Sunday, April 26, 2015

Nietzsche na Itália (II)- a trégua das dores

"Il Trionfo della Morte", por Andrea Orcagna;  Pisa, Itália

"Gritei de alegria quando avistei Nietzsche passeando taciturno em seu caminho: 'Sozinho, professor [Nietzsche fora por dez anos professor de filologia em Basileia, renunciando ao cargo e se tornando filósofo viandante justamente em consequência desta temporada na Itália em 1876 (notas entre colchetes by Unzuhause)]? Oh, então venha conosco, estamos fazendo o mesmo roteiro'.
Nietzsche logo aceitou e nós três visitamos o Duomo, o batistério e o campo santo, com aquele humor alegre que havia invadido meus companheiros. Raramente alguém contemplou o juízo final, a obra-prima de Orcagna, em tal estado de espírito. Devo confessar honestamente que vários traços sublimes me escaparam, ao passo que as cenas grotescas, sobretudo dois diabinhos que arrastam um monge gordo para o abismo, não passaram despercebidos.
Na qualidade de crítico da mitologia católica, Nietzsche revelou toda uma nova parte de sua personalidade, brilhantemente zombeteira e sarcástica, radiante. 
Fomos recebidos na estação pelo companheiro de viagem de Nietzsche [Paul Rée, filósofo de grande influência na chamada guinada positivista de Nietzsche entre O Nascimento da Tragédia, impregnada da metafísica romântica de Wagner e Schopenhauer, e a crítica dos valores morais e religiosos em Humano, Demasiado Humano], com quem eu ainda não havia trocado nem duas palavras; ele estava visivelmente de mau humor. Um tanto agitado, puxou-me de lado e me expressou abertamente seu desprazer por me ver colocar Nietzsche, contrariamente aos seus esforços, num estado de excitação e de enervamento prejudicial à sua saúde...
Eu soube então por Rée, o fiel Acates [referência ao troiano lendário que, amigo fiel de Eneias, o acompanha nas viagens da Eneida de Virgílio, inclusive pela Itália], que seu amigo tinha uma absoluta necessidade de calma e de solidão, a fim de controlar uma grave enfermidade nervosa".
[Anotações de viagem por Isabelle von der Pahlen, que Nietzsche conheceu e provavelmente cortejou no trem noturno entre Genebra e Gênova, pelos idos de outubro de 1876]


Joseph Wright of Derby, "A View of Vesuvius from Posillipo, Naples"
"Anteontem, à tardinha, percorri Posillipo [significado em grego: a trégua das dores] de carruagem, com meus três cavalheiros [Nietzsche, Rée e Albert Brenner, estudante da faculdade de direito da Basileia e aluno de Nietzsche]; a luz estava divina, verdadeiramente feérica, o Vesúvio se coroava majestosamente de nuvens de tempestade, e dessa massa de chamas e de sombrios reflexos avermelhados se elevava um arco-íris; a cidade cintilava como se fosse talhada em ouro puro, enquanto, do outro lado, o mar se estendia em seu azul profundo; o céu, coberto de nuvens leves e brilhantes, era de um verde-azul transparente, e as ilhas magníficas se erguiam entre as vagas como num conto de fadas. O espetáculo era tão maravilhoso que os cavalheiros ficaram como que embriagados de êxtase. Eu jamais vi Nietzsche tão animado. Ele ria de alegria".  Ela recorda ainda como a fisionomia do filósofo  "se iluminava de um espanto alegre, quase infantil; como ele era dominado por uma emoção profunda; por fim, explodiu em exclamações de júbilo sobre o sul, que eu saudei como um feliz presságio da eficácia de sua temporada".
[Malwida von Meysebug. amiga de Nietzsche, do círculo íntimo dos Wagner, e organizadora da viagem]

"'Como posso ter suportado viver até agora!', enquanto o veículo rodava por Posillipo - luz do entardecer.
Posillipo e todos esses cegos cujos olhos serão abertos;
Não tenho força suficiente para o norte: lá reinam almas grosseiras e artificiais que trabalham tão assídua e necessariamente na medida da prudência quanto o castor em sua construção [trecho riscado: o norte da Europa está repleto disso]. E pensar que foi entre elas que passei toda a minha juventude! Eis o que me impressionou quando pela primeira vez vi chegar o entardecer com seu vermelho e seu cinza aveludados no céu de Nápoles [trecho riscado: você poderia ter morrido sem ter visto isso] -como um arrepio, como por pena de mim mesmo pelo fato de haver começado minha vida sendo velho, e me vieram lágrimas e o sentimento de ter sido salvo, ainda que no último instante".
[Nietzsche, em anotação de 1881]

in: Paolo d' Iorio, Nietzsche na Itália - A Viagem Que Mudou os Rumos da Filosofia




lo spazio fra noi
-Francesco Melchionda-
" viviamo lo stesso tempo
compiamo identici gesti
respiriamo la stessa aria
e godiamo dello stesso sole

potremmo accarezzarci le ali
e disegnare i nostri corpi affusolati
con un tocco leggero di piuma

ma uno deve rallentare
ed uno accelerare
uno deve voltarsi indietro
ed uno guardare avanti
uno deve aprire il libro
ed uno deve leggere
uno deve toccare
ed uno chiudere gli occhi

e, finalmente, respirare "

Mar Tirreno, 2013