Sunday, March 08, 2015

desespero, sentido e sofrimento

A propósito de resiliência, o poder humano de resistir e transcender, com os recursos de sua alma, às condições objetivas mais opressivas, recebo este presente precioso de Regina Dorth: entrevista de um dos mais importantes nomes da psicologia moderna, célebre pela proposta terapêutica nascida da experiência pessoal da situação-limite de prisioneiro de um campo de concentração nazista. Olavo de Carvalho comenta, em "O Mínimo Que Você Precisa Saber para Não ser um Idiota", que o psiquiatra austríaco observou, no inferno de Theresienstadt, que "de todos os prisioneiros, os que melhor conservavam o autodomínio e a sanidade eram aqueles que tinham um forte senso de dever, de missão, de obrigação", seja por uma fé religiosa, pela esperança (como a do personagem de Gael, em "118 dias" ) de reencontrar a esposa fora da mas-morra ou por outra via qualquer de conexão com "sentido da vida", não como abstração teórica mas como amor, esse grande escudo contra o absurdo. Vejam a equação matemática de Frankl (tão mais interessante que os "matemas" áridos de um Lacan): D=S-M, ou traduzindo, "Desespero=Sofrimento-Significado", desespero como o estado de prostração decorrente não da violência em si, da perda em si, da derrota em si, mas de todo e qualquer sofrimento a que o homem não consiga contrapor a "salvação" pelo sentido. Ao contrário dos pessimistas à la Freud, Frank considerava que o homem não é um fantoche da civilização que, exposto à privação extrema, perderia a casca espiritual e manifestaria sua verdade de bicho. O que pode vir abaixo nas grandes crises, isso sim (discuto isso no meu mestrado sobre Sartre, também prisioneiro dos alemães) é sim a casca egoísta, absurda e sórdida, fazendo a larva prisioneira que éramos na civilização banal renascermos como anjo ou alma, psiquê, "borboleta" (símbolo grego usado pelo personagem principal de "Still Alice".