domingo, março 08, 2015

uau-me


Por absurdos de nosso calendário cultural defasado, era ainda só a pré-estreia. Mas enfim consegui ver na telona "Para Sempre Alice", filme baseado na obra de Lisa Genova (vide imagem acima). Difícil não sair da experiencia impactado por aquele "uau-me" que basicamente é o que peço da vida pra não morrer nem de tédio nem de vodca, frase de Maiakóvski que era lema do pobre rapaz que se deixou levar pela letra e não pelo espírito da coisa, e se matou de beber. O "uau-me" é o que o homem arcaico pedia, não do álcool (ou não da bebida ensimesmada, sem contexto cerimonial), mas dos deuses, e recebia deles em forma de "mana", a energia sobrenatural encarnada em determinadas pedras, árvores, eventos, reis, em especial nos xamãs, ancestrais dos atores na arte de representar. Julianne tem desse mana xamanístico. 
Sua Alice, brilhante intelectual das palavras (linguista renomada), precocemente vitima da maldição do Alzheimer, que lhe vem dizimar justamente o pensar e o falar, também tem. e tem não apesar, mas também pela doença que a faz um personagem digno de virar ficção, e num desempenho artístico, nesse caso, digno do Oscar que de fato veio. E o prêmio definitivamente não foi só pelo habitual fascínio da Academia com personagens marcados pela doença terminal ou suficientemente incapacitante pra arrancar o ser humano da vida (rotineira) e fazer-lhe virar história, ou melhor, mito, encarnação pessoal de algo da tragédia universal, irrupção do sagrado, "mana", energia cósmica assombrosa, senão mesmo demoníaca, no sentido arcaico, que não distinguia claramente deus e diabo, o "divino" os abarca, está entranhado em tudo, até no que há de mais terrível da vida, não há "diabo" pra levar (nos é tão cômodo e conveniente esse tipo de bode expiatório, aliás) toda a culpa no lugar do bom Deus. A doença grave, até hoje "tabu" (termo também arcaico como o mana), por isso mesmo comporta altíssima voltagem de mana, é daquelas tragédias que "sacralizam", distinguem sua vítima em relação aos normais, assustam quem ainda não foi "pego" por esse demônio ou infortúnio, espanta como uma espécie de escândalo, revolta da natureza contra a natureza, da substância contra a forma, no corpo doente que se furta à lógica da autopreservação, se sabota, se empurra para a ruína. No Alzheimer, os escombros do que é da essência do que consideramos um "eu", a memória, fundamento de continuidade. Assistir Julianne Moore e sua Alice através do espelho (manchado por pasta de dente, a certa altura, bela e triste metáfora de sua identidade borrada pelo cancelamento da memória) deveria ser, não diversão a que o cidadão banal chega atrasado, enchendo o saco de quem força a deixá-lo passar e depois fazendo ruído ruminando suas "ideias" com sua pipoca sonífera. Deveria ser um cerimonial das antigas. Xamanístico. Transfusão de mana. Uau-me. Assim seja.