nem mesmo o que o próprio aluno sabe de si. Pois o olhar do pedagogo não se fixa no que o pupilo "está", tampouco é complacente com os devaneios confusos da mera ambição adolescente; pressente o carvalho na semente, no talento incipiente, na esquisitice, na garra anormal do adolescente (de quem adolesce pra vida, não importa em que idade) que "podia tá matano, robano, coçano", mas tá treinando, sozinho, com suas escalas e limites, em luta consigo e contra si. 
2) O mestre à la Fletcher considera que qualquer imbecil poderia estar na frente de uma orquestra balançando os braços, mas raros querem o que ele, Fletcher quer do aluno porque também quer de si: o ir além do esperado e do mediano. 
3) O neófito será não só testado em suas habilidades técnicas, mas em sua sombra mais íntima. Será forçado a se ver no espelho de suas inferioridades, no caso de Andrew, tomará na cara não só tapas, mas "verdades" dolorosas sobre seu background pessoal e familiar. Ele está sendo chamado à "zona de morte" que estrategistas como Sun Tzu consideram essencial para que um exército dê tudo de si em nome da vitória, sem olhar para trás. Como Cortés quando afundou os navios espanhóis forçando sua tropa a ficar e lutar pela conquista do México, era matar ou morrer, sem alternativa confortável de recuar.
4) Tenha um arquétipo pessoal em vista, um modelo concreto de homem ou mulher com a virtude que você ambiciona moldar em si ou no seu discípulo, um "Charlie Parker" como sonhado pelo professor, um Buddy Rich como no retrato no quarto de casa em que Andrew ensaia obsessivamente.
5) Não deixe seu aluno (ou time) jamais descansar nos louros da vitória de hoje: crie situações novas de tensão, de competição interna, desestabilize-o no limite da insanidade: das duas uma, ou você acarretará no aluno o que Fletcher ironiza como sendo a "desmotivação" e desistência, e você terá poupado a história do "jazz" (a sua própria história, ou a de seu ramo de atividade que for) de uma fraude; ou terá dado mais passos no afloramento do gênio, que não veio a passeio, nem pra ser bonzinho com os outros nem consigo (aliás, repare na agressividade, egoísmo, inconformismo e até desonestidade, se julgarmos como moralistas, de certas posturas de Andrew).
6) Não dê desculpas, nem culpe os outros, por seus atrasos ou falhas. Pratique mais e não confie senão em si, ou na melhor versão possível de si, ainda não descoberta.
7) Pior que ter em "sua banda" um músico que esteja desafinando por incompetência ou até má intenção (de te sabotar), é ter um fracote que não sabe ou não tem a coragem de protestar que não era ele que estava desafinando.
8) Mestre e aluno vão se amar e se odiar como se fode um porco -imagem nada polida, e que não é minha, mas do professor, mostrando que mesmo nossas criações mais "sublimes", mesmo o refinamento de um show de jazz, trazem a marca eterna do interesse primal e primata do bicho homem.

faminto e louco


A peça As Moscas, de Sartre, que tive a honra de traduzir, nos apresenta na figura de Orestes o primeiro dos grandes heróis do existencialismo "engajado", espécie de alquimia entre senso pessoal de solidão e absurdo do indivíduo que se desalienou das ilusões sociais, por um lado, e, por outro, vontade de participação nos rumos coletivos, de reformá-los num sentido de resistência (esse mito político tão francês e reatualizado na passeata dos milhões em Paris neste domingo) ao Mal.
Não que se espere por paraísos terrícolas, isso é o que fazem as ideologias alienantes do consumismo capitalista e da idolatria comunista do rebanho. O que se quer é chutar abaixo as portas do inferno que os homens, tendo demitido Satanás, se encarregam com gosto de armar para si mesmos. Resistir e transformar apesar do que a sociedade tem e sempre terá de odioso, opressivo e hipócrita. 
Uma das passagens crucias da peça é quando Orestes proclama, contra o deus do remorso, da mentira e da morte, que "a vida humana começa do outro lado do desespero". Pois bem, é curioso como, para além da beleza dramática, esta proposição sobre a existência humana -a necessidade de não fugir nem contornar o desespero, mas passar através- se liga a preceitos muito antigos da doutrina militar universal. 
A existência, nos diz Sartre, é guerra, e os pensadores da guerra já pressentiam que a guerra é profundamente "existencial" no sentido do encontro do homem consigo mesmo e com seu desespero. Num sentido imediato, esses afetos negativos se ligam à náusea (título de romance sartriano famoso) que temos ante os horrores de choro, sangue, mutilação e morte no campo de batalha literal. Mas e quanto ao "outro lado" do desespero, lá onde a vida autêntica começa, mesmo quando é máximo o risco, na guerra, de que a vida mesma seja encerrada prematuramente?
Trata-se da chamada estratégia da zona da morte, o perigo absoluto e purificador, que faz eclodirem e se unificarem as energias mais profundas do ser vivente, que no dia-a-dia eram dispersas, pacatas, sonambúlicas. Daí o exercício dos monges de contemplação diuturna da ideia da morte (memento moris) não ser necessariamente sintoma mórbido de gente incapaz de fruir dos prazeres da vida. É no mínimo uma lição que, mesmo nós inconformados ao cárcere monacal, podemos fazer valer como estimulante para agir e agir agora. Não há tempo a perder, os enredamentos mesquinhos precisam ser eliminados. Você se torna um exército uno e assombroso a proteger a bandeira de sua paixão como o pai que, no filme "Contagem Regressiva" (The Hours), luta pela vida de sua recém-nascida filhote após a morte da esposa no parto e em plena catástrofe do Katrina. Você se torna "o faminto, o louco" que Steve Jobs exaltou na célebre conferência que deu pouco tempo antes de morrer. "O caminho do samurai", diz um livro de arte da guerra do Japão do século 17-18, "é em desespero. Dez homens ou mais não podem matar um homem assim. O bom-senso não fará grandes coisas. Simplesmente torne-se louco e desesperado".

Friday, March 13, 2015

andreía ou a avalanche dos macho-cados


Tomás (à esquerda) em fuga deixa pra trás esposa e filhos
Este fantástico filme "Força Maior" realiza (ou expõe, mais ou menos como Nietzsche foi mensageiro, não carrasco, no seu evangelho da morte de Deus) um verdadeiro strip-tease do imaginário da virilidade masculina, que para os gregos tinha o nome de andreía, e se referia especialmente ao guardião da Pólis, em cujos braços fortes e coração rijo a coletividade toda depositava a expectativa de proteção ante as ameaças do destino. Senão "chefe", o homem deveria ser o guardião da família. 
Não que homem não chore ou não tema, a andreía, como toda virtude, é paixão ordenada, é configuração imposta, é "esforço", pelo qual vamos além do imediatismo dos impulsos, abrindo caminho para o heroísmo ainda que modesto, familiar, de zelar pela segurança dos nossos entes queridos. 
Não é essa a atitude de Tomás, na fatídica "avalanche", literal e metafórica, que desaba interrompendo o que deveria ser um pacato almoço, quando muito incrementado pelo registro por celular daquele espetáculo da natureza, fascinante mas sob controle, queria acreditar o varão: "eles sabem o que fazem", diz enigmaticamente enquanto a família já entrava em pânico e queria se levantar e se afastar da encrenca. Quando o “controle” se revela uma ilusão, Tomás pula e foge feito gazela, deixando para trás os filhos e a esposa que chamavam por ele. 
Como diz uma charmosa companheira de noite escura do cinema, uma dessas ações “deal breakers”, grave ruptura de confiança por parte da esposa, avalanche devastadora para a unidade na cidade, ou no “time” da família (vejam a cena em que os quatro dormem “uniformizados”). O capitão do time, o líder, falhou miseravelmente, e esse é o ponto de partida do referido strip-tease do mito da andreía: 
“Andréia”, aliás, é o nome da amiga com quem a esposa conversa ao telefone antes de flagrá--lo num dos momentos dele de maior demonstração de fraqueza patética, passividade, ou, lembrando a “virtude” básica do viveiro tucano na fauna política corrupta de nosso atual cenário republicano, bunda-molismo. 
Não por acaso a corrupção grassa, na falta de guardiões firmes que expulsem não só os monstros externos que destroem a polis, mas a covardia e o egoísmo naturais, peso gravitacional e o terreno escorregadio da miséria humana, ante a qual é preciso, além de comando sobre nós mesmos e autoridade (não quer dizer autoritarismo) em xeque na era do declínio do "Macho-cado", ter a destreza dos grandes esquiadores, para não nos espatifarmos.

Sunday, March 08, 2015

walking cure


Que bom se fosse apenas ridículo, mas imaginem o sofrimento envolvido nisto: consta que nos lares das "Pessoas de Bem " da sociedade vitoriana, por vezes até os pés de piano eram revestidos de meiões, para não sugerirem pensamentos pecaminosos. A sexualidade amordaçada pela moral só podia "falar" pelos sintomas do corpo infeliz, sua sufocação e paralisia, sua obstrução e agonia. 
Não por acaso a primeira paciente da história da psicanálise, Anna O., foi quem -fazendo jus à sabedoria do analista, que é sobretudo a de dar vez e voz- genialmente metaforizou o método de Breuer e Freud como "limpeza de chaminé" ou ainda de uma "talking cure", cura pela fala. Devolver à palavra libertadora o que só falava pelas rachaduras e fumaça involuntària do mutismo psicológico sufocante. 
Também naquele fim de século corpos em revolta articulavam outra forma de dissensão. Contra a sociedade do desejo paralítico, que em suas pocilgas industriais nos amontoa, massifica e sedentariza, jovens inconformados se levantaram e puseram o pé na estrada, ou melhor, a caminho da floresta, da montanha. Nascia o movimento "Wandervogel", pássaro errante, que prefigurando beats e hippies, fez sua própria "Califórnia" alemã, contra-cultural, libertária, ecológica, com suas longas caminhadas e acampamentos expressando a vontade de reintegração à Natureza interna e externa.
Talking cure de Freud, walking cure de Nietzsche -não se admite, mas ele foi o primeiro dos pássaros errantes da contracultura, ao renunciar à indigência do eruditismo mofado e se pôr a caminho, escrevendo seus grandes livros ao sabor do suor de andarilho, como um "vagabundo iluminado" de romance de Kerouac, ou como outro dos boêmios do modernismo, James Joyce, que admitia": Não posso fazer parte da ordem social senão como um vagabundo", um "improdutivo" para os cânones da austeridade desses burgueses respeitáveis e seus sedentários pés de piano pudicamente revestidos de meiões. 
Já os pés de Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) são bem menos conformistas e amordaçados. Seja quando injetados (!) de heroína pelo amante drogado que ela arrumou nos tempos de sarjeta após a morte da mãe. Seja -e é disso que trata o filme "Livre" (Wild)- ao se levantar dessa sarjeta psíquica, tão atual: não mais a do desejo vitoriano reprimido e convertido em neurose, mas à da pulsão de morte libertina e descontrolada de nossa época de "dessublimação repressiva", termo do grande pensador frankfutiano Herbert Marcuse, também ele entusiasta, quando jovem, do movimento Wandervogel. Em "Wild", espécie de réplica feminina (mas sem a mesma densidade) de " Into the Wild" (Na Natureza Selvagem) de Sean Penn, a talking cure é nitidamente desprestigiada pela walking cure. 
O encontro de Cheryl com o psicólogo se mostra muito infecundo para fazê-la compreender o que só no élan de agir ficará claro como o suor que queima a escuridão: que a promiscuidade sexual e a heroína que ela injeta nos pés eram substitutos inócuos para a vontade de aventura, para a impetuosidade de heroína, que a chamava para outras paragens e outro tipo de risco: o de cruzar com pés feridos mas destemidos uma das trilhas mais rigorosas dos Estados Unidos, périplo com previsão de 3 meses e 1100 milhas de duração, e sujeita a toda (falta de) sorte de adversidades, nessa companhia íntima de nós mesmos que a vida alucinada das grandes metrópoles, e seus desejos vazios, e gozos descontrolados, dificultam como manchas que turvam a compreensão dos ritos de passagem que fazem da vida -como se descobre nesta aventura desta Wandervogel de asas heroínas e machucadas - tão sagrada, irrevogável e nossa.

desespero, sentido e sofrimento

A propósito de resiliência, o poder humano de resistir e transcender, com os recursos de sua alma, às condições objetivas mais opressivas, recebo este presente precioso de Regina Dorth: entrevista de um dos mais importantes nomes da psicologia moderna, célebre pela proposta terapêutica nascida da experiência pessoal da situação-limite de prisioneiro de um campo de concentração nazista. Olavo de Carvalho comenta, em "O Mínimo Que Você Precisa Saber para Não ser um Idiota", que o psiquiatra austríaco observou, no inferno de Theresienstadt, que "de todos os prisioneiros, os que melhor conservavam o autodomínio e a sanidade eram aqueles que tinham um forte senso de dever, de missão, de obrigação", seja por uma fé religiosa, pela esperança (como a do personagem de Gael, em "118 dias" ) de reencontrar a esposa fora da mas-morra ou por outra via qualquer de conexão com "sentido da vida", não como abstração teórica mas como amor, esse grande escudo contra o absurdo. Vejam a equação matemática de Frankl (tão mais interessante que os "matemas" áridos de um Lacan): D=S-M, ou traduzindo, "Desespero=Sofrimento-Significado", desespero como o estado de prostração decorrente não da violência em si, da perda em si, da derrota em si, mas de todo e qualquer sofrimento a que o homem não consiga contrapor a "salvação" pelo sentido. Ao contrário dos pessimistas à la Freud, Frank considerava que o homem não é um fantoche da civilização que, exposto à privação extrema, perderia a casca espiritual e manifestaria sua verdade de bicho. O que pode vir abaixo nas grandes crises, isso sim (discuto isso no meu mestrado sobre Sartre, também prisioneiro dos alemães) é sim a casca egoísta, absurda e sórdida, fazendo a larva prisioneira que éramos na civilização banal renascermos como anjo ou alma, psiquê, "borboleta" (símbolo grego usado pelo personagem principal de "Still Alice".

ainda Alice

Do "Still Alice" do original para o "Para Sempre Alice" da tradução brasileira, o título do belo filme de Richard Glatzer, que comentava ontem, perde muito de sua carga filosófica, por assim dizer. Pois o título verdadeiro (ainda Alice, apesar de tudo Alice) aponta para um drama de resistência, de perseverança da personagem de Julianne Moore em se manter quem é, contra o ataque do Alzheimer à instância psíquica crucial a que o ser humano se reconheça como um Eu: sua memória. "Para Sempre Alice" parece a decisão sentimental, no calor da emoção, que um espectador privilegiado (o responsável pela tradução) vem nos declarar: olhe, a história é triste, mas não se desesperem, ela será "para sempre Alice" no coração dos familiares ou no álbum recordações de Deus, quiçá. Mas, caindo das abstrações religiosas ou sentimentais para o campo da trágica realidade humana, i "pra sempre sempre acaba", como diria Renato Russo. Implacável tempo devorador de seus filhos, tempo tirano, contra o qual, justamente por não sermos eternos, é que lutamos e nos auto-afirmamos na "Resistência", quase no sentido político, do movimento de insurreição contra uma ORDEM (no duplo sentido de um estado de coisas ou de uma imposição de vontade alheia sobre a nossa, eu te ordeno que faça assim ou assado). Ainda no espírito de convites à experiência fílmica, mais que de resenhas em si, aproveito pra lhes indicar dois outros recentes lançamentos que falam do humano como o resistente porque existente (em sentido forte, "existencial", das criaturas para as quais existir resistir ao ser, é abandono no mundo, não sentido, é não saber a que será que se destina): um deles é 118 dias, em que um sempre espetacular Gael García Bernal faz um um jornalista iraniano, correspondente da norte-americana Newsweek em Londres, volta à terra natal para cobrir a fraudulenta, distorcida e opressiva (oi? lembram de alguns países latrinos?) reeleição do tirano na cobertura da reeleição de Mahmoud Ahmadinejad em 2009. Ao cobrir a revolta popular que se seguiu ao anúncio do resultado suspeito, o jornalista é capturado, isolado e torturado. Desce a um inferno contra o qual só lhe resta, como a Alice, lutar para não perder a esperança, intimamente associada, vemos no filme, à memória, no caso, a imagens do pai e da irmã já assassinados no passado, por motivos políticos, e à esposa grávida. O mais esquisito de todos os três dessa safra de filmes "resilientes" é "Blind", co-produção norueguesa e holandesa. Aqui a tragédia é, como em Alice, a da doença: a cegueira. Mas a trama, muito original, nos arranca menos terror e piedade do que a instigação intelectual de acompanhar os volteios da imaginação da protagonista. Ela se isola de tudo (não sai mais de casa) e de todos, a não ser do marido (comparem com o marido de Alice, ambos na delicadíssima situação de estarem casados com uma mulher que subitamente não mais "é a mesma" pela qual subiram ao altar). Mas, se a depressão espreita e chama para uma braço mortal na sua areia movediça, há aqui essa faculdade de existir, e de resistir, que é a de memórias forjadas (quais não o são?), do "recollecting" (o lembrar como um se recompor, se reagrupar) imaginativo que desafoga desejos, frustrações, "diversões" sádicas na forma que resta quando nada mais há a esperar do mundo senão (re) inventá-lo e (re) inventar-se, escritor cego, suportando a escuridão ao imaginar luzes que não há, reagindo à vida, lutando pela vida por mais que ela nos destrate, essa sina, assassina de sonhos, incubadora de outros.

uau-me


Por absurdos de nosso calendário cultural defasado, era ainda só a pré-estreia. Mas enfim consegui ver na telona "Para Sempre Alice", filme baseado na obra de Lisa Genova (vide imagem acima). Difícil não sair da experiencia impactado por aquele "uau-me" que basicamente é o que peço da vida pra não morrer nem de tédio nem de vodca, frase de Maiakóvski que era lema do pobre rapaz que se deixou levar pela letra e não pelo espírito da coisa, e se matou de beber. O "uau-me" é o que o homem arcaico pedia, não do álcool (ou não da bebida ensimesmada, sem contexto cerimonial), mas dos deuses, e recebia deles em forma de "mana", a energia sobrenatural encarnada em determinadas pedras, árvores, eventos, reis, em especial nos xamãs, ancestrais dos atores na arte de representar. Julianne tem desse mana xamanístico. 
Sua Alice, brilhante intelectual das palavras (linguista renomada), precocemente vitima da maldição do Alzheimer, que lhe vem dizimar justamente o pensar e o falar, também tem. e tem não apesar, mas também pela doença que a faz um personagem digno de virar ficção, e num desempenho artístico, nesse caso, digno do Oscar que de fato veio. E o prêmio definitivamente não foi só pelo habitual fascínio da Academia com personagens marcados pela doença terminal ou suficientemente incapacitante pra arrancar o ser humano da vida (rotineira) e fazer-lhe virar história, ou melhor, mito, encarnação pessoal de algo da tragédia universal, irrupção do sagrado, "mana", energia cósmica assombrosa, senão mesmo demoníaca, no sentido arcaico, que não distinguia claramente deus e diabo, o "divino" os abarca, está entranhado em tudo, até no que há de mais terrível da vida, não há "diabo" pra levar (nos é tão cômodo e conveniente esse tipo de bode expiatório, aliás) toda a culpa no lugar do bom Deus. A doença grave, até hoje "tabu" (termo também arcaico como o mana), por isso mesmo comporta altíssima voltagem de mana, é daquelas tragédias que "sacralizam", distinguem sua vítima em relação aos normais, assustam quem ainda não foi "pego" por esse demônio ou infortúnio, espanta como uma espécie de escândalo, revolta da natureza contra a natureza, da substância contra a forma, no corpo doente que se furta à lógica da autopreservação, se sabota, se empurra para a ruína. No Alzheimer, os escombros do que é da essência do que consideramos um "eu", a memória, fundamento de continuidade. Assistir Julianne Moore e sua Alice através do espelho (manchado por pasta de dente, a certa altura, bela e triste metáfora de sua identidade borrada pelo cancelamento da memória) deveria ser, não diversão a que o cidadão banal chega atrasado, enchendo o saco de quem força a deixá-lo passar e depois fazendo ruído ruminando suas "ideias" com sua pipoca sonífera. Deveria ser um cerimonial das antigas. Xamanístico. Transfusão de mana. Uau-me. Assim seja.

Sunday, March 01, 2015

Resenhas para a Folha - 28/ 02/ 2015


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de CAIO LIUDVIK
COMER
A picante acepção erótica  que a palavra “comer” assume em nossa língua é só um dos exemplos do banquete de proliferações metafóricas permitido pela experiência elementar da ingestão de alimentos sólidos. Esse é o tema do filósofo e historiador italiano Paolo Rossi neste ensaio. 
Evocando “O Cru e o Cozido”, de Lévi-Strauss, ele investiga o comer na sua dimensão de fronteira entre natureza e cultura, necessidade e desejo, banquete para o  imaginário humano. Entre os temas abordados,  a fome que ainda devasta milhões de seres humanos, os  “prazeres da carne” que articulam gula  e lascívia,  a fé (do jejum à eucaristia) e a mitologia, com seus vampiros e deuses devoradores, desde Saturno, arquétipo da melancolia, a “Ana” , afetuosa denominação do demônio da anorexia.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A DOUTRINA DA ARTE
Poeta e tradutor de Shakespeare, expoente, assim como o irmão Friedrich, da chamada Escola Romântica  - assim designada por volta de 1800-. August Schlegel dá ao movimento, com este livro de 1801, sua mais sistemática tomada de consciência doutrinária, calcada aqui no protagonismo da poesia não como uma arte entre outras, mas fundamento de todas. 
Porque sistemático, um discurso que destoa dos traços mais tipicamente associados aos românticos, como o fragmentário e o irracional. O livro entrou para a história também como matriz de um gênero, o da “filosofia da arte”,  de que Schelling e Hegel são tributários diretos. Mais uma grande contribuição de Marco Aurélio Werle , professor de filosofia na USP e, na linhagem de Márcio Suzuki e Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor acadêmico de gigantes da filosofia e da literatura alemãs.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO
CACHORRAS
Na mitologia grega, Hécate é a divindade das trevas que, na forma de cão, assombra as encruzilhadas acompanhada de sua matilha infernal.  No novo romance do escritor e jornalista Claufe Rodrigues, as “cachorras” são os monstros da angústia, depressão e estagnação a que um ex-músico famoso sucumbe, auto-exilado numa cidade pequena do Brasil, remoendo, numa vida de zumbi, as dores da abrupta partida de sua mulher, um ano atrás. Ao seu encontro vai um colega de banda, cuja guinada para uma carreira comercial é a deixa para saborosas reflexões sobre o showbizz e a indústria cultural. Também poeta, Rodrigues se mostra dono de uma prosa envolvente, num livro com virtudes para virar filme  (a ideia original, ele conta, lhe ocorreu como roteiro).
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

RESTINGA
Graças ao conto “Violeta”, incluído nesta coletânea de estreia, Miguel Del Castillo  foi apontado pela revista “Granta” como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros. E o livro como um todo não destoa em relação à ótima impressão deixada por aquela narrativa, centrada nas repercussões íntimas e familiares do desaparecimento sem rastros de um ativista da resistência à ditadura uruguaia.
Formado em arquitetura, o escritor carioca nos brinda com uma prosa de intensa imaginação visual, que não enche linguiça e sim potencializa, na concretude das imagens naturais, valências simbólicas sutis. É assim, por exemplo no conto que dá título à obra: a restinga de Marambaia,  que uma mãe doente terminal quer conhecer, nos sugere, em seu braço de terra estendido sobre as águas, a  delicadeza precária da vida à beira do infome.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

EXISTE E ESTÁ AQUI E ENTÃO ACABA
O Réveillon nas areias cariocas, pelas cenas de alegria vazia, imundície e vulgaridade que testemunhou, não foi o que trouxe um efetivo “ano novo” para a vida enfastiada do professor de literatura que protagoniza o novo romance de Roberto Taddei.  A transformação veio é da viagem que vem tirá-lo dos confortos da “civilização”.
 Vai para uma pequena cidade do interior de Pernambuco para rever um amigo e dar um curso–e não por acaso, versando sobre obras como a “Odisseia” e a “Divina Comédia”, que, ao sabor agreste das descobertas insólitas que vão acontecer, acentuam o valor arquetípico (já não como insípido chavão literário) da  viagem como deslocamento espacial e interior propício a desbravar o desconhecido e “desesquecer” (sentido da palavra grega para a verdade, aleteia) o originário. 
AVALIAÇÃO – ÓTIMO