quinta-feira, abril 30, 2015

a liberdade re-linchada


Dois filmes em cartaz em SP se juntam ao recente lançamento de "Liberalismo: Antigo e Moderno", de José Guilherme Merquior, como experiências indispensáveis para todo amante da liberdade. 
Ambos os filmes falam de histórias verídicas de resistência individual à "religião política" dos tempos modernos, isto é, a crença totalitária de que um Estado -seja socialista, nazista ou islâmico-, possa nos impor a todos a forma "apropriada" de nos comportarmos, pensarmos, falarmos e calarmos em prol do Bem universal e do Mundo-Verdade que habita nas cabeças dos iluminados, dos Ungidos por Deus ou pela Causa da Raça, da Classe ou do Povo Eleitos. 
"O Dançarino do Deserto" reconstitui com grande beleza a trajetória do bailarino iraniano Afshin Ghaffarian, que literalmente se levanta contra a proibição absurda da dança no país do Aiatolá e da Revolução aclamada por Foucault e esquerdistas caviar que viam tudo à distância -quando muito em rápidas visitas subvencionadas e dirigidas pelos poderosos de que se faziam cúmplices- e dissertavam a respeito nas suas tribunas e cafés confortáveis do  Ocidente opressor. 
Afshin  é embalado, nessa odisseia, pelo espírito subversivo que compartilha com os amigos de faculdade, pelo amor a uma bailarina cuja mãe também dançava, antes da proibição islâmica (que a precipita no desalento e nas drogas), e pelos versos sufis de Rumi sobre o deus que dança em nosso coração - só em um deus que dance sou como Nietzsche capaz de acreditar- inacessível à estupidez da corja estática exterior (os místicos sempre estão no limiar da heresia, indesejáveis para os fanáticos que se arrastam em muletas de certezas irreflexas à falta do vigor flexível das pernas da inspiração). Se entreguem à beleza das imagens (filmadas no Marrocos) do deserto e seu simbolismo profundo, como o da própria dança, como espaço de libertação e purificação (a ascese dos místicos que na amplidão das areias buscavam o sopro divino e o silêncio para além do torpor  da sociedade pútrida).

Outra odisseia de libertação é "A Viagem de Yoani", documentário sobre a visita ao Brasil, em 2013, de Yoani Sanchez, blogueira cubana que alcançou notoriedade mundial ao romper a censura castrista (eita nome que porta em si a própria índole castradora) e denunciar ao mundo, e desde dentro, o regime de terror, penúria e culto à personalidade que só os imbecis brasileiros que a hostilizaram por aqui podem, claro que de longe, como os esquerdistas franceses pró-aiatolá, ainda cultivar como fetiche e monumento mental à imbecilidade fanática. "Fico feliz de estar num país em que haja o direito de ir às ruas e protestar contra o que não nos agrade, quero isso para meu país", repetia, com grande sabedoria, Yoani em reação aos insultos e relinchos dos militantes petralhas -cabe elogio à coragem, embora ingênua, do então senador Suplicy tentando acalmar a turba e fazê-la tolerar a divergência de opiniões, afinal o PT é pelo "socialismo democrático"; sua careca não vai demorar  muito tempo no pescoço  se os jacobinos de seu partido implementarem os reais objetivos revolucionários que por enquanto, muito à brasileira, se traduziram sobretudo em aparelhamento e saqueamento sistemático do Estado "burguês".  
Vejam os olhares e clichês dos comunistas da mortadela que a caçaram, da Bahia a São Paulo, tentando castrar-lhe a voz, senão a vida, e comparem com a "polícia da moralidade" dos iranianos no filme do dançarino do deserto. E leiam depois o clássico de Merquior para entender a nova luz a beleza e urgência da filosofia liberal em suas três grandes dimensões: "anglo-saxã" no quesito dos direitos individuais contra a interferência arbitrária e a servidão coletivista ao Deus Estado (liberdade negativa); francesa no quesito da liberdade de participar dos rumos da pólis (liberdade positiva); e alemã, mais profundamente, na dimensão da "Bildung", da experiência individual de autodesenvolvimento, da vida mesma articulada como romance de formação (Bildungsroman), "viagem", liberdade de expressão, dança, mística herege dos que têm uma fome de viver que não cabe no pão com mortadela, cabresto partidário, idolatria a aiatolás, bolsa-esmola que, sem saúde, sem educação, sem emprego, sem liberdade, sem alternância de poder, não constrói justiça social nem democracia mas colchão para fracassados e paredão e mordaça e re -linchamentos para inconfomistas.