Sunday, March 01, 2015

Resenhas para a Folha - 28/ 02/ 2015


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de CAIO LIUDVIK
COMER
A picante acepção erótica  que a palavra “comer” assume em nossa língua é só um dos exemplos do banquete de proliferações metafóricas permitido pela experiência elementar da ingestão de alimentos sólidos. Esse é o tema do filósofo e historiador italiano Paolo Rossi neste ensaio. 
Evocando “O Cru e o Cozido”, de Lévi-Strauss, ele investiga o comer na sua dimensão de fronteira entre natureza e cultura, necessidade e desejo, banquete para o  imaginário humano. Entre os temas abordados,  a fome que ainda devasta milhões de seres humanos, os  “prazeres da carne” que articulam gula  e lascívia,  a fé (do jejum à eucaristia) e a mitologia, com seus vampiros e deuses devoradores, desde Saturno, arquétipo da melancolia, a “Ana” , afetuosa denominação do demônio da anorexia.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A DOUTRINA DA ARTE
Poeta e tradutor de Shakespeare, expoente, assim como o irmão Friedrich, da chamada Escola Romântica  - assim designada por volta de 1800-. August Schlegel dá ao movimento, com este livro de 1801, sua mais sistemática tomada de consciência doutrinária, calcada aqui no protagonismo da poesia não como uma arte entre outras, mas fundamento de todas. 
Porque sistemático, um discurso que destoa dos traços mais tipicamente associados aos românticos, como o fragmentário e o irracional. O livro entrou para a história também como matriz de um gênero, o da “filosofia da arte”,  de que Schelling e Hegel são tributários diretos. Mais uma grande contribuição de Marco Aurélio Werle , professor de filosofia na USP e, na linhagem de Márcio Suzuki e Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor acadêmico de gigantes da filosofia e da literatura alemãs.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO
CACHORRAS
Na mitologia grega, Hécate é a divindade das trevas que, na forma de cão, assombra as encruzilhadas acompanhada de sua matilha infernal.  No novo romance do escritor e jornalista Claufe Rodrigues, as “cachorras” são os monstros da angústia, depressão e estagnação a que um ex-músico famoso sucumbe, auto-exilado numa cidade pequena do Brasil, remoendo, numa vida de zumbi, as dores da abrupta partida de sua mulher, um ano atrás. Ao seu encontro vai um colega de banda, cuja guinada para uma carreira comercial é a deixa para saborosas reflexões sobre o showbizz e a indústria cultural. Também poeta, Rodrigues se mostra dono de uma prosa envolvente, num livro com virtudes para virar filme  (a ideia original, ele conta, lhe ocorreu como roteiro).
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

RESTINGA
Graças ao conto “Violeta”, incluído nesta coletânea de estreia, Miguel Del Castillo  foi apontado pela revista “Granta” como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros. E o livro como um todo não destoa em relação à ótima impressão deixada por aquela narrativa, centrada nas repercussões íntimas e familiares do desaparecimento sem rastros de um ativista da resistência à ditadura uruguaia.
Formado em arquitetura, o escritor carioca nos brinda com uma prosa de intensa imaginação visual, que não enche linguiça e sim potencializa, na concretude das imagens naturais, valências simbólicas sutis. É assim, por exemplo no conto que dá título à obra: a restinga de Marambaia,  que uma mãe doente terminal quer conhecer, nos sugere, em seu braço de terra estendido sobre as águas, a  delicadeza precária da vida à beira do infome.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

EXISTE E ESTÁ AQUI E ENTÃO ACABA
O Réveillon nas areias cariocas, pelas cenas de alegria vazia, imundície e vulgaridade que testemunhou, não foi o que trouxe um efetivo “ano novo” para a vida enfastiada do professor de literatura que protagoniza o novo romance de Roberto Taddei.  A transformação veio é da viagem que vem tirá-lo dos confortos da “civilização”.
 Vai para uma pequena cidade do interior de Pernambuco para rever um amigo e dar um curso–e não por acaso, versando sobre obras como a “Odisseia” e a “Divina Comédia”, que, ao sabor agreste das descobertas insólitas que vão acontecer, acentuam o valor arquetípico (já não como insípido chavão literário) da  viagem como deslocamento espacial e interior propício a desbravar o desconhecido e “desesquecer” (sentido da palavra grega para a verdade, aleteia) o originário. 
AVALIAÇÃO – ÓTIMO