Sunday, May 17, 2015

bálsamos da guerra espiritual


Meu primeiro contato de hoje com o mundo exterior veio da televisão ligada que acompanhou o sono e, por ela, com o restinho da missa na Praça de São Pedro, em Roma; em seguida, ecumenicamente, troquei de canal e topei com o clipe evangélico da linda música "Soldado Ferido". O entrelaçamento de espiritualidade e símbolos bélicos ressurgiu mais à noite, topando com um livro de Swami (título similar ao de "padre" ou "pastor") Kyiananda, Desmistificando os Yoga Sutras de Patanjali

O swami, discípulo direto de Yogananda, trata em dado momento da ligação da filosofia do Yoga  com o "evangelho" hindu, Bhagavad Gita, narrativa alegórica de uma luta que, em chave esotérica, não se dá "contra a carne e sangue" - uso aqui da expressão paulina que também desloca para o nível espiritual o confronto entre Bem e Mal que os inimigos da humanidade teimam em literalizar em seus ódios fanáticos e passaportes sangrentos para haréns no paraíso. 
A guerra retratada no épico indiano, diz o livro em questão, "consiste numa luta entre tendências da natureza humana que nos impelem para cima ou para baixo. Quando somos arrastados em ambas as direções, ficamos interiormente divididos e jamais encontramos a paz. Se quisermos encontrar Deus, precisamos dirigir nossas tendências para uma direção só. Sigmund Freud aconselhava seus pacientes a ceder às tendências inferiores, sobretudo o instinto sexual". Por ora evitarei considerações intelectualistas acerca do mérito desta declaração polêmica, eco da condenação de senso comum ao "pansexualismo" da psicanálise, que ignora o valor, em Freud, da noção de sublimação como uma espécie de "transcendência" profana do instinto cego, não só do sexo como o de matar e morrer.
 Sigamos para outro trecho esclarecedor da dimensão "militar" do yogue, aliás termo cujo uso banalizado, hoje em dia, impede de ver que se trata de um título e conquista, algo como "campeão" dentre os competidores, um estágio desenvolvido do "opus" de metamorfose do ego, agora cabeça a coroada pelos louros  da divindade.  O bálsamo curador que a linda música cristã pede que desça sobre as dores do soldado ferido. 
"Yoga [união do devoto com a divindade, que para os cristãos se almeja especialmente pelo veículo da oração] significa, pois, a prática graças à qual acalma os esses vórtices do sentimento [turbilhões da raiva, cobiça, medo, vaidade]. Os sentimentos formam os redemoinhos de desejos e apegos que atraímos para nós com o pensamento: 'Eu quero isto. É isto que me define. Eu sou isto! (...). 
Meu guru me disse certa vez: 'Todos os desejos têm de ser neutralizados'. Todos? ', perguntei. 'Até os insignificantes, como o de tomar um sorvete?'
'Oh, sim!', confirmou enfaticamente.
Mas, em outra ocasião, pedi-lhe que me ajudasse a superar o apego à comida. 'Não se preocupe com essas bagatelas', replicou ele como firmeza. 'Quando o êxtase vem, o resto vai'.
O importante, em outras palavras, não é a pessoa se concentrar de modo negativo em todos os desejos e apegos que tem de superar (só deve se concentrar nos grandes), mas sim devotar-se inteiramente a Deus. Assim como um rio caudaloso arrasta tudo com a força de sua corrente, a devoção intensa impulsionará cada desejo insignificante para cima, na direção do cérebro.
Podemos, pois, definir o yoga como a conquista de todos os desejos e apegos. A energia então liberada sobe diretamente para Deus. 
O ensinamento do Bhagavad Gita (...) é este: na batalha entre nossa natureza superior e nossa natureza inferior [na mitologia ocidental, Satanás, pai da mentira e "príncipe deste mundo", o da materialidade densa, desejos desordenados e ilusões aprisionadoras], as emoções negativas não são aniquiladas, são apenas transformadas em sentimentos positivos -amor, entusiasmo pela verdade e solidariedade".