Wednesday, April 01, 2015

na roda do desejo

Partilhei segunda na minha escola de psicanálise o seguinte poema de Yeats, "The Wheel" (A Roda), de um livro de 1928. Pouco posterior ao "Além do Princípio do Prazer" de S. Freud, ele me parece iluminar certa dialética no que aparentemente seriam dois mundos psíquicos antagônicos e incomensuráveis, as "pulsões de vida" (Eros e os impulsos de autoconservação) e a pulsão de morte (o chamado do nirvana, o anseio do aparelho psíquico pela "paz" absoluta que só o não viver é capaz de trazer).
 Ora, vemos com Yeats a inquietude mesma do desejo, que no inverno quer primavera, na primavera quer verão, ah não, verão é ruim, legal mesmo é o inverno etc, enfim, vemos nessa "roda", a roda do desejo, ciclo do samsara, um movimento incessante, "vital", mas mortificador de cada um dos objetos que se candidatam a saciar o desejo. Nada presta tão logo é atingido, zanzamos entre o anseio e o tédio, e nessa própria perturbação que ferve em nós e que se chama vida, há morte, nem que nessa via impiedosa de destruição / desilusão de cada "estação" da busca por nada, ou, na mística do bardo irlandês, e na vertigem de náusea que nos arranca do carrossel enloquecido, pelo Nada absoluto também chamado transcendência.
The Wheel / A Roda
-W. B. Yeats-
"Through winter-time we call on spring,
And through the spring on summer call,
And when abounding hedges ring
Declare that winter's best of all;
And after that there's nothing good
Because the spring-time has not come -
Nor know that what disturbs our blood
Is but its longing for the tomb".
No Inverno desejamos a Primavera,
E na Primavera invocamos o Verão,
E quando ressoam as abundantes sebes
Declaramos que o Inverno é melhor;
Depois nada há de bom
Porque a Primavera não chegou -
Não sabemos que essa inquietude que nosso sangue perturba
É apenas a sua nostalgia do túmulo.