Tuesday, July 28, 2015

o elo perdido


Tenho lido sobre a psicologia positiva, um movimento que se levantou, no fim dos anos 90, contra a avalanche de teorias e métodos de tratamento da alma que, da psiquiatria quimioterápica à psicanálise verborrágica,  se fixam na exploração do que os humanos têm de mau, obscuro, "defeituoso", doentio. 
Era preciso - e não por acaso esse movimento nasce nos EUA,  terra de Emerson, pai da filosofia da autoconfiança, do pragmatismo de James, do self-made man, do equilíbrio das paixões individualista e patriótica mais avançado- reequilibrar essa visão negativista, maníaca do que vai mal nas pessoas e nas sociedades, com o que vai ou poderia ir bem: nossos potenciais, qualidades, capacidades de que a alma se engravida na noite de núpcias com sua natureza desreprimida, desbloqueada, desimpedida não só das neuroses, mas das teorias (como certa psicanálise) que querem nos aprisionar em narrativas neuróticas e castradoras do que é a vida sensata (certa psicanálise faz da castração um ideal, da "falta" um remendo secular para o velho dogma do pecado original) .
Pois bem, nesse contexto deparei com uma reportagem encantadora sobre um episódio de atraso e cancelamento generalizado de voos no Aeroporto Internacional da Filadélfia. Tinha tudo para ser um inferno, mas vejam do que os humanos são capazes, mesmo (ou talvez sobretudo) nas situações extremas, quando cai a máscara da besta e volta à luz o rosto que tínhamos antes de nascer:
"(...) quando um soldado recém-chegado do Iraque deu-se conta de que havia perdido a aliança de sua namorada, os funcionários do aeroporto e todos nós que estávamos no saguão de espera imediatamente começamos a procurar. Em pouco tempo, o anel foi encontrado, e se ouviu um grito de alegria da multidão. (...) Alguns tiraram coisas de comer que haviam guardado nas bolsas e ofereceram esses tesouros aos outros. Apareceram baralhos, e vários jogos tiveram início. As companhias aéreas distribuíram lanches. Havia explosões de gargalhadas. Como se fôssemos soldados esperando nas trincheiras durante um momento de calma entre batalhas, alguém ao longe começou a tocar uma gaita. (...) Embora não houvesse lugares para todos se sentarem, as pessoas usaram a criatividade para fazer cadeiras e sofás com suas bagagens (jogaram videogames umas com as outras). Um cara até transformou a tela do seu em um dispositivo semelhante a um drive-in, no qual várias pessoas assistiram ao filme Matriz. Eu usei o meu notebook para escrever esta coluna. (...) Quando bradar, gritar, ficar com raiva, incomodar-se e perder a cabeça parecem estar próximos, é maravilhoso, em lugar disso, ver a beleza aconchegante das pessoas, como raios de sol em um dia frio".