Monday, April 20, 2015

indo pro céu com mestre Al


Não tenho interesse o bastante em Ed Motta pra me aprofundar na recente polêmica em torno do que ele acha ou deixa de achar do público brasileiro que, em seus shows mundo afora, grita nome de time e exige que ele lhes conte/ cante pela trocentésima vez que o Manuel foi pro céu. Mas posso imaginar o inferno a que todo artista genuíno vai quando se torna prisioneiro de uma caricatura de si mesmo.
 É o drama de Danny Collins na nova estreia de Al Pacino entre nós, imediatamente depois de "O Último Ato": "Não Olhe para Trás". Fala de um músico folk de enorme sucesso e riqueza, mas que há 30 anos nada compõe e nada canta senão seus "manuéis" pra alegria de um público no qual ele vê o espelho triste de sua própria senilidade. É interessante comparar o impasse de Collins com o de Simon Axler, papel de Al em "O Último Ato". Axler, no romance de Phiip Roth que inspira a adaptação, é o "último dos grandes atores de teatro clássico dos Estados Unidos". Sua decadência tem um sentido cultural mais amplo, afinado com a crítica geral de Roth aos rumos históricos da sociedade norte-americana. Seu abismo, ao qual só esta começando a se atirar quando pula do palco no início do filme, tem a ver com a "perda da magia" que o fazia encarnar como ninguém os grandes papéis de Shakespeare, Ibsen, Tchecov.
 Já Collins se levou muito menos a sério na carreira: preferiu o caminho materialista dos hits chiclete, das marias-microfone, bebedeira e drogas (com direito a cocaína escondida no crucifixo brega que leva no peito).Ao saber, só 40 anos depois, de uma carta que Lennon lhe escreveu nos idos de 1971, se dá conta da obra que poderia ter feito, do artista e do homem que poderia ter sido, e se põe no caminho de uma redenção. Ranzinzas vão se queixar das consequências que o filme desdobra dessa sua forte premissa (baseada em fatos reais, aliás): os clichês acerca da busca da família esquecida, do milionário que quer lavar a má consciência à base de generosas doações etc. A graciosidade do filme, da pequena netinha, dos diálogos com a funcionária e com a gerente do hotel e, óbvio, do grande Al em si, não me deixam cair nesse pecado. 
Prefiro focar, além dos prazeres de espectador, na lição de vida deste filme quando visto em conjunto com "O Último Ato".Na semelhança e contraste dos dramas e soluções encontradas pelos dois personagens de Al, temos farto material "clínico" e existencial para meditar a questão da autenticidade de nossos "papeis" no teatro do mundo, dos suportes emocionais (amigos, parentes) que podem fazer falta no desertos da depressão, a necessidade, em suma, de elos sadios com o mundo, pra alèm do encapsulamento em nossa pròpria misèria (mesmo a de contas bancàrias inchadas), abertura e compaixão, nas antìpodas da autopiedade, que tornem a vida digna de ser vivida, aqui e agora , olhando e não olhando para trás -na força do arrependimento que nos transforma, não do remorso que aprisiona- mesmo não tendo sido tudo o que intermerdiários mais honestos entre nós e nossos potenciais mais profundos (incrível, e profundo, que Collins não se entregue ao ódio doentio e estéril do oportunista, já morto, que ocultou dele e vendeu a carta de Lennon),  melhores acasos ou melhores escolhas poderiam ter feito de nós.