Sunday, July 26, 2015

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 25/07/15


Guia da Folha- Livros, Discos, Filmes
Caio Liudvik

Barbárie e redenção

“O mundo está repleto da cólera dos imbecis. Em sua cólera, a ideia da redenção os corrói, pois constitui o fundo de toda esperança humana.”  Podemos medir, por insights fulminantes como este , o quanto “Os Grandes Cemitérios sob a Lua” (1938), de Georges Bernanos, vai além do sanguinário episódio pontual que o parteja –as atrocidades da Guerra Civil Espanhola, ensaio geral da Segunda Guerra Mundial.
É um libelo atemporal contra o inferno de opressão e morte que trai (isto é,  revela, ao invés de atraiçoar, como querem crer os eternos militantes que não dão o braço a torcer ) a verdade profunda dos paraísos terrestres das ideologias totalitárias, à direita ou à esquerda.  
O católico Bernanos, testemunha ocular da barbárie espanhola quando morava em Maiorca, denuncia o escândalo do apoio da Igreja nacional ao terror franquista -que ela legitimou com o simbolismo de uma “cruzada” contra os comunistas. Tal pacto o fere em especial porque põe de joelhos ante a Babilônia histórica aquela que seria a principal força profética de resistência aos horrores do mundo moderno.
Bernanos vê na fé cristã, e na dignidade e liberdade radicais que ela confere, o baluarte transcendente para que a genuína esperança de redenção   não se degrade na cólera dos imbecis que urram e esmurram por um “mundo melhor”.
 A ira de setores da direita francesa, que o acusavam de renegar a militância pró-monarquista dos tempos de juventude ,   acirrou o desalento de Bernanos com os rumos da Europa. O anseio de um recomeço pessoal e civilizatório fez do Brasil sua nova casa entre 1938 e 1945, como mostra Sébastien Lapaque em  “Sob o Sol do Exílio”. O livro relata a  vivência de Bernanos no Rio de Janeiro e interior de Minas Gerais, as amizades com nomes como Juscelino Kubitschek e Alceu Amoroso Lima e seu entusiasmo (na contramão dos ódios que devastavam o mundo)  pela alquimia brasileira  das raças em torno de um ideário generoso e pluralista de nação.


AVALIAÇÃO  
ÓTIMO; ÓTIMO

PENSADORES MODERNOS
Entre os estudiosos do chamado mitologismo  moderno (o ressurgimento em pleno século 20 do interesse estético, filosófico e psicológico pelas formas arcaicas do discurso e da mentalidade religiosa), é célebre o elogio que Thomas Mann faz ao mito. Na “vida da humanidade”, diz ele, o mítico representa “um estágio anterior e primitivo, mas na vida do indivíduo, um estágio posterior, de maturidade”. 
O preceito, posto em prática por Mann em clássicos como “A Montanha Mágica”, consta num dos magníficos ensaios desta coletânea, dedicada à linhagem intelectual que vai do romantismo de Schopenhauer e Wagner à psicanálise de Freud, na qual ele vê a concretização por excelência de uma dialética antecipada por Nietzsche (o quarto autor destas reflexões): a expansão revolucionária, emancipatória, dos poderes da razão, da liberdade  e do progresso passando pelo “regresso” às fontes primevas e coletivas da consciência e da vida, as potências ctônicas, noturnas e irracionais com as quais, de modo reacionário e deturpado, o nazisfascismo tentava então seduzir as massas.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O RETRATO
Como diz Antonio Paim no prefácio desta reedição, o livro do jornalista e escritor Osvaldo Peralva (1918-1992)  é de grande importância no atual contexto de acirramento das disputas ideológicas no Brasil. Peralva narra sua trajetória e desilusões  junto à cúpula do Partido Comunista brasileiro, de que chegou a ser representante em Moscou a partir de 1953. Sob o impacto do bombástico relatório por Krushev dos crimes de Stálin,  o livro expõe desde as entranhas as hierarquias rígidas (os iguais mais iguais entre os “companheiros”), a   lógica autoritária, persecutória e de culto à personalidade vigentes na “pátria do proletariado”, e constrói  retratos devastadores da “maior fraude política da história do Brasil”,  o PCB, e de líderes como  Luís Carlos Prestes e Mariguella.  Nem por isso, porém Peralva renunciou aos sonhos de um socialismo democrático, para o qual considera estar contribuindo ao dissociá-lo da via bolchevique de tradução do ideário de Karl Marx.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A ESTETIZAÇÃO DO MUNDO
Em co-autoria com Jean Serroy, o filósofo Gilles Lipovetsky  -já chamado de “elétron livre” por sua posição ambivalente face à cultura “hipermoderna”, à diferença dos apocalípticos e integrados – estuda aqui o que chama de o novo “capitalismo artista”, que faz do apelo estético dimensão crucial na batalha pelos corações, mentes e bolsos dos consumidores.
 Não mais centrado na produção material, como em sua etapa fordista, o sistema tende a diluir as fronteiras modernistas entre a arte “comercial” e de vanguarda, da qual coopta as utopias iconoclastas e a exaltação do belo que transgride o meramente utilitário.
Não por acaso o livro toma como grande símbolo do contemporâneo a figura de Steve Jobs, com seu mantra (metáfora oriental que vem a calhar no caso do iniciado zen e mochileiro na Índia que foi o fundador da Apple) do “pense diferente” e sua preocupação estética indissociável da  inovação tecnológica.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO