sábado, março 21, 2015

a excelência e o charco


Escrevi as linhas a seguir no facebook no dia 12 de janeiro, sob o impacto da euforia que me tomou ao testemunhar, como que de joelhos, a procissão sagrada disfarçada de filme chamado "Whiplash". A perfomance de JK SImmons me fez torcer por ele no Oscar (que veio a ganhar)  com o fanatismo que uma seleção brasileira jamais suscitaria em mim. É que projeções de amor a gente quer que nos impulsionem pra além, não pra baixo, pra lama, pro charco da vergonha e da inércia em que soçobra este país em repugnante espiral declinante. Nas antípodas do ideal poderoso e implacável de excelência que este filme exala e exalta.
 Quis então compartilhar, como dizia o texto original, umas notas sobre o filme 'Whiplash' (que acaba de estrear em SP), dessa vez do prisma do conceito de maestria (Robert Greene), o conjunto de princípios e habilidades que psicólogos, filósofos, artistas testemunham serem universais na odisseia do desenvolvimento profissional. Sem me deter em detalhes específicos da história, nem muito menos entregar spoilers, vou pinçar traços comportamentais em geral, colhidos tanto do impiedoso professor e mestre do jazz Terence Fletcher (JK Simmons) quanto de seu aluno Andrew (Miles Teller):
1) O mestre muitas vezes vê no aluno o que outros não veem e nem mesmo o que o próprio aluno sabe de si. Pois o olhar do pedagogo não se fixa no que o pupilo "está", tampouco é complacente com os devaneios confusos da mera ambição adolescente; pressente o carvalho na semente, no talento incipiente, na esquisitice, na garra anormal do adolescente (de quem adolesce pra vida, não importa em que idade) que "podia tá matano, robano, coçano", mas tá treinando, sozinho, com suas escalas e limites, em luta consigo e contra si. 
2) O mestre à la Fletcher considera que qualquer imbecil poderia estar na frente de uma orquestra balançando os braços, mas raros querem o que ele, Fletcher quer do aluno porque também quer de si: o ir além do esperado e do mediano. 
3) O neófito será não só testado em suas habilidades técnicas, mas em sua sombra mais íntima. Será forçado a se ver no espelho de suas inferioridades, no caso de Andrew, tomará na cara não só tapas, mas "verdades" dolorosas sobre seu background pessoal e familiar. Ele está sendo chamado à "zona de morte" que estrategistas como Sun Tzu consideram essencial para que um exército dê tudo de si em nome da vitória, sem olhar para trás. Como Cortés quando afundou os navios espanhóis forçando sua tropa a ficar e lutar pela conquista do México, era matar ou morrer, sem alternativa confortável de recuar.
4) Tenha um arquétipo pessoal em vista, um modelo concreto de homem ou mulher com a virtude que você ambiciona moldar em si ou no seu discípulo, um "Charlie Parker" como sonhado pelo professor, um Buddy Rich como no retrato no quarto de casa em que Andrew ensaia obsessivamente.
5) Não deixe seu aluno (ou time) jamais descansar nos louros da vitória de hoje: crie situações novas de tensão, de competição interna, desestabilize-o no limite da insanidade: das duas uma, ou você acarretará no aluno o que Fletcher ironiza como sendo a "desmotivação" e desistência, e você terá poupado a história do "jazz" (a sua própria história, ou a de seu ramo de atividade que for) de uma fraude; ou terá dado mais passos no afloramento do gênio, que não veio a passeio, nem pra ser bonzinho com os outros nem consigo (aliás, repare na agressividade, egoísmo, inconformismo e até desonestidade, se julgarmos como moralistas, de certas posturas de Andrew).
6) Não dê desculpas, nem culpe os outros, por seus atrasos ou falhas. Pratique mais e não confie senão em si, ou na melhor versão possível de si, ainda não descoberta.
7) Pior que ter em "sua banda" um músico que esteja desafinando por incompetência ou até má intenção (de te sabotar), é ter um fracote que não sabe ou não tem a coragem de protestar que não era ele que estava desafinando.
8) Mestre e aluno vão se amar e se odiar como se fode um porco -imagem nada polida, e que não é minha, mas do professor, mostrando que mesmo nossas criações mais "sublimes", mesmo o refinamento de um show de jazz, trazem a marca eterna do interesse primal e primata do bicho homem.