Saturday, March 28, 2015

Resenhas para a Folha, 28/03/2015

FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA- LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de CAIO LIUDVIK


NOBRES SELVAGENS
“Noble savage” é uma das formas de tradução, em inglês, do célebre mito do “bom selvagem” associado a Rousseau. Mas o propósito de Chagnon com este título não deixa de ser a ironia. Polêmico expoente da antropologia,  ele conta em linguagem atraente sua experiência com ianomâmis de Brasil e Venezuela. E desnuda sem dó os totens e tabus de sua própria “tribo”, acadêmicos e ativistas que sustentam (e sobretudo se sustentam com) a causa indígena com base em fetiches como o índio pacífico, só desvirtuado pelos malvados ocidentais, e um conceito de “cultura” com que, em fúria santa que lembra os criacionistas mais fanáticos, os cientistas sociais tentam fazer do homem social um demiurgo de si mesmo, livre e soberano, sem a influência “mesquinha” de suas origens biológicas.
Algo que  o antropólogo norte-americano (descendente mais de Hobbes que de Rousseau)  valoriza ao discutir a transição do estado de natureza à civilização, e a rivalidade pelas mulheres e o peso da seleção genética nas regras de conflito e solidariedade social.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

COMENTÁRIO SOBRE A ‘REPÚBLICA’
Este livro de Averróis (1126-1198)  é um desafio  em tempos de inflação do estereótipo de um “choque de civilizações” entre Islã e Ocidente.   Vem relembrar conexões de fundo sob aparentes abismos de heterogeneidade hostil. De papel crucial, na Idade Média,  na tomada de consciência do Ocidente sobre sua própria tradição grega, a filosofia islâmica tem entre seus maiores expoentes o “Comentador” –como Averróis ficou conhecido por suas leituras  de Aristóteles.
 Aqui ele se volta  para o pensamento político de Platão, bem verdade que numa versão mediada pela doutrina aristotélica das virtudes exigidas do governante e do cidadão. Discutindo também vícios e virtudes de diversos tipos de regime, Averróis busca na doutrina do “rei-filósofo” –que Popper considera um dos maiores inimigos das “sociedades abertas” - respaldo para uma reforma das sociedades islâmicas. Não à base de terror cego, mas articulando fé e razão na “Umma”, comunidade sagrada a ser realizada à luz dos ensinamentos e  exemplo moral de Muhammad.   
AVALIAÇÃO -ÓTIMO 

HISTÓRIA DOS ANIMAIS
“Quando pensamos que antes de Aristóteles não houvera, pelo que sabemos, biologia além de observações esparsas, percebemos que este empreendimento por si só deveria ter sido suficiente para uma vida e teria dado a imortalidade. Mas Aristóteles estava apenas começando”- e sua metafísica surgiu de sua biologia. Quem o diz é Will Durant, dimensionando a importância  de “História dos Animais”. 
A zoologia ali apresentada talvez não seja confiável para o vestibular. Mas é inspiradora para todo biólogo ou leitor tocado pelo “espanto” (nutriz da curiosidade filosófica) da complexidade da vida. Sejam éguas (que ele, em momento de pouca correção política, lembra terem sido já associadas a mulheres fogosas), répteis, aves ou homens, vemos em pleno vigor o gênio da observação, do “historiar” (recolher testemunhos de poetas, médicos, pescadores, camponeses) e  da experimentação direta, no esforço de constituir uma disciplina sistemática e científica de investigação da estrutura e comportamento das mais diversas espécies animais.
AVALIAÇÃO - ´ÓTIMO

CLIO
A História, dizia o herói joyceano perdido entre os dédalos e monstros da barbárie do século 20, é um pesadelo do qual desejamos despertar. Nos versos de Marco Lucchesi, “Clio” –nome da musa da História, filha de Zeus com a deusa da memória- é a experiência contraposta ao pesadelo em vigília que é a insônia.
 Os riscos, incertezas e naufrágios da aventura humana têm por referente objetivo o tempo “longíquo” das grandes navegações, e figuras tutelares do passado histórico, mítico e poético de Portugal (e nosso também, pois), como Camões e Dom Sebastião. Monarca sem arautos nem bandeira, “Rei de Algures e Nenhures”, o poeta, ----membro da Academia Brasileira de Letras-   declara que a “a superfície em que vou imerso / ela e não outra/ minha profundidade”, metáfora marítima que se prolonga na imagem da poesia como “mar vermelho do real”, espécie de milagre e travessia que porém afoga quem busca a promissão num mundo de angústias tão cerradas e difusas quanto uma noite de nuvens sem sinal de céu.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO
SOBRE O ESPÍRITO E A LETRA NA FILOSOFIA
“A letra mata, o espírito vivifica”: a tensão entre velha e nova aliança, nessa célebre declaração do apóstolo Paulo, ressoa séculos depois nas escaramuças do idealismo e do romantismo alemães em torno da relação entre arte-filosofia e da melhor interpretação e prosseguimento a se dar à revolução introduzida por Immanuel Kant.  Documento valioso nesse sentido é o livro de Fichte. 
Como explica o excelente aparato do tradutor  Ulisses Razzante Vaccari, trata-se de uma ofensiva  contra o que via como má assimilação de ideias de Kant e dele próprio por Schiller, a quem se dirige. O autor da “Doutrina-da-Ciência” aproveita também para aprofundar tópicos centrais de sua filosofia, como o estatuto da imaginação como estrutura mental essencial para a produção e recepção das  grande obras do espírito humano, sejam de arte, sejam de pensamento filosófico-científico. Ao “impulso lúdico” de Schiller, Fichte contrapõe o que não deixa de ser também convite a uma tomada de consciência estética da vida:  “a imaginação só pode ser apreendida pela imaginação”.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO