Sunday, March 08, 2015

walking cure


Que bom se fosse apenas ridículo, mas imaginem o sofrimento envolvido nisto: consta que nos lares das "Pessoas de Bem " da sociedade vitoriana, por vezes até os pés de piano eram revestidos de meiões, para não sugerirem pensamentos pecaminosos. A sexualidade amordaçada pela moral só podia "falar" pelos sintomas do corpo infeliz, sua sufocação e paralisia, sua obstrução e agonia. 
Não por acaso a primeira paciente da história da psicanálise, Anna O., foi quem -fazendo jus à sabedoria do analista, que é sobretudo a de dar vez e voz- genialmente metaforizou o método de Breuer e Freud como "limpeza de chaminé" ou ainda de uma "talking cure", cura pela fala. Devolver à palavra libertadora o que só falava pelas rachaduras e fumaça involuntària do mutismo psicológico sufocante. 
Também naquele fim de século corpos em revolta articulavam outra forma de dissensão. Contra a sociedade do desejo paralítico, que em suas pocilgas industriais nos amontoa, massifica e sedentariza, jovens inconformados se levantaram e puseram o pé na estrada, ou melhor, a caminho da floresta, da montanha. Nascia o movimento "Wandervogel", pássaro errante, que prefigurando beats e hippies, fez sua própria "Califórnia" alemã, contra-cultural, libertária, ecológica, com suas longas caminhadas e acampamentos expressando a vontade de reintegração à Natureza interna e externa.
Talking cure de Freud, walking cure de Nietzsche -não se admite, mas ele foi o primeiro dos pássaros errantes da contracultura, ao renunciar à indigência do eruditismo mofado e se pôr a caminho, escrevendo seus grandes livros ao sabor do suor de andarilho, como um "vagabundo iluminado" de romance de Kerouac, ou como outro dos boêmios do modernismo, James Joyce, que admitia": Não posso fazer parte da ordem social senão como um vagabundo", um "improdutivo" para os cânones da austeridade desses burgueses respeitáveis e seus sedentários pés de piano pudicamente revestidos de meiões. 
Já os pés de Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) são bem menos conformistas e amordaçados. Seja quando injetados (!) de heroína pelo amante drogado que ela arrumou nos tempos de sarjeta após a morte da mãe. Seja -e é disso que trata o filme "Livre" (Wild)- ao se levantar dessa sarjeta psíquica, tão atual: não mais a do desejo vitoriano reprimido e convertido em neurose, mas à da pulsão de morte libertina e descontrolada de nossa época de "dessublimação repressiva", termo do grande pensador frankfutiano Herbert Marcuse, também ele entusiasta, quando jovem, do movimento Wandervogel. Em "Wild", espécie de réplica feminina (mas sem a mesma densidade) de " Into the Wild" (Na Natureza Selvagem) de Sean Penn, a talking cure é nitidamente desprestigiada pela walking cure. 
O encontro de Cheryl com o psicólogo se mostra muito infecundo para fazê-la compreender o que só no élan de agir ficará claro como o suor que queima a escuridão: que a promiscuidade sexual e a heroína que ela injeta nos pés eram substitutos inócuos para a vontade de aventura, para a impetuosidade de heroína, que a chamava para outras paragens e outro tipo de risco: o de cruzar com pés feridos mas destemidos uma das trilhas mais rigorosas dos Estados Unidos, périplo com previsão de 3 meses e 1100 milhas de duração, e sujeita a toda (falta de) sorte de adversidades, nessa companhia íntima de nós mesmos que a vida alucinada das grandes metrópoles, e seus desejos vazios, e gozos descontrolados, dificultam como manchas que turvam a compreensão dos ritos de passagem que fazem da vida -como se descobre nesta aventura desta Wandervogel de asas heroínas e machucadas - tão sagrada, irrevogável e nossa.