Friday, July 03, 2015

a dor e a pérola



Amigos, quero oferecer pra vossa meditação essas palavras de Schopenhauer sobre a dupla estratégia de lidar com um infortúnio. Por um lado, quando o mal independe de nós, evitar ruminações mentais sobre "se" isso, "se" aquilo, ou seja, tomar a decisão de ver no fato ocorrido a expressão da vontade do destino. Curioso que Schopenhauer aqui não diz que isso se deu assim, que tudo está programado de antemão para acontecer como tinha que acontecer. Ele apenas recomenda esse pensamento como forma de "aceita que dói menos", autoproteção, uma decisão pragmática, estratégia mesmo, no sentido dos generais em combate - o "inimigo", no nosso caso, é o desconhecido, esse "X" enigmático, a vida, tela de sombras e ruídos a que a mente impõe sua própria tecla SAP,de formas e sentidos, suas opções de interpretação, transformando a sucessão pura dos acontecimentos em obra do acaso, de nexos de causa e efeito racionais, de um soberano divino, tudo isso, ou nada disso. Mas, no caso de desastres nos quais vemos claramente a nossa omissão ou incompetência como causa, o filósofo não passa a mão na nossa cabeça, não prega o conformismo preguiçoso, ao contrário, aqui vale a pena a reflexão crítica sobre nossos erros, sobre como tudo poderia ter sido diferente se agíssemos assim ou assado, enfim, sobre a contingência. Ou seja, nosso "filosofar" cotidiano (filosofia não é monopólio dos afetados do eruditismo) precisa ser aberto, múltiplo, flexível, de acordo com o tipo de fenômenos sobre os quais se debruça. 
Falando em debruçar, essa linda imagem (do artista George Clausen) vale também nossa 're-flexão'.. Notem como, para além da expressão de dor, há um dobrar-se sobre si mesmo, a formação de uma espécie de concha.
Uma pérola poderá dali nascer: a sabedoria que transforma a vida, incubada pela meditação intensiva sobre o sofrimento deste instante passageiro, seja admitindo o poder de fatalidade (termo parente do "fato") do que nos escapa ao controle, seja remoendo as culpas pelo que fizemos de errado. Não remoer por remoer, mas moer para amassar e remoldar numa decisão e numa energia de não repetir. Este corpo em forma de círculo configura um mandala, termo hoje na moda por conta da febre de livros de mandalas para colorir. Mandala, círculo mágico, é um conceito que Jung trouxe do Oriente e teorizou como sendo uma forma que o inconsciente encontra de formular seu processo de reestruturação, recentralização, cura de traumas, demarcação de um espaço interno sadio, um "aqui você (o lixo, o inferno, o caos) não entra. Concha, mãe de uma nova pérola. Emoticon wink
A cruz ao lado da menina remete, claro, à dor da morte. Mas junguianamente porta um sentido de quaternidade integradora, é parte da ideia mesma de mandala, que assimila inclusive o mal e o supera. Por isso o diabo foge da cruz: por ver que foi engolido por ela (a quaternidade é arquétipo dessa inteireza que não cinde mais o bem e o mal) e nesse sentido "vencido", como símbolo da morte e viático de ressurreição.

-Unzuhause-


Em presença de um acontecimento desgraçado já ocorrido, no qual, por conseguinte, não se pode mudar nada, não devemos nos abandonar à ideia de que poderia ser de outro modo; menos ainda refletir sobre o que poderia ter sido feito para que fosse diferente. Porque isso simplesmente intensifica a dor até o ponto em que se torna insuportável, e assim nos tornamos ἑαυτοντιμορούμενος [aquele que atormenta a si próprio]. Pelo contrário, deveríamos seguir o exemplo do rei Davi que, durante a enfermidade de seu filho, assediava Jeová sem descanso com suas orações e suas súplicas; mas, quando seu filho morreu, estalou os dedos e nunca mais pensou nisso. Aquele que não é bastante leve de espírito para conduzir-se dessa maneira deve refugiar-se no fatalismo e convencer-se da verdade de que tudo que ocorre, ocorre necessariamente e, portanto, inevitavelmente.
Não obstante, essa regra só tem valor em um sentido. Em um caso de infortúnio, é útil para nos proporcionar alívio e consolo imediatos; porém, quando, como acontece muitas vezes, a culpa é de nossa própria negligência ou irreflexão, então a meditação repetida e dolorosa dos meios que poderiam ter impedido o acontecimento é uma autodisciplina saudável que nos serve como lição e aprendizado, isto é, para o futuro. Não devemos tentar desculpar, atenuar ou diminuir as faltas de que somos evidentemente responsáveis, mas confessá-las e trazê-las claramente ante nossos olhos em toda a sua extensão a fim de tomar a firme decisão de evitá-las futuramente. Temos, é verdade, de nos infligir o doloroso sentimento do descontentamento de si mesmos; entretanto, o homem não castigado, não aprende.
-Arthur Schopenhauer-