sábado, março 21, 2015

faminto e louco


A peça As Moscas, de Sartre, que tive a honra de traduzir, nos apresenta na figura de Orestes o primeiro dos grandes heróis do existencialismo "engajado", espécie de alquimia entre senso pessoal de solidão e absurdo do indivíduo que se desalienou das ilusões sociais, por um lado, e, por outro, vontade de participação nos rumos coletivos, de reformá-los num sentido de resistência (esse mito político tão francês e reatualizado na passeata dos milhões em Paris neste domingo) ao Mal.
Não que se espere por paraísos terrícolas, isso é o que fazem as ideologias alienantes do consumismo capitalista e da idolatria comunista do rebanho. O que se quer é chutar abaixo as portas do inferno que os homens, tendo demitido Satanás, se encarregam com gosto de armar para si mesmos. Resistir e transformar apesar do que a sociedade tem e sempre terá de odioso, opressivo e hipócrita. 
Uma das passagens crucias da peça é quando Orestes proclama, contra o deus do remorso, da mentira e da morte, que "a vida humana começa do outro lado do desespero". Pois bem, é curioso como, para além da beleza dramática, esta proposição sobre a existência humana -a necessidade de não fugir nem contornar o desespero, mas passar através- se liga a preceitos muito antigos da doutrina militar universal. 
A existência, nos diz Sartre, é guerra, e os pensadores da guerra já pressentiam que a guerra é profundamente "existencial" no sentido do encontro do homem consigo mesmo e com seu desespero. Num sentido imediato, esses afetos negativos se ligam à náusea (título de romance sartriano famoso) que temos ante os horrores de choro, sangue, mutilação e morte no campo de batalha literal. Mas e quanto ao "outro lado" do desespero, lá onde a vida autêntica começa, mesmo quando é máximo o risco, na guerra, de que a vida mesma seja encerrada prematuramente?
Trata-se da chamada estratégia da zona da morte, o perigo absoluto e purificador, que faz eclodirem e se unificarem as energias mais profundas do ser vivente, que no dia-a-dia eram dispersas, pacatas, sonambúlicas. Daí o exercício dos monges de contemplação diuturna da ideia da morte (memento moris) não ser necessariamente sintoma mórbido de gente incapaz de fruir dos prazeres da vida. É no mínimo uma lição que, mesmo nós inconformados ao cárcere monacal, podemos fazer valer como estimulante para agir e agir agora. Não há tempo a perder, os enredamentos mesquinhos precisam ser eliminados. Você se torna um exército uno e assombroso a proteger a bandeira de sua paixão como o pai que, no filme "Contagem Regressiva" (The Hours), luta pela vida de sua recém-nascida filhote após a morte da esposa no parto e em plena catástrofe do Katrina. Você se torna "o faminto, o louco" que Steve Jobs exaltou na célebre conferência que deu pouco tempo antes de morrer. "O caminho do samurai", diz um livro de arte da guerra do Japão do século 17-18, "é em desespero. Dez homens ou mais não podem matar um homem assim. O bom-senso não fará grandes coisas. Simplesmente torne-se louco e desesperado".