Saturday, April 25, 2015

Resenhas para a Folha, 25/04/2015



FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de CAIO LIUDVIK

DUAS CATEDRAIS

Um “catedralesco mural que descreve a longa e ziguezagueante peregrinação humana em busca da sociedade aberta”. Assim Roberto Campos definia a impressionante proeza do grande ensaísta e diplomata  José Guilherme Merquior (1941-1991), pouco antes da morte precoce, por câncer, neste “O Liberalismo – Antigo e Moderno”
Os frenéticos quatro meses em que Merquior escreveu à mão, em inglês, este painel de três séculos de evolução da filosofia político-econômica liberal não maculam o texto com nenhuma superficialidade ou descuido.
Tampouco se notam as veleidades triunfalistas que a queda do Muro de Berlim e agonia da URSS  poderiam lhe sugerir. 
Craque da polêmica, ele aqui prefere um tom sóbrio, numa exposição que, indo além da ênfase costumeira nos pensadores anglo-saxões, resgata, em afrescos rápidos mas certeiros, os diferentes “liberalismos” (o pluralismo é axioma do próprio credo liberal e marca de seu desenvolvimento histórico), e as contribuições de pensadores como Weber,  Camus e do argentino  Domingo Faustino Sarmiento. Esboça também os traços de um “social-liberalismo”,  conjugação de liberdade, racionalidade de mercado e justiça social, cuja concretização  chegou a esperar do governo Collor.
Também “catedralesco” – até pela  devoção apaixonada  à cultura, que era culto o bastante pra não confundir com verbiagem e vaidade livresca- é outro relançamento, “De Anchieta a Euclides”. Neste livro dos anos 70, Merquior conjuga, em prosa límpida e com a habitual maestria, a contextualização social e histórica com a atenção à autonomia do estético, no estudo da evolução da literatura brasileira até as vésperas da revolução modernista.

AVALIAÇÃO – ÓTIMOS

O CAMINHO POÉTICO DE SANTIAGO 
“Par Deus, / muito levade-lo caminh ‘ errado, / ca se verdade quiserdes achar, / outro caminho  conven a buscar, / ca non saben aqui d’ ela mandado”. 
Assim o poeta Airas Nunes vertia em versos que hoje soam estranhos na letra, mas não no espírito, o anseio universal do homem de encontrar a verdade, e o quanto ela parece distante da sociedade e  “autoridades” de sua época (e da nossa). 
É um exemplo de “cantiga de escárnio e de mal-dizer”, que um dos tipos principais –ao lado das cantigas de amor e de amigo- de poesia trovadoresca medieval. 
Esta belíssima coletânea focaliza o trovadorismo  na lírica galego-portuguesa  (primeira manifestação  literária de nossa língua). São 29 poetas e 55 textos originais, com glossário explicativo e comentário crítico, tendo por eixo temático ) a célebre cidade de Santiago de Compostela, perto da fronteira de  Espanha e Portugal, e palco, ainda hoje, da eterna peregrinação humana em busca da verdade.

MAL-ESTAR, SOFRIMENTO E SINTOMA
Em parceria com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr., Christian Dunker conduz na USP o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip), que hoje se afigura como uma das mais vigorosas e renovadoras inserções do pensamento lacaniano no Brasil. E isso sem sucumbir ao “discurso universitário”, no sentido pejorativo tão criticado pelo próprio Lacan .
 É o que se vê por este novo livro de Dunker, em que crítica e clínica se articulam numa densa “psicopatologia do Brasil entre muros” – análise dos “condomínios” que regem a vida social e psíquica contemporânea. De pesadelo distópico de Godard, Alphaville entre nós vira sonho de consumo e lógica de autofechamento narcísico e exclusão.
 Este livro essencial traz também uma releitura psicanalítica do cinema da Retomada e do perspectivismo ameríndio (teoria antropológica de Eduardo Viveiros de Castro) e uma reconstrução das etapas e sentido “sintomático” da psicanálise no Brasil da ditadura à redemocratização.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

FREUD NO DIVÃ
Já dizia Emil Cioran: o pior que pode acontecer a um gênio é ser compreendido. Isto é, ter sua originalidade e radicalidade assimiladas e reduzidas às “obviedades” do senso comum popular ou mesmo do erudito (ser colonizado pela indústria de teses acadêmicas ou institutos de discípulos etc).
Dessa sina não escapou o pai da psicanálise, o que torna louvável uma iniciativa como a de Beverley Clack. Com ritmo envolvente e bem fundamentado, o livro traz frescor e sabor de novidade, isto é, de desafio, aos avanços revolucionários (mas também às hesitações e fragilidades teóricas e pessoais) de Sigmund Freud como fundador de uma nova via de tratar o sofrimento psíquico e pensar a condição humana. Entre os tópicos tratados, destaque para a histeria (com especial atenção ao fracasso todavia fecundo de Freud no célebre caso Dora), a interpretação dos sonhos, a questão da religião e o impacto de seu próprio romance familiar na concepção supostamente universal  do “complexo de Édipo”.
AVALIAÇÃO – BOM

NINGUÉM HUMANO
“Se Esopo que dizer que os homens são como os bichos, mostra, então, que os bichos são como homens; se Brecht pretende dizer na ‘Ópera dos Três Vinténs’ que os burgueses são ladrões, então ele coloca os ladrões como burgueses”. Essa técnica da inversão da fábula, estudada por Günter Anders em ensaio clássico sobre Kafka, é um dos prazeres com que lemos as histórias de “Ninguém Humano”, coletânea organizada por Naomi Jaffe com alunos de suas oficinas de escrita criativa.  
Na senda do autor de “A Metamorfose”, ou da “Revolução dos Bichos” de Orwell, o alegorismo animal mostra aqui sua atualidade como  expediente de revelação da desumanidade do homem. Comovente, por exemplo, a parábola de solidão e “bullying”da andorinha gorda (“andorona”) da história de Luciana Gerbovic, que abre o volume, tanto quanto é engraçada a sátira de Eduardo Muylaert que o fecha, sobre a sucuri em terapia para curar sua crise de identidade.
AVALIAÇÃO- BOM