Wednesday, March 25, 2015

Permanece Conosco

Vem chegando a fase litúrgica mais poderosa e bela, pra mim, do calendário cristão. Aquela em que, atenuado o familismo e o consumismo que embaçam a relação da Sociedade com o Natal, é possível viver em maior profundeza e escuridão o sedutor mistério de Cristo, herói existencial, Sócrates da fé. Sócrates fez o escravo ver que sabia o que não sabia que sabia, e os senhores descobrirem que não sabiam o que achavam que sabiam. Cristo, por sua vez, transtorna noutras bases a hierarquia social do poder e do saber: a relação com a Verdade é tanto mais autêntica quanto mais pobre se é, não meramente por situação econômica, mas por despojamento de coração, capacidade de criancice criativa, sentir-se bem como e entre pequeninos, os enjeitados, os fodidos, os fora da ordem e do progresso. Ambos, Sócrates e Cristo, a filosofia e a fé, os ramos racional e espiritual de uma mesma Árvore evolucionária (um dos correlatos simbólicos da Cruz é a árvore) que nos abriga, a nós e aos passarinhos, ainda hoje, cada vez mais. Nos chamando à desalienação, nos convidando à escuta da voz da consciência, ao silêncio do inconsciente, nos energizando para, de posse da luz do universal, a travessia dos confrontos concretos, para a dialética de sentido e não sentido, de flor e náusea, cicuta dos sócrates e cruz dos cristos que se mortificam para a vida (renúncia às ilusões, denúncia das opressões, conciliação das oposições) para ressuscitarem da morte. Entre filosofia e fé, imantando as duas, vem a poesia. E com ela, o pedido pascal que Murilo Mendes faz para Deus e por nós, perto do "início dos trabalhos" da Semana Santa, no espírito de catolicismo sui generis, algo herético (a fé sem angústia é oca, e sem a dúvida é suicida ou assassina), dos versos de "Tentação":
Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo
“Já que és o Verdadeiro Filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”.
Libertação menos viável nos slogans e tumultos da História imediata, e mais nas lonjuras do nosso mais íntimo e estranho, atendidas as condições de recolhimento da pessoa à sua própria interioridade profunda. Não abandonada a si mesma num solipsismo egoísta em que a própria pessoa se deforma e ignora quem é, pois seu ser integral está em comunicação, por mais que tensa, com os outros e com o Outro. 
Na alteridade horizontal, importância do diálogo, nem que no silêncio simpatético da compaixão que irmana. Na alteridade ascensional, o peso decisivo do reaprender da oração como elevação da alma a Deus. Parafraseando Mt 7, 7, os Padres espirituais resumem as disposições do coração alimentado pela Palavra de Deus na oração: "Procurai pela leitura, e encontrareis meditando; batei orando, e vos será aberto pela contemplação" (Catecismo da Igreja Católica, 2654).
Assim o Filho de Deus nos desprega de nossa cruz. Ou quem sabe não, nos ensinando a, como Ele, aguentar firme, não apelar a pirotecnias milagreiras que impressionassem os incautos, restabelecessem certo "bem-estar" mas tornassem as feridas inúteis, porque não consumadas e cicatrizadas debaixo do túmulo em que brotaríamos pascais como o grão de trigo da vida nova.