Friday, May 01, 2015

Nietzsche na Itália (III) - o pessimismo da força


Vejamos mais alguns apontamentos, segundo o livro de Paolo d' Iorio, de Malwida von Meysenburg sobre a viagem de Nietzsche ao sul da Itália em 1876, quando se dá a ruptura com a fase "wagneriana" (inclusive a última vez que Nietzsche e Wagner se falaram foi em Sorrento, nesse período), universitária, e a conversão positivista, primeira roupagem de sua madura filosofia do espírito livre, que toma a forma de aforismos. 
"Em Sorrento [mais exatamente, na pensãozinha de Villa Rubinacci (foto acima)] nossa vida se organizou muito confortavelmente. De manhã, nunca estávamos juntos; cada um se entregava em total liberdade às suas próprias ocupações. A refeição do meio-dia era a primeira a nos reunir, e de vez em quando fazíamos juntos, à tarde, um passeio pelos arredores, entre os jardins de laranjeiras e limoeiros, tão altos quanto nossas macieiras e nossas pereiras e cujos ramos, carregados de frutos dourados, se inclinavam por cima das cercas e sombreavam o caminho; ou então subíamos ladeiras suaves e passávamos perto de sítios de meeiros onde alegres grupos de lindas jovens dançavam a tarantela; não a tarantela ensaiada, dançada nos hotéis, para os estrangeiros, por bandos de senhoritas muito bem-trajadas, mas a dança rústica impregnada de uma graça natural e casta. Com frequência partíamos para excursões mais distantes, montados em jumentos que por ali são reservados para os caminhos montanhosos. (...) À noite, o jantar nos reunia de novo, e depois no salão, para leituras em comum acompanhadas de conversas animadas". 



Apollon Mokritsky, "Italianas dançando tarantela" (1846)


Malwida nos diz ainda: "Quando estamos assim reunidos à noite, Nietzsche confortavelmente sentado na poltrona, com seus óculos sobre o nariz, o dr. Rée, nosso amável leitor, à mesa onde arde a lamparina o jovem Brenner perto da lareira, ao meu lado, e me ajudando a descascar laranjas para o jantar, então muitas vezes eu digo brincando: 'Nós representamos verdadeiramente uma família ideal; quatro pessoas que antes mal se conheciam, que não têm vínculo de parentesco nem lembranças comuns, e que agora, na mais perfeita harmonia e sem incomodar a liberdade de cada um, levam uma vida juntos, satisfatória tanto do ponto de vista intelectual quanto do conforto pessoal'".

Quanto ao cardápio das leituras, abrangiam desde Tucídides, Platão e o Novo Testamento até Goethe, Diderot e Voltaire, cuja memória Nietzsche celebra na dedicatória de Humano, Demasiado Humano (1878), obra imediatamente posterior à vivência sorrentina, impregnada desta e dos escárnios iluministas do autor de Candide contra as superstições morais e religiosas. Mas os serões no "convento" da Villa Rubinacci eram dedicados sobretudo a um caderno manuscrito com anotações feitas por um aluno de Nietzsche, Louis Kelterborn, durante o curso sobre civilização grega dado pelo célebre historiador Jacob Burckhardt, colega de Nietzsche na Universidade de Basileia. Malwida conta que a leitura das notas se alternava com explicações orais de Nietzsche, e "certamente jamais houve como aqui uma exposição mais magnífica e mais completa sobre essa bela época da humanidade, ao mesmo tempo por escrito e oralmente através desses dois dos maiores conhecedores da Antiguidade grega". 
Tiveram então a oportunidade de se debruçar sobre uma definição da grecidade que antecipa o lema gramsciano do "pessimismo da inteligência e otimismo da vontade" .
 Grecidade -faço uma parênteses para pormenores de tradução-, aliás, é melhor opção para Griechentum do que o "helenismo" de J. Guinsburg em O Nascimento da Tragédia, conceito que designa uma época histórica específica, não só distinta mas, em grande parte, antípoda do que nesse livro Nietzsche exaltava como essência grega). E a "grecidade" se definia, nas palavras de Malwida, como "pessimismo da concepção de mundo e otimismo do temperamento" - ou, na nota que leram e que Nietzsche comentou: "A religião e a reflexão eram pessimistas, mas o temperamento era otimista; daí a enorme produtividade... O povo era alimentado por forças elásticas, daí seu temperamento vivaz e otimista, que o incitava continuamente a novos empreendimentos. Mas sua visão da existência era totalmente pessimista". 
Um pessimismo da força, segundo a fórmula de O Nascimento da Tragédia: uma propensão artística e intelectual para o Mal, o sofrimento, o terrível, o doloroso, o monstruoso, mas isso não num estado de espírito prostrado, depressivo, fraco, exausto, "pedindo pra sair" da vida. Pessimismo de heróis em combate, enérgicos, que não só não fogem do sofrimento como até o exigem como adversário digno com o qual vale a pena medir forças e aprimorar as virtudes (poderes) do caráter e a expressão dolorosa mas jubilosa - para além desta antítese, como também daquela entre o bem e o mal-  da vontade cósmica de que o homem deve ser guardião, sim, mas não anjo, antes  guerreiro e bufão e dançarino e espectador de tarantelas, desnudo das virtudes (fraquezas) do santo renunciante do tipo  celebrado pela filosofia de Schopenhauer e musicado pelo Wagner tardio.