terça-feira, abril 14, 2015

Kierkegaard e a mesa de botão


Bonita a afirmação de Soren Kierkegaard de que "não há verdade para um indivíduo senão quando ele próprio, agindo, a produz". Ficar preso a ela, contudo, sem ver sua contrapartida dialética, nos leva ao risco de um subjetivismo "ativista", distanciando demais a dimensão de graça, do Deus que vem ao encontro, da Verdade que busca o indivíduo que a busca.
Desde muito criança eu tinha uma percepção, entre angustiada e determinada, de momentos em que estava ou não estava conectado com "a Realidade". Era o que basicamente pedia das orações ou das meditações reflexivas. Estar conectado ao real. O que era, por mais que em dimensão contemplativa, algo idêntico a estar em ação. Quando não era verdade "agida", o sentido parecia simplesmente se desertificar, a vida ficava lenta como minha adorada mesa gigante de futebol de botão, no dia em que misteriosamente sua materialidade, recortada em lindas faixas alternadas de verde claro e verde escuro, parecia mais grudenta, retinha meus jogadores e os impediam de fluir e magiar. As tabelinhas Pelé-Coutinho, os lançamentos de Gerson, os golaços de Neto, com que Deus presenteava minhas mãos, tudo se evaporava. Minhas imitações de José Silvério emurcheciam, o laboratório voduesco de projeção 'futeboleira', e de amor ao Timão se recusava a operar naquelas manhãs cinzentas. Jogo arrastado. Como a relação com a Verdade quando perde a graça da competição trovadoresca pra ver quem ama e busca mais, se nós a ela, se ela a nós. A verdade que nos abandona deixa a vida ressecada e os jogadores ineficazes: inibe a ação. E reciprocamente, a ação entorpecida, rendida à inércia dos costumes, à mediocridade das expectativas, à preguiça ou, em suma, a ação sem paixão, é saara da Verdade, saara que não sara, mas tortura por sua ausência, debilita por sua contrafação, enlanguesce com suas presenças flácidas, versões moles, falsárias, a conversa fiada da Verdade, as mentiras existenciais com as quais, ao abdicar de agir,, ao meramente repetir, nos conformamos e seguimos adiante fingindo que nada pode ser diferente.