Saturday, June 27, 2015

Folha de S. Paulo, Guia da Folha, 27/06


"Angelus Novus", quadro de Paul Klee, tema de uma das "Teses sobre o conceito de História", de Walter Benjamin (à direita)

ARTE DA FUGA
Novo romance de Teixeira Coelho, 'Colosso' faz da viagem e do exílio uma forma de resistir à sombra esmagadora da história
-por Caio Liudvik-

Anônimo, com vontade de ser invisível e preso entre dois séculos. Assim Josep Marília se autodefine para um “brazilianista brasileiro” (o narrador), que como ele fez do exílio uma espécie de resistência pessoal a ser devorado pelo miasma trágico que infecta instituições e valores mesmo após a suposta redemocratização do “país Brasil”, uma das fórmulas obsessivas de “Colosso”, o  novo romance de Teixeira Coelho.
O encontro inicial dos dois personagens se dá num restaurante  Cadaquès, na mesma província catalã em que Coelho ambienta parte da “História Natural da Ditadura”, um das obras-primas da literatura brasileira contemporânea.  E outras marcas do romance anterior ressurgem, a começar da própria matéria histórica, que revolve o rastro traumático dos horrores totalitários de direita e de esquerda, e suas novas feições no novo “século islâmico” e bolivariano.
Não por acaso o livro trazer a reprodução do “Angelus Novus” de Paul Klee, tema de célebre meditação de Walter Benjamin sobre os “ventos fétidos e podres da história”, como lemos em “Colosso”. Josep Marília tem o costume de desenhar de modos diversos, em seus cadernos e  guardanapos de restaurantes, os “dois H de Horror à História”.
Além da penúria econômica da família, ele viveu de perto os efeitos dos anos de chumbo ao namorar Júlia, uma “companheira” dos guerrilheiros que, décadas depois, se veria  envolvida –cumprindo a parábola histórica da esquerda nacional, do heroísmo juvenil à realpolitik do poder- no escândalo do mensalão, como vemos no segundo dos três capítulos do livro, em que o narrador conversa com ela.
São, tanto no caso de Josep como de Júlia, depoimentos turvados . De um lado, pelo fluxo de associações livres do narrador, como sua longa digressão (em parágrafo de extensão tão asfixiante como a “imensidão modernista do terror” que ele descreve) sobra uma visita a campo de concentração nazista. E por, outro, pela sua recusa a transformar os testemunhos que está recolhendo em biografia ordenada, o que remete a  outra obra anterior de Coelho, “Niemeyer, um Romance”.
Quanto às digressões, muitas vezes elas cumprem no livro uma função de mesclar –princípio que o Teixeira Coelho crítico e teórico reputa como marca da passagem da literatura moderna à pós-moderna- a ficção com a reflexão ensaística. Num dado momento, por exemplo, o narrador fala do “riso sarcástico da História” que há no fato de que  James Joyce - cujo herói em “Ulisses” considerava a História um pesadelo do qual queria despertar-  tenha como que “fugido” em desespero da Irlanda, mas que ela não tenha jamais saído dele, voltando com força em tudo o que ele tinha para escrever.
Assim também a sombra “colossal” do Brasil  pesa sobre os emigrados deste romance, contraponto à fluidez não identitária tão elogiada por Teixeira Coelho  em A Cultura e Seu Contrário”: "A primeira obrigação de cada um de nós para consigo próprio é a ampliação da esfera de presença de seu ser, o que se consegue mudando de lugar (viajando), mudando as fontes de nossas sensações (ver uma catedral que não conhecemos, uma pintura que ainda não visitamos, um autor que ainda não lemos)...".
Para esse imperativo (ético e estético) de abertura coopera um estado de espírito de “leveza” que, ecoando as propostas de Italo Calvino para um milênio que de fato seja distinto dos pesadelos e toneladas da história recente, se encarna numa segunda grande personagem feminina de “Colosso”, a jovem Amélie. Ela é a “obra-prima em forma de mulher” que vem preencher com suas  aquarelas as molduras que Josep Marília aprendeu a moldar, encantado com esse “ofício terrestre” que o redimia das abstrações intelectualistas.
Ela é a “anima” (Jung) que – num flerte com o sublime romântico sem clichês de “happy end” hollywoodiano - vem lhe preencher os dias erráticos de  uma outra consistência, conciliação, enfim, com o mundo visível, inédito gosto pela vida, “promessa de felicidade” que, num tratado sobre o amor, Stendhal via como essência da beleza. 
AVALIAÇÃO- ÓTIMO


AS RAÍZES DO ROMANTISMO
Com base em uma série de conferências proferidas  por Isaiah Berlin, em março e abril de 1965, o livro apresenta as origens religiosas e, por assim dizer, psico-históricas do romantismo, na espécie de  complexo de inferioridade alemão ante os rumos da modernização europeia, além dos autores representativos, as características essenciais -como o culto do gênio, o primitivismo à la Rousseau, o trasbordamento das emoções- e os desdobramentos do movimento romântico no século 20, entre os quais o existencialismo e o nazifascismo.
O filósofo britânico nascido na Letônia nos brinda com sua descomunal capacidade de desfilar com fluência e rigor a arqueologia dos grandes sistemas de pensamento modernos e suas bases e consequências sociais e políticas concretas.  Não sem criticar as tendências “insanas” (sob o pano de fundo da tragédia hitlerista) da revolta romântica contra o Iluminismo, ele faz justiça à profundidade e legado de contestadores como  Schelling, Blake, Byron e Schopenhauer –valorizando-os no que contribuem para uma expansão do conceito ocidental da racionalidade, pluralismo, liberdade e tolerância;.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO  



Michel de Montaigne

UMA TEMPORADA COM MONTAIGNE
Eis uma deliciosa introdução à vida e obra de  Michel de Montaigne  (1533-1592). Não sem a leveza de sua origem (um programa radiofônico diário), o livrinho de Antoine Compagnon desce à profundeza e traz à tona a atualidade do autor dos “Ensaios” –nome de um gênero de discurso fundado por este livro crucial. Passeamos com Compagnon por temas como a amizade, a mortalidade, o “que sei eu?” que Montaigne transforma, por assim dizer, em (di) lema cético do qual as modernas filosofias do sujeito, de Descartes em diante, configuram longo desdobramento e resposta.  A crise de identidade  na gênese do moderno ecoa em Montaigne também pela celebração pré-rousseauniana do “bom selvagem” brasileiro –uma imagem mítica a serviço da crítica dos costumes europeus, como mostra o professor no Collège de France, especialista no que chama de os  “antimodernos”, linhagem que de, Baudelaire a Barthes, e filha de Montaigne, se compraz em desmontar as certezas  (como a razão e o progresso) em que o ocidental, tendo provado a maçã do conhecimento de sua relatividade, não pode mais repousar.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A NOVA OBSCURIDADE
Publicada por Jürgen Habermas  no mesmo ano que “O Discurso Filosófico da Modernidade” (1985), esta coletânea de artigos e entrevistas traduz seu denso debate para a arena de conjunturas políticas mais imediatas . Por exemplo, a polêmica (de ressonâncias tão atuais para o contexto brasileiro) sobre a criminalização de protestos públicos não violentos e a crise das energias utópicas da modernidade, dada a corrosão do  Estado de bem-estar social no fim dos anos 70.  Um dos principais eixos do livro é o ataque ao chamado neoconservadorismo. Ele é a “nova obscuridade”, depois do pesadelo totalitário, contra as Luzes do inacabado projeto moderno. Ele é um centauro intelectual composto de aspirações culturais reacionárias e –eis sua novidade ante os velhos conservadores- subserviência ao que a modernidade teria de pior, isto é, a ascensão de sistemas tecno-burocráticos que sufocam os potenciais emancipatórios imanentes à cultura secularizada, democrática e impulsionada pela razão comunicativa.  
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

FILOSOFIA E COSMOVISÃO
A grandeza do projeto filosófico de Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) é ainda pouco (re) conhecida nos bancos universitários nacionais. Isso não é de admirar, num cenário cultural e institucional em que a formação parece exigir que  a ousadia do pensar original vá ficando para trás como insensata expectativa juvenil, em detrimento do aprendizado de bem comentar comentadores de autores de línguas alheias. Raros entre nós os filósofos -e não só professores de filosofia-, e um deles é o autor deste livro de 1952. Trata-se da abertura -de cunho didático, esclarecendo termos como sujeito e objeto, razão e experiência, fatos e conceitos -de uma  monumental “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais”, projeto que, até pelo título, sugere o rigor racional que Santos exigia do empreendimento filosófico, inclusive no âmbito da cosmovisão metafísico-religiosa, que em tempos de “crise”, lamenta a certa altura, tende a cair no esquecimento ou, pior, sobreviver em variantes caricaturais.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

GIORGIO STREHER: A CENA VIVA [GUIA FOLHA edição de maio 2014]
O diretor teatral italiano Giorgio Streher (1921-1997) recorria a uma palavra alemã  (“strehen”) similar a seu sobrenome para definir a índole “fáustica” de toda arte autêntica: busca incessante, um inclinar-se, um consumir  se para chegar a, mover-se perpétuo ao que ainda não é. Conforme vemos pelos depoimentos coligidos por sua colaboradora Myriam Tanant, o princípio de strehen definia a inquietude de Streher em trabalhar, à frente do  Piccolo Teatro de Milão, pela ressurreição no segundo pós-guerra do teatro num “país culturalmente bloqueado pelo fascismo, com quarenta anos de atraso em relação ao resto da Europa em matéria de trabalho teatral”. Ele homenageia seus mestres, entre eles Brecht, comenta as remontagens obsessivas de  “Arlequim, Servidor de Dois Amos”, espetáculo que deu notoriedade internacional a sua trupe, e descreve os princípios da criação pela qual fazia do teatro obra de “verificação da poesia de um texto sobre as tábuas do palco”.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO