Friday, March 13, 2015

andreía ou a avalanche dos macho-cados


Tomás (à esquerda) em fuga deixa pra trás esposa e filhos
Este fantástico filme "Força Maior" realiza (ou expõe, mais ou menos como Nietzsche foi mensageiro, não carrasco, no seu evangelho da morte de Deus) um verdadeiro strip-tease do imaginário da virilidade masculina, que para os gregos tinha o nome de andreía, e se referia especialmente ao guardião da Pólis, em cujos braços fortes e coração rijo a coletividade toda depositava a expectativa de proteção ante as ameaças do destino. Senão "chefe", o homem deveria ser o guardião da família. 
Não que homem não chore ou não tema, a andreía, como toda virtude, é paixão ordenada, é configuração imposta, é "esforço", pelo qual vamos além do imediatismo dos impulsos, abrindo caminho para o heroísmo ainda que modesto, familiar, de zelar pela segurança dos nossos entes queridos. 
Não é essa a atitude de Tomás, na fatídica "avalanche", literal e metafórica, que desaba interrompendo o que deveria ser um pacato almoço, quando muito incrementado pelo registro por celular daquele espetáculo da natureza, fascinante mas sob controle, queria acreditar o varão: "eles sabem o que fazem", diz enigmaticamente enquanto a família já entrava em pânico e queria se levantar e se afastar da encrenca. Quando o “controle” se revela uma ilusão, Tomás pula e foge feito gazela, deixando para trás os filhos e a esposa que chamavam por ele. 
Como diz uma charmosa companheira de noite escura do cinema, uma dessas ações “deal breakers”, grave ruptura de confiança por parte da esposa, avalanche devastadora para a unidade na cidade, ou no “time” da família (vejam a cena em que os quatro dormem “uniformizados”). O capitão do time, o líder, falhou miseravelmente, e esse é o ponto de partida do referido strip-tease do mito da andreía: 
“Andréia”, aliás, é o nome da amiga com quem a esposa conversa ao telefone antes de flagrá--lo num dos momentos dele de maior demonstração de fraqueza patética, passividade, ou, lembrando a “virtude” básica do viveiro tucano na fauna política corrupta de nosso atual cenário republicano, bunda-molismo. 
Não por acaso a corrupção grassa, na falta de guardiões firmes que expulsem não só os monstros externos que destroem a polis, mas a covardia e o egoísmo naturais, peso gravitacional e o terreno escorregadio da miséria humana, ante a qual é preciso, além de comando sobre nós mesmos e autoridade (não quer dizer autoritarismo) em xeque na era do declínio do "Macho-cado", ter a destreza dos grandes esquiadores, para não nos espatifarmos.