quarta-feira, abril 22, 2015

o tohu bohu do touro


A divergência de Jung e Freud sobre o peso da sexualidade na desordem psíquica não se deve, como quer uma certa leitura rasa, a meras predileções "místicas" de Jung por uma visão "dessexualizada" e "espiritual" artificialmente imposta sobre seus pacientes. O touro de Zurique, que em nada ficava a dever a um Picasso no quesito dos apetites carnais, não era ingênuo a ponto de ignorar o papel da sexualidade bloqueada no mal-estar das histéricas freudianas, vítimas de uma época em que a "boa sociedade" costumava revestir até os pianos de suas mansões com meiões que, tal como o véu das mulheres na Igreja, desviassem homens (e no caso das missas, até os anjos) da reta razão. Assim como Freud, Jung procurava teorizar o que via e escutava na empiria da clínica. Mas o perfil de sua clínica era distinto do de Freud: passou dez anos num dos mais importantes hospitais psiquiátricos do mundo, em convívio direto com as agonias psicóticas em relação às quais o próprio Freud tinha dúvidas se sua psicanálise teria viabilidade teórica e terapêutica. Essa diferença de lastros empíricos se alia, para alargar a irredutibilidade dos dois grandes gênios da psicologia profunda, ao fato de que todo observador afeta subjetivamente sua observação, por mais que "científica" - uma relatividade apregoada por Heinsenberg na Física, e tanto mais válida no campo das ciências da alma e da sociedade. Com base na experiência com psicóticos, para os quais a repressão sexual tinha papel bem menor do que para as histéricas, e também com uma confiança bem maior na riqueza autocurativa da psique, alicercada no poder transformador dos sìmbolos, Jung redefine o conceito de libido como energia psíquica em geral (da qual o apetite sexual é uma das modalidades), aponta os transtornos sexuais não como causa, mas repercussão de uma situação psíquica geral, e entende tal situação psíquica, na enfermidade, como uma desidratacao simbòlica articulada à perda de adaptação ao real. Não se trata da cantilena dos esquerdosos, ahh seus conformistas, querem adaptar o indivíduo à sociedade. "Adaptação" em Jung, como em seu mestre Janet, tem a ver com a "função do real", uma determinada qualidade psíquica de entrosamento do ego com sua própria natureza e com as tensões inevitáveis ao jogo cognitivo e prático com uma realidade, "o mundo" (interno e externo) que tem autonomia em relação a nossos caprichos, nos exigindo sim ajustamento, nem que como Bacon, para aprender como dominar, transcender e prosperar (o "saber é poder"). 
Nessa base, Jung traz para a compreensão da neurose o que seus anos de formação junto aos psicóticos o autorizava a propor com voz própria, distinta de Freud, e até hoje poderosa como uma das tantas linhas terapêuticas ao nosso dispor para minorar o sofrimento de viver. E essa voz própria diz que esse sofrimento é o o germe da evolução. Na recusa a formas inúteis e inautênticas de "adaptação", vejam, adaptação A SI E AO MUNDO, o sujeito se expressa inteiro, no que tem de enfermiço e potente, em sua neurose, como na febre que é sintoma de doença e luta por cura. Cura e loucura. É como o caos dos cabalistas, TOHU BOHU, ordem latente, o ovo como "caos" da ave futura. Sem dúvida que há muito de regressão infantil nesses estados neuróticos, mas há momentos na vida que a única forma de progresso é voltar atrás. Tamanhas as pressões que só a de-pressão pode nos acudir. A neurose é um impasse que, com ajuda do terapeuta, não desaparece sob o toque de uma varinha mágica ou programa de 12 passos de auto-ajuda. Mas, a despeito da confusão de tempos causada pelo estado de inércia e condutas de repetição e regressão, o terapeuta auxilia seu enfermo (e ás vezes somos ambos, terapeuta e enfermo, numa só pessoa) a enxergar o presente, decupar o novelo das causas e incertezas, passados e futuros opressivos, e a transcender o estado de baleia encalhada não só no amor, trabalho ou falta de um e outro: desencalhamos dessa crucificação como no quadro célebre de Salvador Dalí, em que o "deus" que nos observa de cima é a ave fênix que vê pelo retrovisor o ovo caos que lhe dará vida, o bezerro como o frágil pai do touro). Descemos da insuportável suspensão nas solitárias altitudes do mundo em que, isolados em nossa enfermidade, mas agora purificados por ela, agonizávamos  entre uma (nova) atitude adulta desejável mas irrealizada e uma atitude infantil realizada mas indesejável.